Publicado 19/10/2026 13:54
Há números que parecem querer conversar com o que somos e o que pensamos. O resultado da pesquisa Vida Saudável e Sustentável 2026, realizada com apoio do Instituto Akatu, mostra um número incômodo: 87% dos brasileiros consideram a corrupção um dos problemas mais graves do país. Preocupa não apenas porque é um percentual alto (a média global é de 60%), mas porque ele revela algo maior do que uma simples opinião sobre política: somos um país desconfiado.
PublicidadeNão sei se se alguém concorda com aquele bordão horroroso: “Rouba, mas faz”. Roubar é crime. E roubar dinheiro público é um crime que merece ser tratado como hediondo. Porque, quando a corrupção toma conta de uma obra pública, não desaparece apenas dinheiro público — desaparece uma escola que deixa de ser construída, uma estrada que não foi recuperada ou um hospital que não recebeu equipamentos. Quando um contrato é fraudado, a conta pode chegar na forma de um serviço pior.
A corrupção é uma espécie de ladrão invisível, que não necessariamente se alimenta de grandes esquemas. Ela também cresce onde pequenas irregularidades são tratadas como esperteza, onde o “jeitinho” vira virtude e onde a vantagem indevida ganha a aparência de algo perfeitamente normal.
O que quero dizer com isso? Que é fácil olhar para o corrupto imaginar que o problema está sempre no outro — no político, no empresário, no servidor, no sujeito que aparece na manchete do jornal. Mais difícil é compreender que uma sociedade verdadeiramente anticorrupção precisa cultivar uma cultura de integridade e valorizar quem respeita a regra quando ninguém está olhando. É a sociedade que não fura fila, não estaciona em vaga reservada a deficientes físicos no supermercado, não molha a mão do policial para escapar da blitz da Lei Seca, nem dá carteirada na repartição pública.
Quando 87% da população apontam a corrupção como um dos maiores problemas do país, não basta responder com discursos de indignação. É preciso haver transparência, fiscalização, instituições independentes, dados acessíveis, controle social e, principalmente, a certeza de que ninguém está acima das regras. Porque uma sociedade que perde a confiança nas instituições tem mais dificuldade para enfrentar a fome, proteger o meio ambiente, melhorar os serviços públicos e planejar o futuro.
Por isso, os 87% não podem ser vistos apenas como uma estatística sobre corrupção. São, antes de tudo, um retrato de desconfiança. E recuperar a confiança pode ser uma das tarefas mais difíceis — e mais urgentes — de um país. Porque democracia sem confiança vira suspeita. Instituição sem credibilidade vira desconfiança. E dinheiro público sem fiscalização vira convite. No fim das contas, combater a corrupção é também uma maneira de recuperar uma coisa que não aparece em nenhuma planilha: a esperança de que o que é de todos possa, de fato, servir a todos.
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