Kakay2janeiroARTE KIKO
Publicado 02/01/2026 00:00
“Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além.”
Paulo Leminski
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Foi um ano tão denso que, quando o vi indo embora, quase sem se despedir, senti um certo alívio. É claro que o ano que se inicia também promete emoções, como sempre, mas em 2025 o país se afirmou em pontos essenciais. Saindo de uma tentativa de golpe de Estado, em que um grupo de ultradireita flertou com a Ditadura e tentou subverter a ordem constitucional, o Brasil precisou mostrar que é um país no qual a Democracia fez sua morada.
Em 18 de fevereiro, quando o Ministério Público apresentou a denúncia, eu escrevi que até setembro os golpistas seriam julgados e até novembro estariam presos. Nessa previsão havia muito de expectativa de enfrentar aquele momento tão grave. Muitos diziam que levariam anos para terminar o julgamento, ou pior, que seria impossível fazer justiça e simplesmente julgar tantas pessoas poderosas. Ex-presidente, generais, almirante, ex-ministros, coronéis, financiadores e políticos. Mas o Brasil dependia desse julgamento. Até para virar a página e mudar o discurso da polarização. Para respirar. Para viver. Até tentar ser feliz.
E o Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal, desempenhou seu papel constitucional e fez com que parecesse natural o que parecia impossível. Com toda turbulência política, acompanhamos a justiça sendo feita. Mesmo com sobressaltos, fugas covardes, estranhos soluços, ameaças e choros, o país se mostrou forte e maduro.
Ver o Brasil sair do mapa da fome, depois de ser tragado pelo obscurantismo bolsonarista, constatar o menor nível de desemprego da história e sentir orgulho de novamente ser respeitado no âmbito internacional. Tudo que voltou a ser quase natural faz a gente olhar com outros olhos para o ano que se inicia. Ainda há muita estrada.
A violência oprime, dá medo e assusta. O Brasil virou o país do feminicídio. A capilaridade do crime organizado deprime. A necessidade de enfrentar os delitos cometidos pelos congressistas no vergonhoso orçamento secreto volta a assustar a normalidade democrática. O PCC se mostrou poderoso no asfalto e na Faria Lima. Mais uma vez, seremos testados. Novamente o Supremo Tribunal será chamado à responsabilidade. Mas nada que não tenhamos enfrentado no ano que terminou.
Entramos em 2026 com a expectativa das eleições, com uma Copa do Mundo e com a tragédia do desastrado governo norte-americano invadindo um país vizinho, porém, sinto um país fortalecido. O enfrentamento dos golpistas, o julgamento democrático, as prisões dos condenados e a estabilidade democrática, tudo isso deu um rumo ao Brasil. É necessário estarmos sempre atentos, mas, se conseguirmos evitar o recrudescimento da polarização, o caminho natural será o país avançar. Todas as previsões catastróficas não se consumaram. Este ano chegou como quem não quer nada. E a esperança de um novo tempo veio com ele.
Lembrando-nos do poeta Eduardo Galeano:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos, e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
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