Arte coluna opinião (18/06/2026)arte o dia (IA)
Publicado 18/06/2026 00:00
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
Clarice Lispector
Publicidade
Final da Copa do Mundo de 1998, havia uma certeza no ar: o Brasil sairia da França campeão. Ainda que contra os donos da casa, até mesmo os franceses, no fundo, tinham o Brasil como favorito. Um dia antes da decisão, encontrei, por acaso, em Paris, Flora e Gil, que estavam sem ingressos. Com a relação que tínhamos com a CBF, foi possível conseguir mais 2 convites e fomos confiantes ao estádio para ver o Brasil ganhar a Copa. Mas o futebol tem seus caprichos e, em um jogo ainda misterioso, vimos a seleção francesa impor humilhantes 3 x 0 em pleno Stade de France. Paris virou uma festa. O susto de ganhar da seleção brasileira fez a comemoração ser ainda maior. No futebol, a surpresa é sempre um fator a ser levado em conta.

As decepções com as grandes seleções brasileiras - especialmente a de 1982, na Espanha, com Falcão, Zico e Sócrates, e a humilhante derrota de 7x1 para a Alemanha, em 2014, em pleno Mineirão - servem, talvez e contraditoriamente, para criar uma discreta e estranha esperança de que o Brasil ganhe a Copa neste ano. Quando tínhamos grandes times e uma união em torno da equipe nacional, o que vivemos foi uma enorme frustração. Foram campeonatos em que o Brasil inteiro parou de trabalhar para acreditar no time e na possibilidade de vitória. O ambiente nas ruas era de confiança exagerada e de certa comemoração antecipada. Nos dias de jogos da seleção, o país literalmente ficava em suspense e as derrotas eram recebidas como uma desilusão que não era possível acreditar.

Neste ano, o time está desafinado e o que se sente nas ruas é uma enorme preocupação com um fiasco anunciado. Não conseguimos ter aquela sensação, inventada pelo genial Nelson Rodrigues, de que nossa seleção é “a pátria em chuteiras”.

Iniciada a Copa, é raro encontrar alguém que saiba qual será a escalação do próximo jogo. E o festival de absurdos que os EUA estão impondo, de maneira fascista, prepotente e arrogante, a várias seleções fez com que a FIFA fosse humilhada de uma forma que esse esporte não merecia.

Esta Copa do Mundo ficou a cara do Trump, e isso diminuiu a magia que cerca o espetáculo grandioso que normalmente encanta mesmo quem não gosta do esporte. Mas sempre podemos nos recorrer ao surrado ditado de que o “futebol é uma caixinha de surpresas” e acreditar em um milagre.

Pelo menos o Brasil, triste e quase envergonhado com um futebol que não é a sombra do que já jogamos, vê com leveza a extrema direita perdendo espaço no país. A família Bolsonaro vai sendo condenada, um a um, pelo Supremo Tribunal e os escândalos envolvendo o grupo vão deixando cada vez mais evidente que o presidente Lula deverá ganhar no primeiro turno. E o melhor, de goleada. Se não ganharmos dentro de campo com a seleção brasileira, ganharemos no jogo pela Democracia.

Lembrando-nos do nosso Fernando Pessoa, ao alimentar a esperança: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
Leia mais