Publicado 18/09/2026 06:14
Imagine um menino de 11 anos, sentado no quarto, com celular na mão. Numa plataforma de educação, ele estuda para uma prova difícil que fará no dia seguinte. Mas, entre um vídeo e outro, aparece uma propaganda prometendo dinheiro fácil, emoção, a chance de transformar alguns reais em muito mais. Ele clica. E aposta.
PublicidadeParece cedo demais? Pois os dados mostram que não é uma exceção. Um levantamento feito pela Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com a Equidade.info, ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país. E o resultado é estarrecedor: um em cada cinco alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio — 20,4% — afirma já ter feito apostas online. Entre os estudantes do 3º ano do ensino médio, o número salta para 49,7%. E pasmem: 9,5% dos entrevistados de até 11 anos já disseram ter apostado.
As bets chegaram ao cotidiano brasileiro vendendo a ideia de diversão, liberdade e possibilidade de ganho. Mas, quando quase metade dos jovens prestes a concluir o ensino médio já teve contato com apostas, fica evidente que não estamos diante apenas de uma questão individual, e sim de um problema de saúde pública, educação, proteção à infância e regulação econômica. Embora a legislação brasileira proíba menores de 18 anos de acessar plataformas de apostas, eles estão chegando até elas.
Isso revela que a proibição formal, sozinha, não está funcionando. Tampouco adianta colocar toda a responsabilidade sobre o indivíduo. É comum ouvir que basta ter educação financeira, autocontrole ou consciência dos riscos. Mas o professor Rafael Lichand, da Stanford Graduate School of Education, chama a atenção para esse equívoco. Segundo ele, estudos científicos indicam que mecanismos usados pelas plataformas para moderar o comportamento, como lembretes sobre perdas anteriores, não são suficientes.
A lógica precisa ser invertida. Se existe uma indústria altamente sofisticada, capaz de investir bilhões em publicidade, tecnologia e estratégias para manter o usuário engajado, não podemos exigir que um adolescente enfrente sozinho essa máquina com uma aula de educação financeira.
Existe uma indústria do outro lado da tela. E ela precisa assumir sua parcela de responsabilidade. É urgente, portanto, que o Brasil endureça as regras para as bets. Isso significa restringir a publicidade — tal como foi feito com os cigarros e bebidas alcoólicas —, criar mecanismos efetivos para impedir o acesso de menores, aumentar a tributação sobre as transações e estabelecer limites mais rigorosos para estratégias de indução ao jogo.
Não se trata de proibir adultos de tomar decisões sobre seu próprio dinheiro. Trata-se de reconhecer que liberdade sem proteção pode se transformar em exploração — principalmente quando o alvo é uma população jovem exposta diariamente a uma máquina de publicidade que transforma aposta em entretenimento.
Regular mais não é tirar liberdade. É colocar limites onde o mercado, sozinho, demonstrou que não consegue — ou não quer — se impor.
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