Chegada a Campos pela BR-101: a duplicação completa da rodovia é demanda urgente pela integração regionalCésar Ferreira
Publicado 27/02/2026 13:43
Enquanto os holofotes se voltam para a disputa pelo Palácio Guanabara nas eleições de outubro, uma pergunta estratégica deveria ocupar o centro do debate: que projeto de integração o(a) próximo(a) governador(a) pretende construir entre a Região Metropolitana e o Norte Fluminense? Sem essa conexão efetiva, o estado continuará crescendo aos pedaços.
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Essa aproximação começou ainda nos anos 1970, quando a Petrobras iniciou a exploração de petróleo e gás na Bacia de Campos. Ganhou novo impulso a partir de 2006, com a descoberta do pré-sal na faixa litorânea entre Maricá e Saquarema. Havia ali a promessa de uma nova geografia econômica para o Rio de Janeiro — mais integrada, mais dinâmica, mais justa.
Mas o que se viu foi diferente. A ausência de iniciativas estruturantes por parte do governo estadual e a aposta quase exclusiva na privatização das chamadas “redes técnicas” — rodovias, ferrovias, gasodutos e redes de energia — acabaram comprometendo um projeto mais amplo de desenvolvimento. Crescer não é apenas atrair capital; é articular território, infraestrutura e pessoas.
Essa reflexão é aprofundada pela geógrafa D’Jeanine Candido, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutoranda na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Em seus estudos, ela analisa como o ciclo do petróleo reconfigurou o território fluminense e como o estado perdeu a oportunidade de liderar um ordenamento regional mais equilibrado.
Entre 2006 e 2014, o Rio viveu um período de forte expansão impulsionado pelo pré-sal. Grandes projetos surgiram com enorme aporte financeiro e impacto econômico, social e ambiental. Na Região Metropolitana, foi anunciado o Comperj — hoje rebatizado de Complexo de Energias Boaventura. No Norte Fluminense, nasceu o Porto do Açu. Criou-se uma rede robusta de interesses entre governo, empresas e comunidades.
Esses empreendimentos estimularam novos arranjos espaciais e eixos de circulação. No entanto, a integração passou a ser tratada quase exclusivamente sob a ótica empresarial — cargas, fluxos e capital. O planejamento territorial, voltado às pessoas, ficou em segundo plano, assim como a criação das redes técnicas. O resultado foram expectativas frustradas e oportunidades desperdiçadas.
A questão levantada por D’Jeanine é direta: até que ponto uma mudança na atuação do Estado pode redefinir os rumos do ordenamento territorial fluminense, conciliando crescimento econômico e desenvolvimento social?
O contraste entre o sonho de duas décadas atrás e a realidade atual é evidente. O Arco Metropolitano do Rio de Janeiro permanece incompleto, sem a duplicação prevista entre Itaboraí e Magé. O Trevo de Manilha segue como gargalo logístico. Em Campos dos Goytacazes, o contorno prometido na concessão vencida pela Arteris não saiu do papel, prejudicando a ligação com o Porto do Açu e com o Espírito Santo. A RJ-244, planejada como corredor logístico de acesso direto ao Açu, permanece esquecida em alguma gaveta. O Comperj acumulou anos de paralisação. E a ferrovia EF-118 só agora entrou no mapa de investimentos do governo federal — ainda assim, limitada ao trecho entre o Porto do Açu e Anchieta (ES), postergando a conexão com a capital fluminense.
Faltou — e ainda falta — visão estratégica. As privatizações, apresentadas como solução moderna para os modais logísticos, não resolveram os principais gargalos. Grandes empreendimentos acabaram funcionando como ilhas de prosperidade cercadas por deficiências estruturais.
O Rio de Janeiro não pode mais esperar. É preciso uma gestão mais eficiente dos recursos públicos e, sobretudo, políticas que integrem investimentos, ampliem conexões logísticas e coloquem as pessoas no centro do planejamento. Mais do que cifras bilionárias, o estado é feito de territórios vivos e cidadãos que dependem dessas decisões. Que as urnas, em outubro, apontem para essa visão de futuro.
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