A Ponte Rio Niterói é um ícone da união (ou divisão) entre a capital fluminense e o interior do estadoPortal Gov.br
Publicado 12/02/2026 13:03
Não é de hoje que defendemos uma política pública articulada entre o setor produtivo, os municípios e o Governo do Estado, com foco no fortalecimento do interior fluminense. Passados pouco mais de 50 anos da fusão entre os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, o território resultante dessa junção ainda se comporta como um gigante disforme: uma cabeça hipertrofiada — a capital — sustentada por um corpo fragilizado — o interior. A elevada concentração populacional, econômica e institucional no Grande Rio é o retrato de um modelo de desenvolvimento centralizador que já se provou ineficiente e excludente. Superar essa lógica não é apenas desejável, é urgente.
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Nesse contexto, chama atenção a “Análise da Concentração Produtiva do Sudeste Brasileiro”, estudo de Débora Cristina André Nestor Leal, Manoela de Matos Alves Invernici, Marcela Lima da Silva e Joilson de Assis Cabral, publicado no “Cadernos do Desenvolvimento Fluminense” (nº 29, 2025), no âmbito do PPGER/UFRRJ. O trabalho investiga a concentração produtiva nas capitais dos três estados mais ricos do Sudeste — São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte — por meio do Método de Extração Hipotética (MEH) de Insumo-Produto, ferramenta que simula a retirada de atividades produtivas para medir a dependência econômica de cada região.
Os resultados são contundentes. São Paulo demonstra elevada resiliência econômica graças à diversificação territorial e setorial. Minas Gerais apresenta uma estrutura produtiva mais distribuída, com menor dependência da capital. Já o Rio de Janeiro segue preso a um modelo excessivamente concentrado na capital, com baixa capilaridade econômica no interior. Trata-se de uma centralização que compromete a competitividade estadual e aprofunda desigualdades regionais.
Os números confirmam esse desequilíbrio estrutural. Em 2015, a cidade do Rio de Janeiro respondia por R$ 320,2 bilhões do PIB, equivalente a 5,34% do PIB nacional, enquanto sua região metropolitana somava R$ 155,8 bilhões (2,60%) e o interior, R$ 183 bilhões (3,06%). Em contraste, o interior paulista superava com folga a capital e a metrópole, somando R$ 883,8 bilhões (14,74% do PIB nacional). Em Minas Gerais, o interior também liderava, com R$ 350 bilhões (5,84%), evidenciando um modelo mais equilibrado e sustentável.
A análise de extração hipotética reforça a vulnerabilidade fluminense: a economia estadual é excessivamente dependente da capital, herança de uma estrutura histórica centralizada desde o período colonial. Essa dependência limita a diversificação produtiva, concentra renda e empregos, expõe o estado a choques econômicos localizados e bloqueia oportunidades de desenvolvimento nas demais regiões. Em termos práticos, significa menos inovação, menos investimento e menos qualidade de vida fora do Grande Rio.
Às vésperas das eleições para o Governo do Estado, torna-se imprescindível que os(as) candidatos(as) ao Palácio Guanabara apresentem propostas concretas para romper com esse modelo concentrador. Governar o Rio de Janeiro exige uma estratégia territorial clara, políticas de descentralização produtiva e uma governança capaz de reduzir desigualdades históricas.
O futuro do estado do Rio de Janeiro não pode continuar refém de uma única cidade, por mais maravilhosa que seja. Ou o Rio de Janeiro interioriza o desenvolvimento, ou continuará aprofundando sua própria fragilidade. Está lançado o grande desafio que levaremos às urnas.
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