Publicado 28/09/2025 08:00 | Atualizado 29/09/2025 08:33
Naquele sábado de setembro pela manhã, eu havia recebido da minha amiga Cláudia, que me acompanharia no teatro naquela noite, o vídeo de uma entrevista em que Beth Goulart dizia que havia sentido um chamado de Clarice Lispector para fazer o espetáculo que estreou originalmente em 2009. A atriz contou que, após ler 'Cartas perto do coração', que mostra a troca de correspondências entre Clarice e Fernando Sabino, ela se sentiu grávida da autora. De fato, Beth gestou a chance de dar vida à obra da escritora. Da minha poltrona da sala Rosamaria Murtinho, no Teatro Fashion Mall, na Zona Sul do Rio, tive exatamente esse sentimento: há algo ali que transcende a razão. A sensação é que Beth realmente consegue se afastar de si mesma para ser Clarice.
PublicidadeFalei isso com a atriz brevemente ao fim do espetáculo, já no hall do teatro, onde ela recebeu cumprimentos, e me arrepiei nessa hora. Ali no saguão, mesmo tendo em mente sua interpretação marcante, eu já a reconhecia novamente como a atriz com 50 anos de carreira, filha dos atores Paulo Goulart e Nicette Bruno, e dona de um sorriso tão marcante quanto o da mãe, que nos deixou em 2020. Também lhe disse que, em determinados momentos, seu olhar era tão penetrante no palco que senti como se ela falasse diretamente para mim. 'Simplesmente eu, Clarice Lispector', monólogo em que Beth revive o universo de Clarice, é mesmo impactante. É profundo, mas não monótono. "Já acabou?": essa foi a indagação de minha amiga ao fim da peça. Dá mesmo vontade de ver mais. Ou melhor, de rever o espetáculo para mergulhar e captar melhor tudo aquilo.
Inclusive, fiquei pensando qual verbo usaria para definir o trabalho de Beth naquela obra. E acho que reviver é um dos que mais se aproxima do que senti ali. Não posso analisar tecnicamente sua interpretação porque não sou estudiosa da arte da dramaturgia. Mas compartilho aqui os sentimentos, que são as minhas melhores bússolas na vida. A peça me hipnotizou pela intensidade de Clarice bem viva no palco. "Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas": gravei esta frase como um sinal de alguém que busca lucidez diante de tanta complexidade. Também memorizei a parte que diz: "É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é". É mesmo impressionante a forma como a gente gosta da idealização que fazemos do outro e temos dificuldade para conviver com a realidade despida da fantasia.
Na peça, Clarice Lispector conversa com o público, sendo ela mesma e suas personagens, quatro mulheres que, para Beth Goulart, representam as várias facetas da escritora: Joana, que representa o impulso criativo de 'Perto do Coração Selvagem'; Ana, do conto 'Amor', que simboliza a fase da autora dedicada ao marido e aos filhos; Lori, da obra 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres', uma professora primária que se prepara para descobrir e se entregar ao amor; e uma personagem sem nome do conto 'Perdoando Deus', com sua ironia, inteligência e humor'. A relação com Deus, aliás, foi abordada por um telespectador ao fim da peça. No burburinho da saída do teatro, consegui ouvir o rapaz falando com amigos que se identificou muito com as reflexões sobre o tema. Já uma moça lembrava uma famosa entrevista de Clarice concedida à TV Cultura em 1977.
Inclusive, também na entrada do teatro, um texto revelava a impressão de Teresa Montero, uma das maiores especialistas na obra da escritora, após assistir à peça em sua primeira temporada, em Brasília: "Fiquei muda na capital do Brasil. Sim, era Clarice. O espanto inexplicado".
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