No Dia da Mulher Negra, as jornalistas Janaína Nunes, Ana Paula Santos, Letícia Vidica, Katharine Alves, Cynthia Martins, Basília Rodrigues, Alinne Prado, Lica Oliveira e Li Lacerda, refletem sobre representatividade, resistência e referências na comunicação.Foto: Reprodução/ Redes sociais
Publicado 25/07/2026 16:50 | Atualizado 25/07/2026 17:21
Neste 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, mais do que ocupar telas e páginas, mulheres negras que fazem a comunicação brasileira diária nos lembram o real sentido de existir, resistir e pautar o país.

O jornalismo feito por mãos e mentes negras não é apenas crônica do cotidiano; é escolha política, afeto, ancestralidade e transformação. Quando perguntadas pela coluna Daniel Nascimento, sobre o que as move ou o que significa exercer essa profissão, as respostas dessas profissionais desenham um retrato profundo da imprensa que temos, e da que queremos construir.

Para a apresentadora e jornalista Alinne Prado, com passagens pela Globo e RedeTV!, o ofício é uma escolha diária de ponte com a humanidade: "No meio da correria, que é muita, o jornalismo continua sendo a ponte que escolhi construir entre informação, humanidade e transformação. Enquanto houver histórias capazes de despertar consciência e esperança, eu terei motivo para seguir com alegria".

A força das referências é o que alimenta o presente e o futuro. Letícia Vidica, repórter da TV Globo nos programas Encontro, É de Casa e Mais Você, reverencia o legado imortal de Gloria Maria: "Sem dúvidas, Gloria Maria é e sempre será uma grande referência pra mim ou pra qualquer mulher preta que esteja atuando hoje na comunicação. Ela foi não só uma gigante pelo fato de ser uma profissional competentíssima mas pelo fato dela ter lutado as nossas lutas e aberto caminho só ocupando esses espaços e mostrando que sim o preto pode estar onde quiser e se fazer ser respeitado pela sua capacidade, pela sua competência e pelo seu trabalho. Gloria Maria é a nossa eterna ancestral, quase uma Orixá e é aquela que vai estar sempre conduzindo a gente de onde ela estiver".

No mesmo compasso, Li Lacerda, jornalista com passagens pela Vogue e Harper’s Bazaar, evoca a intelectual Lélia Gonzalez: "A intelectual Lélia Gonzalez é a grande referência na formação da minha consciência racial. Ela nos faz entender que não se pode falar do feminismo sem o recorte de raça, já que as dificuldades enfrentadas pela condição de ser mulher atravessa de forma mais cruel quando se trata de mulheres negras. Sua obra, apesar da importância, ainda não teve o merecido reconhecimento".

Estar na linha de frente também exige resiliência diária. É o que resume Basília Rodrigues, jornalista política, com passagem pela CNN e atualmente no SBT News, ao definir sua jornada: "Ser uma mulher negra no Jornalismo exige não desistir de si, provar todos os dias que é excelente, se proteger dos racistas e dos que fingem ser antirracistas." Uma visão compartilhada por Katharine Alves, jornalista com passagem pelo SBT e atualmente repórter da Leo Dias TV: "Resistência. Grandes nomes com Gloria Maria e Maju Coutinho me mostraram que o caminho pode, sim, ser trilhado. Mas para estar nele é preciso continuar resistindo. Muitas barreiras foram quebradas ao longo da história, mas a dificuldade para a mulher preta em alguns aspectos ainda parece ser maior. Essa luta é algo que só quem vive na pele (literalmente) sente".

O compromisso com o impacto social é o motor apontado por Cynthia Martins, jornalista e âncora da Band: "O que me mantém viva nessa profissão fascinante é acreditar profundamente que ela pode mudar realidades, percepções, opiniões, mundos... Tem muita gente nos vendo, nos olhando, que aprendem com a nossa profissão e nos têm como referência. É uma responsabilidade imensa e que hoje nos dá a sorte de poder exercer o jornalismo podendo ter trocar mais diretas com quem nos acompanha. Poder trazer pautas sociais e sobre direitos humanos é o que mais me preenche e me faze seguir em frente. Jornalismo tem de ser pras pessoas".

Já para a jornalista Lica Oliveira, ex-apresentadora do Esporte Espetacular na Globo, nos conecta diretamente com o passado e o sagrado: "Sou a soma das minhas mais velhas e reflexo, fluxo e travessia das minhas contemporâneas. A força, a coragem, o medo, o amor, a resistência, a beleza, a fé, o sagrado, a inteligência, o cuidado, tudo em nós. Neste 25 de julho eu reverencio a minha mãe, minha ancestral, meu norte e, rendendo homenagens à maravilhosa Zezé Motta, neste ano de celebração pelos 50 anos do filme Xica da Silva. Salve elas"!

Olhando para o horizonte, a jornalista Janaína Nunes, com passagens pela Record e atualmente no programa Melhor da Tarde na Band e Leo Dias TV, reflete sobre o longo caminho percorrido e o que ainda falta alcançar: "Demos passos largos comparado a 20 ou 25 anos atrás, quando só víamos nomes como Glória Maria. Mas a imprensa ainda não reflete a totalidade da nossa população. O espaço é pequeno, mas estamos no caminho. Vejo meu filho estudando jornalismo hoje e sei que daqui a alguns anos o cenário será muito diferente porque a cobrança e nossa presença são maiores".
Para a jornalista da TV Globo, Ana Paula Santos, que integrou a turma pioneira do programa Profissão Repórter, o reconhecimento e a representatividade moldam sua trajetória de 23 anos: "Eu sei a importância que é estar à frente da apresentação e também da reportagem na maior emissora do meu país nesses 23 anos de carreira. Eu levo profissionalismo e mostro que, sim, é possível realizar os sonhos das meninas que ainda não são vistas com o respeito que deveriam por causa da classe socia".

Neste dia de Tereza de Benguela, ouvir essas mulheres é entender que cada espaço conquistado por elas é um tijolo a menos na estrutura do racismo e um convite aberto para que as próximas gerações ousem ocupar todos os lugares.
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