A construção do Anel Ferroviário do Sudeste não pode aguardar pela burocracia; o projeto precisa andarMinistério da Infraestrutura
Publicado 17/04/2026 12:24
Não me canso de repetir, e vou tocar neste assunto sempre que julgar necessário: projetos estruturantes, capazes de gerar empregos, renda e competitividade no Brasil, não podem ficar anos parados, vítimas de burocracia, insegurança jurídica e má gestão. Infelizmente, há exemplos de sobra — alguns bem próximos.
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No estado do Rio de Janeiro, o Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj) é emblemático dessa paralisia. Anunciado em 2006 e iniciado em 2008, o empreendimento teve suas obras interrompidas em 2015, permanecendo praticamente parado por cerca de sete anos, até retomadas graduais posteriores. Se fosse concluído no prazo original, o complexo poderia hoje ampliar significativamente a oferta de gás e derivados no mercado interno, num cenário de tensões causado pelo conflito no Oriente Médio.
Outra dessas obras é a Ferrovia EF-118. Com 575 quilômetros de extensão e orçada em R$ 6,6 bilhões, ela prevê a ligação entre Nova Iguaçu e Santa Leopoldina (ES), conectando duas capitais e interligando a malha ferroviária fluminense à malha nacional, possibilitando que os portos fluminenses recebam uma gama enorme de cargas, como os grãos produzidos no Centro-Oeste e o minério de ferro de Minas Gerais.
Depois de vários redesenhos, o chamado Anel Ferroviário do Sudeste foi aprovado pelo Ministério dos Transportes em dezembro de 2025. Mas ainda aguarda avaliação do Tribunal de Contas da União (TCU) para a publicação do edital do leilão de concessão – inicialmente previsto para 2026. Tudo correndo bem, espera-se que a EF-118 entre em operação entre 2033 e 2035.
Como já estamos na segunda quinzena de abril de 2026, a pergunta que fica é: no que diz respeito a agilidade na construção, a EF-118 será o novo Comperj?
Nunca é demais lembrar: obra de infraestrutura não é gasto, é investimento. Seu custo se pagará em pouco tempo, com o aumento das importações e a redução do frete (hoje, boa parte das cargas são transportadas por caminhão). Será a redução do chamado “custo Brasil”, com fortalecimento de um setor carente desse tipo de infraestrutura no país. Diante de uma excelente janela de oportunidade, não faz sentido que a burocracia emperre um projeto desse porte.
A primeira etapa do Anel Ferroviário Sudeste prevê a construção de 246 quilômetros entre o Porto do Açu, no litoral de São João da Barra, e Santa Leopoldina (ES), município próximo a Vitória (ES). De lá, a ferrovia se interligará à Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), abrindo um corredor para escoamento de minério e da produção do agronegócio.
Na segunda etapa, o projeto se completa, com ganhos expressivos para todo o estado do Rio de Janeiro. Serão mais 325 quilômetros entre São João da Barra e Nova Iguaçu, aproveitando um trecho já existente da Ferrovia EF-103. Da área metropolitana do Rio, a EF-118 se conectará com a malha administrada pela MRS, comunicando-se com o Sul Fluminense, São Paulo e Sul do país.
É compreensível que obras dessa complexidade exijam o cumprimento de critérios técnicos bem elaborados, com um planejamento criterioso que incluirá estudos e relatórios de impacto ambiental ao longo dos 24 municípios que serão cortados pela rodovia. Também haverá impactos econômicos locais, como desapropriações de terra e geração de empregos.
Ainda assim, planejamento não pode ser sinônimo de paralisia. É preciso rigor técnico, mas também decisão política. Para que a EF-118 não repita a história do Comperj, será indispensável um esforço coordenado do governo para destravar etapas, garantir segurança jurídica e cumprir prazos. O Brasil já esperou demais — agora é hora de fazer esse trem, literalmente, andar.
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