Publicado 10/10/2025 13:34
Há uma luz no fim do túnel quando o assunto é o projeto da EF-118, que corria o sério risco de sair dos trilhos. Conhecida como Anel Ferroviário do Sudeste, a ferrovia — que interligará portos do Rio de Janeiro e do Espírito Santo à malha ferroviária nacional — ameaçava nascer incompleta por uma disputa política entre três estados.
PublicidadeMas novos ventos sopram a favor. Na última quarta-feira (08), a Comissão de Viação e Transportes (CVT) da Câmara dos Deputados aprovou o pedido de realização de uma audiência pública para debater a concessão da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) e a implantação do primeiro trecho da EF-118. A solicitação foi feita pelo deputado federal Da Vitória (PP-ES), coordenador da bancada federal capixaba, com apoio dos deputados Bebeto (PP-RJ), Gilson Daniel (Podemos-ES) e Fausto Pinato (PP-SP). Ainda não há data confirmada para a audiência.
O tema merece um breve histórico para que o leitor tenha a exata dimensão do processo em torno da construção da ferrovia.
Projeto antigo, defendido por empresários e lideranças políticas e empresariais fluminenses e capixabas, a EF-118 ligará as capitais dos dois estados, possibilitando que cargas de outras regiões do país — como os grãos produzidos no Centro-Oeste — sejam escoados pelos portos do Rio, fugindo das longas filas que hoje se formam sobretudo nos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR). No caso do Espírito Santo, abre-se uma importante rota para a exportação de pedras.
Em 2024, depois de uma longa mobilização, o projeto para construção do primeiro trecho da ferrovia – entre o Porto do Açu (RJ) e o município de Anchieta (ES) - finalmente começou a andar. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) colocou em debate o projeto de concessão da EF-118 por 50 anos, num modelo em que o governo federal arcará com parte do valor necessário à obra (R$ 3,28 bilhões).
O leilão do trecho está previsto para o primeiro trimestre de 2026. Serão 170 km de trilhos, sendo 47% no Rio de Janeiro e 53% no Espírito Santo. Os outros 80 km que faltariam para interligar a EF-118 à Estrada de Ferro Vitória-Minas e à malha nacional, estendendo-a de Anchieta a Santa Leopoldina (ES), seriam construídos pela mineradora Vale, como contrapartida pela renovação da concessão da EFVM e da Estrada de Ferro Carajás.
É neste ponto que o projeto parece desandar. Como bem observou o deputado federal Da Vitória (PP-ES), muito se fala em Brasília que o investimento da Vale teria outra destinação. O novo foco da mineradora — por pressão política, dizem à boca miúda — seria a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), que ligará o futuro Porto de Ilhéus (BA) a Figueirópolis (TO), num total de 1.527 km.
Especialistas em logística, contudo, apontam que a FIOL ainda não é viável, tanto pela pouca carga que transportaria quanto pelo porto de chegada – que ainda nem existe. Já a EF-118 terá como ponto de chegada o Porto do Açu, que já se firma como um dos principais portos de águas profundas da América Latina. A pressão política da bancada baiana, no entanto, tem pesado a favor do projeto da FIOL. A Bahia tem um governador do PT (Jerônimo Rodrigues) e dez parlamentares do partido do presidente Lula.
Se a Vale trocar o investimento na EF-118 pela obra na Bahia, o Anel Ferroviário do Sudeste nascerá desconectado da malha nacional. Porque, sem os 80 km que faltarão entre Anchieta e Santa Leopoldina, não haverá a tão sonhada ligação com o restante do país. Mais uma vez estaremos lamentando a falta de visão estratégica em torno de um tema que importa não apenas ao Rio de Janeiro e ao Espírito Santo, mas a todo o país.
A aprovação de uma audiência pública para esclarecer esses pontos obscuros será muito bem-vinda. Colocar esta questão em pauta foi um gol de placa da bancada capixaba na Câmara, formada por dez deputados federais, que estão mobilizados na defesa dos interesses do Espírito Santo — que, assim como o Rio de Janeiro, tem muito a ganhar com a EF-118.
Cabe agora aos 46 deputados federais da bancada fluminense na Câmara — independentemente de partidos — demonstraren compromisso com os eleitores que os elegeram e defenderem essa pauta que realmente importa aos nossos interesses econômicos. O estado precisa de representantes que pensem menos em diferenças políticas e mais em resultados concretos para o desenvolvimento regional e nacional. A hora é essa, e a ferrovia exige essa união. Com a palavra, os nossos parlamentares.
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