Publicado 24/07/2026 07:50
Imagine a seguinte situação: você abre a torneira de casa para encher uma caixa d'água. A água chega com força, mas o cano que leva essa água até a caixa é estreito demais. Resultado: uma parte transborda e vai embora pelo ralo. Você pagou pela água, ela estava disponível, mas não conseguiu aproveitá-la.
PublicidadeÉ exatamente isso que está acontecendo com a energia renovável no Brasil.
Nos últimos anos, o país investiu fortemente na construção de usinas solares e eólicas. O resultado é uma capacidade de geração cada vez maior, impulsionada por uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. O problema é que as linhas de transmissão e a infraestrutura do sistema elétrico não acompanharam esse crescimento.
Na prática, quando o sol brilha intensamente ou os ventos sopram com força, muitas usinas produzem mais energia do que a rede consegue transportar. Para evitar sobrecarga no sistema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina que parte dessas usinas reduza ou interrompa temporariamente a geração. É o chamado courtaiment.
O desperdício impressiona. Estima-se que cerca de 20% da energia renovável produzida no Brasil deixe de ser aproveitada. É eletricidade suficiente para abastecer milhões de residências, mas que simplesmente não chega ao consumidor porque "não há estrada" para transportá-la.
O problema tende a se agravar. A chegada do El Niño ao país deve elevar as temperaturas a partir de setembro e, como consequência, aumentar o consumo de energia elétrica. E não é só. O crescimento da inteligência artificial se tornou um gargalo que pode tirar competividade do país. Dados do Massachussetts Institute of Technology (MIT) mostram que treinar um modelo de IA requer o uso de unidades de processamento gráfico (GPUs), que são hardwares que consomem muita energia.
Essa realidade chama ainda mais atenção quando se observa o potencial do estado do Rio de Janeiro, especialmente do Norte Fluminense. A região reúne condições privilegiadas para a expansão das energias renováveis. A incidência solar é elevada durante boa parte do ano, os ventos constantes do litoral favorecem projetos eólicos e a infraestrutura já existente, construída ao longo de décadas para atender à indústria do petróleo e do gás, oferece uma base importante para novos investimentos em transmissão e distribuição de energia. Além disso, a presença do Porto do Açu e de projetos voltados ao hidrogênio de baixo carbono reforça a vocação regional para se tornar um dos principais polos da transição energética brasileira. Mas esse potencial só será plenamente aproveitado se vier acompanhado da expansão da rede elétrica.
O problema, portanto, não está na capacidade de produzir energia limpa. O Brasil já demonstra que possui recursos naturais suficientes para ser uma potência mundial no setor. O gargalo está entre a geração e o consumo. Resolver essa questão exige ampliar as linhas de transmissão, investir em sistemas de armazenamento por baterias, modernizar a gestão da rede elétrica e criar regras que permitam aproveitar melhor a energia produzida nos horários de maior geração.
O paradoxo brasileiro é evidente. Enquanto muitos países ainda buscam ampliar sua produção de energia renovável, o Brasil enfrenta um desafio diferente: já produz mais energia limpa do que consegue utilizar em determinados momentos. Isso mostra que a transição energética não depende apenas de construir novas usinas. Depende, sobretudo, de garantir que toda essa energia encontre um caminho seguro até quem realmente precisa dela.
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