Publicado 07/08/2026 07:57
Durante muito tempo, o interior do Rio de Janeiro viveu sob a confortável ilusão de que a violência era um problema da capital e da Região Metropolitana. Bastava ligar a televisão para acreditar que o crime organizado tinha endereço certo e que as pequenas e médias cidades continuariam protegidas por uma espécie de fronteira invisível. Essa fronteira, porém, desapareceu. Hoje, o interior fluminense começa a pagar uma conta que, até pouco tempo atrás, parecia pertencer apenas aos grandes centros urbanos.
PublicidadeO estudo "Custo Rio", divulgado esta semana pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), escancara essa realidade. Segundo o documento, a violência gerou um prejuízo estimado em R$ 31,1 bilhões para a economia fluminense entre 2015 e 2025. É dinheiro que deixa de ser investido na produção, na geração de empregos e na expansão de empresas para financiar segurança privada, proteção digital, prevenção a fraudes, perdas logísticas e tantos outros custos invisíveis que reduzem a competitividade do estado.
Alguns crimes tradicionais recuaram na última década. Houve queda na letalidade violenta, nos roubos de rua, de cargas e de veículos. Em compensação, estelionatos e extorsões cresceram de forma assustadora, mostrando que o crime também se modernizou e encontrou novas formas de atingir cidadãos e empresas.
A melhora dos indicadores estaduais, no entanto, não ocorreu de forma homogênea. Enquanto algumas regiões apresentaram redução da violência letal, o Centro-Sul Fluminense registrou aumento de 235%, e o Noroeste Fluminense, de 197%. É um retrato claro da interiorização da criminalidade, impulsionada pela expansão das facções e das milícias para municípios que, até poucos anos atrás, estavam fora de seu radar.
Os reflexos já são visíveis. O próprio Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) transferiu 66 locais de votação em 20 cidades devido aos riscos impostos pela presença de grupos criminosos armados. A lista incluir sessões em Campos dos Goytacazes, Itaperuna, Cabo Frio e Volta Redonda, algumas das principais cidades do interior.
A questão em debate é que boa parte da estrutura de segurança pública continua concentrada na Região Metropolitana, enquanto o interior enfrenta uma realidade completamente diferente da que existia há duas décadas. Municípios que cresceram economicamente, impulsionados pelo petróleo, pelo agronegócio, pelos portos e pela logística, também passaram a atrair organizações criminosas interessadas em controlar territórios, rotas e atividades econômicas. A violência acompanhou o desenvolvimento.
Combater esse avanço exige que o Estado abandone a lógica de reagir apenas às crises da capital. É necessário fortalecer permanentemente o policiamento ostensivo e investigativo nas cidades do interior, ampliar os efetivos, investir em inteligência policial, integração entre as forças de segurança, monitoramento por tecnologia e presença constante do poder público nas regiões mais vulneráveis. A criminalidade se deslocou; a estratégia de enfrentamento também precisa se deslocar.
Ao mesmo tempo, é indispensável enxergar a segurança pública como parte de uma política de desenvolvimento regional. Municípios do interior precisam receber investimentos em iluminação pública, videomonitoramento, urbanização, educação, esporte, qualificação profissional e oportunidades para os jovens, reduzindo o espaço ocupado pelo crime organizado. Afinal, nenhuma economia prospera onde o medo dita a rotina. Se o interior se tornou protagonista do crescimento fluminense, também precisa ser prioridade quando o assunto é garantir que esse crescimento não seja sequestrado pela violência.
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