Publicado 15/04/2026 12:53
A cada ano que começa, prefeitos de diversos municípios fluminenses se veem diante de um novo desafio: ampliar as redes de educação, saúde e serviços públicos. O fato revela uma realidade pouco compreendida fora dos municípios produtores de petróleo. Em cidades impactadas pela indústria de óleo e gás, o crescimento econômico vem acompanhado de uma pressão brutal sobre os serviços públicos.
PublicidadeA atividade petrolífera atrai empregos. E, com eles, chegam milhares de pessoas em busca de oportunidades. Esse fluxo populacional transforma rapidamente a dinâmica local: mais alunos nas escolas, mais pacientes nos hospitais, mais demanda por transporte, saneamento, segurança e infraestrutura urbana.
Mais gente chegando à cidade não significa apenas construir prédios escolares. Significa contratar professores, auxiliares, merendeiras e inspetores, aumentar a quantidade de merenda, etc. Também significa ampliar postos de saúde, reforçar equipes médicas, investir em mobilidade urbana e habitação. É um crescimento que cobra seu preço — e esse preço recai, diretamente, sobre os cofres municipais.
É justamente para compensar esse impacto que surgem os royalties do petróleo. Eles não são um privilégio — são uma compensação econômica, social e ambiental pelos efeitos diretos da atividade petrolífera. Mais do que isso: são um direito garantido por lei. Retirar ou reduzir essa indenização não é apenas uma decisão financeira; é uma intervenção direta na capacidade de gestão e sobrevivência desses municípios.
Nesse contexto, ganha força o debate em torno do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4917 no Supremo Tribunal Federal (STF), marcada para o dia 6 de maio. A ação discute mudanças na distribuição dos royalties e pode provocar um impacto bilionário no Estado do Rio de Janeiro. Estará em jogo a análise sobre a constitucionalidade ou não da Lei 12.734/2012, que trata da redistribuição dos royalties do petróleo entre estados e municípios produtores e não produtores em todo o país.
Segundo o Instituto de Estudos do Rio de Janeiro, a proposta levanta questões críticas. A primeira delas é a quebra de regras já estabelecidas: alterar contratos e critérios de partilha com campos já licitados compromete a segurança jurídica e afeta diretamente a previsibilidade dos entes federativos.
Outro ponto sensível é o desequilíbrio entre ônus e bônus. O Rio de Janeiro — e, sobretudo, seus municípios produtores — arcam com os impactos ambientais, urbanos e logísticos da exploração. Retirar a compensação financeira significa deixar essas cidades com a conta, mas sem os recursos para pagá-la. Vale lembrar: por lei, o ICMS gerado pela atividade petrolífera no estado do Rio de Janeiro não é cobrado na origem, e sim no destino. Os royalties, além de indenização, são os recursos que sobram num país onde as disputas tributárias são “brigas de cachorro grande”.
Caso a Lei 12.734/2012 seja considerada constitucional, os efeitos podem ser devastadores. Há estimativas de que municípios como São João da Barra possam perder até 85% de sua arrecadação praticamente da noite para o dia. Um cenário que levaria ao colapso de serviços públicos essenciais, afetando diretamente a população.
O próprio estado do Rio pode ser atingido em cheio. A perda de receitas comprometeria o cumprimento do Regime de Recuperação Fiscal, abrindo espaço para sanções, bloqueios e um agravamento da crise financeira.
Diante disso, o julgamento no STF não é apenas uma discussão técnica; é uma decisão com potencial de redefinir o equilíbrio federativo no país. Redistribuir recursos pode parecer, à primeira vista, uma medida de justiça. Mas fazê-lo ignorando quem produz — e quem suporta os impactos diretos dessa produção — é criar uma distorção que ameaça a sustentabilidade de regiões inteiras.
No fim das contas, a fala daquele prefeito ganha um novo peso. Não se trata apenas de construir escolas. Trata-se de garantir que cidades inteiras continuem funcionando. Porque, sem os royalties, não falta apenas dinheiro — faltam condições de manter o básico. E isso, definitivamente, não é privilégio. É questão de sobrevivência.
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