Publicado 18/03/2026 17:13
Na festa de 35 anos da Conspiração Filmes, realizada ontem no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio, Maria Gadú voltou a comentar Luiza Possi e reacendeu uma polêmica que, até então, vinha sendo tratada de forma bem mais contida pela outra parte. O ponto é que, ao levar a discussão para o campo do fundamentalismo e até associá-la ao debate sobre “cura gay”, a cantora acaba ampliando o episódio para um terreno muito mais grave do que aquele que, de fato, apareceu na fala de Luiza.
PublicidadeNa entrevista mais recente que deu sobre o assunto, Luiza Possi foi cuidadosa, elegante e claramente comedida. Falou de si, da própria vida e da própria crença, sem atacar terceiros, sem levantar bandeiras contra ninguém e sem transformar sua experiência pessoal em afronta à vivência alheia. Isso faz diferença. Porque uma coisa é alguém relatar o modo como escolhe viver hoje. Outra, bem diferente, é atribuir automaticamente a essa fala um conteúdo que ela não expressou objetivamente.
É justamente aí que a reação de Maria Gadú passa a soar desproporcional e até contraditória. Afinal, se a liberdade é um princípio que deve ser defendido com seriedade, ela precisa valer por inteiro. Vale para a liberdade sexual, vale para o direito que cada pessoa tem sobre o próprio corpo, sobre os próprios afetos e sobre as escolhas que faz em diferentes momentos da vida. E vale também para a liberdade religiosa, já que cada um tem o direito de professar a fé que quiser, seja ela evangélica, católica, espírita, de matriz africana ou nenhuma.
Transformar a escolha religiosa de alguém em sinal de fundamentalismo, sem que essa pessoa tenha feito defesa explícita de extremismos ou de práticas como a chamada “cura gay”, é um salto que pede cuidado. Sobretudo porque, neste caso, Luiza Possi não colocou esse conteúdo na própria fala. Ao menos no que veio a público, ela falou sobre a maneira como escolhe conduzir a própria vida. E isso, por si só, está dentro do mesmo campo de liberdade que tantos dizem defender.
No fim, a impressão que fica é a de que Luiza preferiu a elegância da contenção, enquanto Maria Gadú optou por tensionar publicamente um assunto delicado com um peso argumentativo maior do que a situação parecia comportar. E talvez a verdadeira coerência com o discurso da liberdade esteja justamente em reconhecer que ela não serve apenas para validar escolhas com as quais se concorda, mas também para respeitar aquelas que pertencem exclusivamente ao outro.
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