Arte Kakay (13/08/2026)Imagem gerada com IA
Publicado 13/08/2026 00:00
“A advocacia não é profissão de covardes.”
Sobral Pinto
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Estava almoçando em Londres, em junho de 2016, com meu amigo André Esteves, quando recebi um telefonema de um jornalista com a bomba: o PGR, surtado, havia pedido a prisão do Presidente Sarney em razão de uma fajuta delação premiada do desqualificado senador Sérgio Machado. Mesmo para os padrões macabros da maldita Operação Lava Jato, era um arrematado absurdo. Os irresponsáveis condutores políticos da República de Curitiba, indigentes intelectuais e com graves questões éticas, estavam surfando numa onda de poder midiático. Como advogado criminal — sim, nós existimos —, liguei na hora para a casa do Presidente Sarney. Eu que tinha que dar a notícia. Devido ao fuso horário, o meu cliente mais querido estava dormindo. Mandei acordá-lo e dei cuidadosamente a notícia. Ele, claro, demorou a acreditar. Saí do restaurante e fui para o aeroporto. O esdrúxulo pedido foi negado pelo ministro Teori.
O advogado criminal tem um compromisso muito diferenciado com as pessoas para as quais advoga. A relação que se cria é única. O cliente deposita nele uma confiança ilimitada. São a liberdade, a honra e a vida que estão em jogo. E é comum, infelizmente, a incompreensão e a injustiça em relação à nossa resposta.
Em 27 de junho de 1996, levei para depor Zélia Cardoso, a poderosa ministra da Fazenda do Collor. Entramos no Supremo Tribunal, onde ela seria interrogada pelo ministro Neri da Silveira. Alertei-a para que ficasse tranquila; o Neri era um homem extremamente gentil. Eu nunca o tinha visto atrevido ou arrogante. No meio do depoimento, Zélia, que estava amamentando o filho Rodrigo, não estava bem. Fraca. Emocionada. A diretora-geral da Corte, Dra. Alda Villas Boas ofereceu alguns biscoitos. Zélia pega um e, para surpresa geral, o ministro Neri, rispidamente, quase grita com o dedo em riste: “A senhora não pode comer no meu Tribunal”. Certamente possesso por causa do ridículo confisco do governo Collor. Parecia filme americano. Um horror. A ministra Zélia se encosta no meu ombro e diz: “Acho que vou desmaiar”. Eu perguntei: “Você consegue desmaiar?” e ela desfaleceu. Eu tive que pegá-la nos braços.
Nesta semana em que se comemora o dia do advogado, faço essas breves anotações em homenagem aos advogados criminais, tão injusta e ingratamente criticados pelo Presidente Lula, no que eu prefiro crer ter sido apenas um arroubo de má expressão. Um homem que teve ao seu lado Sepúlveda Pertence e Márcio Thomaz Bastos tinha que ter a grandeza de reconhecer o valor da advocacia criminal. Mas nós somos acostumados à soberba dos clientes, ao certo desdém e aos esquecimentos. Para nós, o que importa é ver a Justiça ser feita. Como no julgamento pelo plenário do Supremo Tribunal, na ADC 43, em novembro de 2019, quando sustentei a tese que resultou na liberdade do Presidente Lula. Com a vitória, pude acompanhar, sozinho em casa, o Lula sair da prisão.
Essa é a vida do advogado criminal, a quem rendo minhas homenagens na semana em que comemoramos o nosso dia, 11 de agosto.
Relembrando o que eu disse na Tribuna sagrada do Supremo Tribunal: “A advocacia criminal nunca foi uma profissão para quem busca aplausos”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
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