Kakay26maronlineARTE KIKO
Publicado 26/03/2026 00:00
“Todo delator mente, omite, protege e atende às pressões.”
Artigo de minha autoria escrito em 4 de setembro de 2017
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A delação volta a ser a palavra da moda e paira sobre o país como uma espada cortante. O instituto - pensado como um instrumento de defesa e prostituído na Lava Jato, estuprado pela República de Curitiba - perdeu credibilidade e respeito. Teve até subprocurador que, por escrito, admitiu, junto ao Superior Tribunal de Justiça, que as prisões na Operação Lava Jato tinham por objeto obter uma delação. Um escárnio. Tortura. Crime.
E o ex-juiz Moro e seus procuradores adestrados nada fizeram contra o subprocurador. Não fizeram porque era a mais absoluta verdade e, na realidade, eram cúmplices de um projeto de poder. A Lava Jato foi muito além de uma estratégia criminosa e ilegal de um grupo ávido pelo poder; era uma organização criminosa, na definição do Conselho Nacional de Justiça, com o objetivo de instrumentalizar o Judiciário.
Notícias de imprensa relatam que a delação do Daniel Vorcaro seria realizada, de alguma forma, em conjunto com a do fundo Reag. Parece evidente que isso não ocorrerá, pois a nulidade seria óbvia. Uma combinação explosiva que começaria por plantar uma hipótese de afastar a voluntariedade, requisito inicial do instituto. Enquanto o país acompanha o noticiário, as placas tectônicas dos interesses financeiros e políticos começam a se mover.
Nesta semana, um poderoso grupo de comunicação ousou repetir, contra o Presidente Lula, outro powerpoint. Parecia até que o Deltan Dallagnol estava trabalhando na imprensa. Neste momento de definição dos alvos da investigação, os interesses estão sendo postos à mesa. Mudar o foco é uma estratégia adotada em todos os escândalos midiáticos. Afinal, como escrevi em 2017, no auge da Lava Jato: “todo delator mente, omite, protege e atende às pressões”. Serve a interesses obscuros e vira uma peça no jogo político. A colaboração passa a ser uma moeda política e, em um país dividido no ano de eleição, o potencial destrutivo de uma delação dirigida é gravíssimo.
Por tudo isso, é importante acompanhar, com lupa, toda a evolução das investigações. Esse caso tem grande potencial para alcançar políticos influentes e grupos econômicos poderosos. E a quantidade de informação já coletada faz com que as delações comecem com um longo caminho investigativo já percorrido.
Na realidade, há várias colaborações na fila. Quem faz primeiro leva uma certa vantagem. Com efeito, uma delação séria e fundamentada em provas também serve de defesa para alguns investigados. É uma maneira de mostrar e comprovar a inocência de alguns que estão sendo apresentados na mídia como investigados.
Até porque é inadmissível o que se faz irresponsavelmente com pessoas que tiveram qualquer relação com os principais alvos. O simples fato de constar o nome na relação telefônica do Vorcaro é motivo de alarde. Os prejulgamentos ocorrem a uma velocidade supersônica. Um jantar, uma viagem, normal e natural, entre pessoas que eram ou são amigas e/ou conhecidas, passam a ser objeto de apuração. Este é um momento de seriedade e parcimônia. Ninguém está acima da lei. Mas pintar o alvo e atirar a flecha depois é antirrepublicano e, certamente, atende a interesses obscuros.
Sempre lembrando-nos da frase atribuída, sem confirmação, a Mário Quintana: “o que vale não é o que a gente fala, mas o que a gente cala.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
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