opiniãoimagem gerada com ia
Publicado 23/07/2026 00:00
“Porque é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: Homens, por que é que nos criastes?”
Antero de Quental
Publicidade
Mesmo sendo a Copa mais estranha que já vi, fica um pouco de vazio com o término. É certo que a politização promovida por Trump, o servilismo irritante do Presidente da FIFA, os problemas com a proibição de jogadores do Irã, o veto ao árbitro somaliano, a revista humilhante em algumas seleções e tantas outras arbitrariedades fizeram com que muitas pessoas, eu inclusive, optassem por ver os jogos pela televisão, negando-se a ir aos EUA de Trump. A atitude violenta e antiesportiva da Argentina na final levou a FIFA a abrir um inquérito, e há uma petição online (“Argentina Out”) com cerca de 23 milhões de assinaturas que pede a exclusão do país da competição.
E também, de certa forma, a Copa do Mundo deste ano expôs o racismo no futebol, um problema grave e vergonhoso, potencializado e amplificado pelas redes sociais.
O episódio envolvendo a senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a eliminação do Paraguai pela França por 1x0, em que fez comentários racistas contra o capitão francês, Kylian Mbappé, repercutiu no mundo. As denúncias de atos violentos e racistas de torcedores argentinos contra torcedores do Egito e do adorável Cabo Verde serviram para cultivar certa antipatia pela seleção argentina.
A própria FIFA apresentou dados que evidenciam uma escalada dos abusos. A imprensa noticiou que o Serviço de Proteção das Redes Sociais da entidade identificou 89 mil postagens agressivas apenas na fase de grupos, um aumento de 13 vezes em relação à última Copa no Catar. E as motivações raciais representaram 11% das mensagens ofensivas. O grupo supremacista branco americano Ku Klux Klan enviou, ao longo de toda a competição, imagens de pessoas negras sendo enforcadas. E os emojis de macacos proliferaram. Se isso servir para aprofundar as medidas contra o racismo, pode ser uma saída.
Mas o futebol é um grande negócio e, para muitos, a imagem que fica é a da exuberância dos números que a Copa do Mundo apresenta, e os recordes foram históricos. A FIFA arrecadou aproximadamente US$ 15 bilhões; só a bilheteria e a hospitalidade geraram cerca de US$ 3 bilhões. E o público presente nos 104 jogos totalizou 6.810.966 torcedores, com taxa de ocupação de 99,73%. A estimativa oficial é de que a audiência global girou entre 5 e 6 bilhões de telespectadores.
Para nós, brasileiros e amantes do futebol, o que ficou foi só tristeza. Uma seleção sem coração, sem garra e sem talentos. A imagem de um Neymar, com seus relógios milionários, sem jogar nada, é um contraste muito forte com o futebol espetacular de um Yamal, com sua simplicidade e gestos inequívocos de solidariedade e empatia. Não se sabe exatamente em que curva o Brasil se perdeu. Resta aos torcedores voltar ao Campeonato Brasileiro para ver o meu Cruzeiro dar show com o Matheus Pereira e Kaio Jorge. É o que nos resta.
Lembrando-nos de Pessoa:
“Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
Leia mais