Publicado 13/08/2026 06:23
A cena é pitoresca, curiosa e assustadora. Quando o barco de pesca se aproxima da praia, enfrentando ondas que frequentemente superam os dois metros de altura, tem início uma operação cuidadosa. Pela areia, um trator se aproxima com um cabo de aço. Lançado ao mar, o cabo é puxado pelos pescadores e preso à embarcação. Entre uma onda e outra, tal qual um surfista que escolhe o momento certo de entrar com sua prancha, o barco desliza pelas águas e é rapidamente puxado pelo trator.
PublicidadeO que parece a descrição de um resgate nada mais é que a rotina de aproximadamente 150 pescadores do Farol de São Thomé, única praia do município de Campos. Na falta de um porto seguro nas águas bravias do Cabo de São Thomé, não há caminho mais fácil para quem sobrevive de uma das atividades mais antigas do mundo.
A solução está poucos quilômetros ao sul, no limite entre Campos e Quissamã. Os dois municípios são divididos pelo Canal das Flechas, uma ligação natural entre a Lagoa Feia e o Oceano Atlântico. Outrora utilizado como ancoradouro para os barcos, o canal sofre com o assoreamento provocado por uma obra inacabada em sua foz — justamente o que, na década de 1970, fora projetado para um futuro terminal pesqueiro.
No cenário, sobressaem dois espigões de pedra inacabados. Originalmente, formariam um “L”, permitindo a entrada e a saída de barcos sem a necessidade de enfrentar diretamente a força do mar. Com o projeto paralisado pelo governo federal, porém, a dinâmica das marés passou a ditar as regras.
No lado campista, o mar avançou, destruindo dezenas de metros do litoral. No lado quissamaense, ocorreu exatamente o contrário: o mar recuou, deixando a localidade de Barra do Furado cada vez mais distante da praia. O Canal das Flechas sofreu dramaticamente com o assoreamento. Os poucos barcos que ousam enfrentar a passagem para o oceano precisam atravessar uma estreita faixa junto às pedras, correndo o risco de serem arremessados contra o espigão e destruídos.
A boa notícia é que esse suplício, depois de décadas, pode estar com os dias contados. Fruto de uma parceria com as Prefeituras de Campos e Quissamã, a empresa BR Offshore pretende construir na região o Complexo Logístico Farol-Barra do Furado. Orçado em R$ 950 milhões, o empreendimento terá como foco principal o descomissionamento de plataformas das Bacias de Campos, que se estendem justamente diante do litoral da região.
Para possibilitar a entrada de embarcações de grande porte, o projeto prevê a abertura de um canal onshore (em terra), semelhante ao canal existente no Porto do Açu, no vizinho município de São João da Barra. Mais do que uma solução de engenharia para viabilizar um novo complexo industrial, a obra poderá representar uma oportunidade histórica para a pesca regional.
A abertura do canal criará condições para que, no futuro, seja construído um terminal pesqueiro capaz de atender às colônias de pesca de Campos e Quissamã. Seria, finalmente, um porto seguro para quem trabalha no mar — e uma resposta para uma atividade que há décadas convive com a insegurança, a precariedade e o risco.
O que está em jogo vai muito além da construção de um porto. A pesca artesanal faz parte da identidade do litoral do Norte Fluminense e sustenta famílias, movimenta o comércio local e preserva um conhecimento transmitido de geração em geração. Dar segurança aos pescadores significa também reconhecer a importância econômica e cultural de uma atividade que, apesar de antiga, continua absolutamente atual.
O Complexo Farol-Barra do Furado nasce, portanto, com a possibilidade de corrigir uma antiga distorção: a de uma região que produz riquezas no mar, mas que historicamente não ofereceu condições adequadas para quem dele tira o próprio sustento.
Depois de décadas enfrentando as ondas, os pescadores do Farol de São Thomé podem estar diante de uma mudança de cenário. Que o cabo de aço, preso ao trator e ao barco, deixe de ser símbolo da precariedade e se transforme apenas em lembrança de um tempo em que entrar e sair do mar era, todos os dias, uma operação de risco. Porque desenvolver a região também significa garantir que quem vive do mar possa voltar para casa em segurança.
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