Rodoviária Novo Rio: milhares de cidadãos trocaram a capital fluminense pelo interior ou por outros estadosTomaz Silva/Agência Brasil
Publicado 27/08/2025 12:23
O Censo Demográfico 2022 do IBGE trouxe dados que revelam uma realidade incômoda para o estado do Rio de Janeiro: trata-se da unidade da federação que mais perdeu habitantes para outras regiões do país. O saldo líquido negativo de 165 mil migrantes – o maior em termos absolutos e relativos do Brasil – evidencia um processo contínuo de evasão populacional. Em termos proporcionais, a taxa de migração líquida negativa fluminense (-1,03%) foi cinco vezes superior à de São Paulo (-0,20%).
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O retrato é claro: o Rio não apenas perde moradores, mas perde para seus vizinhos mais próximos. Dos que foram embora, 21,4% escolheram morar em São Paulo, 17,7% em Minas Gerais e 7,3% no Espírito Santo. Embora sejam estados que enfrentem seus próprios desafios, os demais entes federativos da Região Sudeste apresentam gestões públicas mais consistentes, capazes de oferecer melhores condições de vida.
A análise por municípios escancara o problema. A Região Metropolitana, onde vivem três de cada quatro fluminenses, foi a única a registrar queda populacional entre 2010 e 2022, com taxa média negativa de -0,15% ao ano. O Rio de Janeiro, capital e cartão-postal do Brasil, perdeu 391 mil moradores. São Gonçalo, segundo município mais populoso do estado, perdeu mais de 105 mil pessoas. Maricá destoa do quadro: recebeu mais de 69 mil novos moradores – um crescimento de 35,1%.
Se a capital e sua região imediata perderam dinamismo, o interior fluminense experimentou um movimento oposto. As Baixadas Litorâneas, por exemplo, tiveram saldo migratório positivo de 113 mil pessoas, crescendo 1,8% ao ano. Cidades como Rio das Ostras e Cabo Frio consolidaram-se como polos de atração, impulsionadas pelas atividades de petróleo, gás e turismo. Cabo Frio, inclusive, aparece num recente estudo como um dos três centros de uma nova metrópole em formação ao longo da costa do petróleo: a Região Metropolitana da Bacia de Campos. Com 1,3 milhão de habitantes e geração de empregos em alta, o novo conglomerado tem como outros centros as cidades de Campos dos Goytacazes e Macaé.
Esse deslocamento interno reforça uma tendência: quem não consegue migrar para fora do estado do Rio, está buscando no próprio território um lugar mais seguro, com oportunidades de emprego e mais qualidade de vida. A violência urbana (alimentada pelo tráfico e pelas milícias), transporte público precário e ausência de planejamento metropolitano são fatores que empurram famílias para outras regiões.
Em outras palavras: o Rio não apenas deixa de atrair, como se torna um espaço de repulsão populacional. Esse não é o legado que se esperava da fusão entre os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, feita em 1975 sem integração real, e que até hoje cobra um preço alto.
O êxodo de milhares de cidadãos deveria servir de alerta: sem um arranjo institucional sólido, transparente e orientado às necessidades da população, o Rio de Janeiro continuará perdendo gente, talentos e capacidade de se reinventar. Ou o estado assume a responsabilidade de reestruturar sua gestão e oferecer condições mínimas de qualidade de vida ou continuará dando adeus a quem sai para não voltar.
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