Publicado 29/06/2025 09:00
Já tinha escutado falar muito bem de 'Homem com H', filme com direção de Esmir Filho que retrata a vida de Ney Matogrosso. Mas pedi que os amigos não se alongassem em seus comentários sobre o longa nem quis me aprofundar em leituras prévias sobre a obra. Queria o direito de me surpreender. E consegui! Assisti ao filme no domingo à noite e me encantei com a história do cantor. Tanto que segui chorando, em um misto de tentar enxugar as lágrimas e deixar que elas caíssem, enquanto todos os créditos desciam na tela à minha frente.
Ney se mostra como rio que corre pelo latifúndio da vida e segue o curso da sua essência, apesar das pedras no caminho. Aliás, todos nós somos, mas nos esquecemos disso em diversos momentos. Não é à toa que a natureza em água doce e corrente aparece no início e no fim do filme. A história do cantor me fez lembrar dos tantos moldes que tentam nos impor. Ney se rebelou contra todos eles, desde a rigidez do pai militar, passando por um relacionamento aprisionante mostrado logo no começo do filme, até romper com padrões artísticos durante a ditadura. "Não sou criança. Nunca fui. Nem quando eu era": essa frase dita no filme foi marcante. Também passei a entender com uma potência ainda maior os versos de 'Sangue Latino', de João Ricardo e Paulinho Mendonça: "Rompi tratados/ Traí os ritos".
Aliás, há cerca de dois anos tive a sorte de conferir o Ney performático e talentoso. Eu me encantei com ele no palco. Extremamente potente aos 81 anos na época. Na ocasião desse show, eu perguntei à assessora de imprensa da casa de espetáculos no Rio se a apresentação deveria começar no horário - moro distante do local e queria planejar a logística para voltar para casa. Ela me respondeu que não atrasaria porque Ney é muito certinho com horários. Durante a exibição do filme, ao ver sua disciplina sendo elogiada no tempo em que serviu a Aeronáutica, eu me lembrei disso. Ney foi transgressor em muitos aspectos, mas não se rebelou contra a pontualidade. Seu público agradece.
Ao ver a obra, também comprovei algo que já sabia: homem com H não é aquele que não chora, aquele que tenta impor o que uma mulher deve ou não fazer ou o que não mostra sua vulnerabilidade. O H maiúsculo é de quem entende que não é preciso nada disso para ser respeitado de fato. Percebi ali de onde vem a força do cantor. O choro contido pelo menino Ney na infância se revela na doença do marido, Marco de Maria, interpretado por Bruno Montaleone, que morre em decorrência de complicações associadas à Aids.
PublicidadeNey se mostra como rio que corre pelo latifúndio da vida e segue o curso da sua essência, apesar das pedras no caminho. Aliás, todos nós somos, mas nos esquecemos disso em diversos momentos. Não é à toa que a natureza em água doce e corrente aparece no início e no fim do filme. A história do cantor me fez lembrar dos tantos moldes que tentam nos impor. Ney se rebelou contra todos eles, desde a rigidez do pai militar, passando por um relacionamento aprisionante mostrado logo no começo do filme, até romper com padrões artísticos durante a ditadura. "Não sou criança. Nunca fui. Nem quando eu era": essa frase dita no filme foi marcante. Também passei a entender com uma potência ainda maior os versos de 'Sangue Latino', de João Ricardo e Paulinho Mendonça: "Rompi tratados/ Traí os ritos".
Aliás, há cerca de dois anos tive a sorte de conferir o Ney performático e talentoso. Eu me encantei com ele no palco. Extremamente potente aos 81 anos na época. Na ocasião desse show, eu perguntei à assessora de imprensa da casa de espetáculos no Rio se a apresentação deveria começar no horário - moro distante do local e queria planejar a logística para voltar para casa. Ela me respondeu que não atrasaria porque Ney é muito certinho com horários. Durante a exibição do filme, ao ver sua disciplina sendo elogiada no tempo em que serviu a Aeronáutica, eu me lembrei disso. Ney foi transgressor em muitos aspectos, mas não se rebelou contra a pontualidade. Seu público agradece.
Ao ver a obra, também comprovei algo que já sabia: homem com H não é aquele que não chora, aquele que tenta impor o que uma mulher deve ou não fazer ou o que não mostra sua vulnerabilidade. O H maiúsculo é de quem entende que não é preciso nada disso para ser respeitado de fato. Percebi ali de onde vem a força do cantor. O choro contido pelo menino Ney na infância se revela na doença do marido, Marco de Maria, interpretado por Bruno Montaleone, que morre em decorrência de complicações associadas à Aids.
Por falar em lágrimas, as minhas brotaram em um momento singelo e lindo do filme quando sapatos clássicos, de bico fino, apareceram em detalhe em um palco. Era Ney, vivido de forma extraordinária pelo ator Jesuíta Barbosa. Os calçados revelavam o figurino de terno branco que simbolizava lindamente as pazes com o pai. Ali, eu vi o nó de uma relação se afrouxar na tentativa de virar laço. Não segurei o choro. É belo ver quem consegue lidar com as dores e entender que muitos daqueles que vieram antes de nós são frutos de um tempo que só lhes deu de herança uma visão limitada do mundo. É preciso ser homem com H para se expandir além disso.
Segui emotiva até o fim do filme. Chorei de novo quando Cazuza, vivido por Jullio Reis, canta 'O tempo não para', música do próprio Cazuza com Arnaldo Brandão. E me debulhei em lágrimas nos créditos ao fim da obra, com a voz de Ney Matogrosso entoando 'Balada do louco', composta por Arnaldo Batista e Rita Lee: "Dizem que sou louco por pensar assim/ Se eu sou muito louco por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz, não é feliz".
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