Publicado 14/05/2026 00:00
“A advocacia não é profissão para covardes.”
Sobral Pinto
PublicidadeSobral Pinto
Corria o ano de 2012 quando, numa quarta-feira, recebi um telefonema de um grande empresário libanês, Samir Traboulsi. Conversa simpática e interessante. Ele me disse que estava em Paris com Jean-Charles Naouri, dono do grupo Casino e, à época, um dos homens mais ricos da França. Perguntou se eu tinha algum impedimento para trabalhar contra o grupo do Abílio Diniz em uma grande disputa comercial pelo controle do grupo Pão de Açúcar que movimentava os tribunais. Respondi que não, e ele sondou se eu poderia ir àquela noite a uma reunião em Paris. Amanheci na quinta-feira na capital francesa.
Fui direto para o hotel Four Seasons, onde um escritório havia sido montado na suíte presidencial. A reunião começou assim que cheguei, e o mote principal era definir uma estratégia jurídica e de mídia para um momento super delicado na disputa de gigantes. O Jean-Charles expôs o que estava sendo preparado e que iria para o noticiário no Brasil, em grande estilo, no final de semana. O Casino tinha comprado todo o espaço nobre da imprensa nacional em uma grande ofensiva contra o Pão de Açúcar. Todas as grandes revistas, a primeira página de todos os jornais importantes, os espaços na televisão, enfim, uma ofensiva de guerra com o objetivo de encurralar e enfrentar o governo. Campanha agressiva acusando setores do governo de privilegiar o grupo brasileiro em detrimento do francês, que havia investido muito no país.
Escutei atentamente e fiz alguns telefonemas a pessoas-chave no Brasil. No meio da tarde, disse aos dois que, na minha visão, a estratégia, caríssima e ousada, estava equivocada e que eu não topava trabalhar com eles. O empresário, curioso e inteligente, quis saber o motivo. Eu expliquei que faria exatamente o oposto do que estava planejado. Faria uma grande ofensiva de imprensa, igualmente caríssima e ousada, mas elogiando o governo, ressaltando que investira no país em um momento difícil e que acreditava 100% nas instituições brasileiras. Era exatamente o contrário do que a imprensa brasileira estava prestes a divulgar em poucas horas.
Pedi para parar um pouco a reunião e abrir um vinho. O libanês criticou e disse que, na França, não se bebia à tarde em uma reunião tão relevante. Eu respondi que era brasileiro e que um Angelus seria quase necessário dada a tensão. O melhor sommelier da França, Éric Beaumard, logo apareceu com o vinho, para alguns, o melhor do mundo: um Angelus 61.
Depois da pausa e de certo isolamento do Jean-Charles, o empresário pegou o telefone e eu o escutei determinar que mudaria toda a estratégia. Notei que, do outro lado da linha e do Atlântico, as pessoas reclamavam. Ele simplesmente me ouviu e mandou alterar. Foi um sucesso a mudança de rumo e nós saímos vitoriosos naquela que era uma das maiores disputas comerciais do Brasil. E ainda fiz um bom amigo na França com direito a belos vinhos no almoço e no jantar.
Conto essa história para demonstrar a importância de lidar com a imprensa nos processos, inclusive nos criminais. Se não houver uma resposta pública às acusações em casos midiáticos, o cliente vira um cadáver putrefato no meio da sala. O defensor tem que ter a coragem de responder em nome do cliente. Ainda que, às vezes, o desgaste para o advogado seja evidente. Não se pode ter medo de críticas, desde que o patrono entenda que está lutando o bom combate.
Nesta semana, fui massacrado pela esquerda por advogar para o senador Ciro Nogueira e, ao mesmo tempo, execrado pela direita por advogar para o ativista de esquerda Thiago Ávila. Como não tenho rede social, sequer acompanho, meu escritório me informa sobre algumas publicações mais bizarras.
Em um momento de tanta polarização no país, a investigação criminal virou um instrumento de poder. Pode ajudar a vencer ou a perder uma eleição a deflagração de operações policiais. Por isso, a regra continua a mesma: a defesa tem que ser 100% técnica e produzida nos autos do inquérito e no processo. Mas não se pode ter medo de enfrentar o processo midiático.
É bom deixar claro que não somos políticos, muito menos partidários. O que interessa ao advogado é realizar a defesa técnica e obter a absolvição do seu cliente. Como fizemos em todos os casos em que atuamos para o senador Ciro Nogueira no Supremo Tribunal Federal. Lembrando-nos de um ditado popular:
“O segredo é deixar a onda vir. A gente só se afoga quando perde a calma.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
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