Publicado 10/04/2026 12:32
Num país que diz pensar no futuro, é inevitável olhar para quem o representa: os jovens. É neles que se depositam expectativas, projetos e esperanças de transformação. Mas o que acontece quando essa geração, ainda em formação, começa a dar sinais claros de sofrimento, silêncio e desamparo? O retrato revelado pela mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgada pelo IBGE, acende um alerta que não pode mais ser ignorado.
PublicidadeOs números são contundentes. Três em cada dez estudantes brasileiros com idades entre 13 e 17 anos afirmam que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Em proporção semelhante, adolescentes relatam já ter sentido vontade de se automutilar. Trata-se de um cenário alarmante, especialmente quando se considera a abrangência da pesquisa, que ouviu 118.099 estudantes de 4.167 escolas públicas e privadas em todo o país, sendo representativa da realidade nacional.
O sofrimento emocional não se limita à tristeza. Quase metade dos estudantes (42,9%) declarou sentir-se frequentemente irritada, nervosa ou mal-humorada “por qualquer coisa”. Além disso, 18,5% afirmaram pensar, com frequência, que “a vida não vale a pena ser vivida”. Ainda mais inquietante é o fato de que esse sofrimento muitas vezes ocorre em ambientes onde o suporte deveria ser garantido. Menos da metade dos alunos frequenta escolas que oferecem algum tipo de apoio psicológico.
O ambiente familiar e comunitário também aparece como fator de vulnerabilidade. Mais de um quarto dos adolescentes (26,1%) sente constantemente que ninguém se preocupa com eles. Pouco mais de um terço acredita que seus pais ou responsáveis não compreendem seus problemas e preocupações. E um dado especialmente grave: 20% relataram ter sofrido agressão física por parte de responsáveis ao menos uma vez no último ano.
As desigualdades de gênero aprofundam ainda mais esse cenário. Em praticamente todos os indicadores, as meninas apresentam resultados mais preocupantes do que os meninos. Entre os estudantes que relataram lesões autoprovocadas — estimados em cerca de 100 mil adolescentes, ou 4,7% dos que sofreram algum tipo de acidente ou lesão — os índices de sofrimento são significativamente maiores: 73% se sentem constantemente tristes, 67,6% vivem irritados ou nervosos, e 62% não veem sentido na vida.
Outro aspecto que chama atenção é a relação com a própria imagem corporal. A satisfação com o corpo caiu de 66,5% em 2019 para 58% na edição mais recente da pesquisa. Entre as meninas, mais de um terço se declarou insatisfeita com a própria aparência.
Diante desse cenário, especialistas reforçam a urgência na criação de políticas públicas que levem em consideração essas diferenças de gênero e ampliem o acesso a cuidados em saúde mental. A ausência de suporte adequado pode comprometer não apenas o bem-estar individual, mas também o desenvolvimento social e econômico do país.
Também é fundamental reforçar as redes de apoio. Adolescentes, familiares e responsáveis devem buscar acolhimento em pessoas de confiança — amigos, educadores, parentes — e não hesitar em procurar ajuda profissional. O sistema de saúde oferece alternativas como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades Básicas de Saúde, UPAs, hospitais e serviços de emergência. O Centro de Valorização da Vida (CVV) é outro importante aliado, oferecendo apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por dia, pelo telefone 188, além de chat e e-mail.
Cuidar da saúde mental dos jovens não é apenas uma questão individual — é um compromisso coletivo. Se o país quer, de fato, construir um futuro melhor, precisa começar ouvindo, acolhendo e protegendo aqueles que irão vivê-lo.
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