Arte coluna kakay 28 maio 2026_onlineArte Paulo Márcio
Publicado 28/05/2026 00:00
“Ninguém gosta de ser pobre ou de viver do Bolsa Família ou de favores, mas sim do próprio trabalho.”
Lula em junho de 2023
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Era uma daquelas inesquecíveis sextas-feiras em que a turma que nunca cumpriu a agenda 6 x 1 sentava no Piantella ao meio-dia para beber vinho e whisky e só saía com a noite já escondendo a luz do sol. O Piantella era, seguramente, o melhor restaurante do país e o lugar preferido dos políticos, intelectuais, empresários e herdeiros. Às sextas-feiras, claro, os políticos não batiam ponto, pois a agenda 4x3 impunha o trabalho no Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado, somente de terça a quinta, porque ninguém é de ferro. Com o piano do Mariozinho tocando Roberto Carlos, entrou na roda uma pessoa muito querida, inteligente, perspicaz e bem-humorada: Mauro Santayana. E, com um copo na mão, propôs um brinde, pois acabara de ser nomeado adido cultural em Roma. Em meio ao brinde, um gaiato exclamou: “Este é o emprego que eu pedi a Deus”. Ao que o grande Santayana retrucou: “Pediu à pessoa errada; eu pedi ao Sarney!”. Nosso querido Presidente à época.
Em um exercício de imaginação, posso imaginar os senhores de engenho, donos de centenas de escravos, preocupados numa sexta-feira à tarde com o murmúrio de que o fim da escravidão poderia acontecer. Sentados numa varanda grande e aconchegante, com um indefectível copo de whisky ou de cachaça, davam voz ao medo de perderem os negros que passavam, em escala 7x0, em frente à casa-grande. Profetizavam que seria, inevitavelmente, a quebra do Brasil. Como sobreviveriam sem a mão de obra escrava, ruminavam entre eles. E, ao longo da história, esse mesmo grupo, só com retoques e cores diferentes, vem profetizando a quebra do país e o abuso no crescimento dos direitos dos trabalhadores. O acinte de ver um operário Presidente da República pela terceira vez, em passos largos para a quarta vitória, no primeiro turno.
Foi assim quando o 13º salário foi instituído. A gritaria foi grande e as previsões apontavam para uma paralisação macabra. Da mesma maneira, o barulho da elite perversa com a licença-maternidade e, depois, com a de paternidade e tantas outras pequenas, mas significativas, conquistas do trabalhador brasileiro. Mas a burguesia mais mesquinha não investe apenas contra os direitos dos trabalhadores. Não satisfeita, ela questiona também os programas sociais. E com raciocínio, em regra, que faz corar quem ousa pensar em um país que dá voz a pensamentos cruéis e obtusos. Ainda nesta semana, um eterno candidato da ultradireita e da direita atacou, solertemente, o Bolsa Família. Com um raciocínio de dar engulhos, nojo mesmo.
Com a arrogância natural da nossa elite, que gosta de criticar tomando Macallan, cuja dose pode custar mais do que o valor de um Bolsa Família, deu margem ao pensamento que predomina na direita e criticou o programa e o governo Lula: “Você não gera nenhum tipo de estímulo para as famílias que queiram sair do Bolsa Família”.
Em regra, essa crítica rasa, vulgar e banal não teria grande repercussão devido à fragilidade intrínseca a ela. Mas, em um momento eleitoral, reverberou.
Claro que não adianta mostrar aos ultradireitistas que um estudo da FGV demonstrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários conseguiram deixar o Bolsa Família. E um dado interessante: entre os jovens que eram adolescentes quando recebiam o benefício, esse número passa de 70%. Ou seja, os filhos do Bolsa Família, em grande parte, não continuam no programa, como demonstrou a Ana Paula Renault ao responder à crítica. Que, por sinal, definiu bem a manifestação do apresentador: “preconceito fantasiado de opinião”. Ou demonstrar que, de janeiro a outubro do ano passado, 2.069.776 famílias deixaram de depender do programa de transferência de renda. Dessas, 1.318.214 saíram em razão do aumento dos ganhos totais do domicílio.
A observação do eterno candidato, maldosa e rasteira, ensejou respostas de políticos e cientistas políticos que vieram com manifestações ácidas de vários setores. Mas quem, para mim, liquidou o assunto foi um episódio retratado pelo grande Alberto Villas no seu excelente jornal O SOL: “um anônimo, comendo frango com macarrão no domingão, também gravou um vídeo convidando o apresentador a ir para a sua comunidade viver com 600 reais por mês”. Não precisa procurar respostas mais preparadas e fundamentadas; basta ter um pouco de vergonha na cara.
Lembrando-nos sempre de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco, o que desejo ainda não tem nome”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
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