Campanha conscientiza sobre maus-tratos, reforça leis de proteção animal e acende alerta para o abandono durante as festas de fim de anoReprodução
Publicado 07/12/2025 00:00
Dezembro, mês tradicionalmente associado à celebração, união familiar e renovação, infelizmente também marca um dos períodos mais alarmantes para cães, gatos e outros animais domésticos. Enquanto muitas famílias planejam viagens, festas e férias, milhares de animais perdem seus lares, sofrem maus-tratos ou são deixados para trás. É nesse cenário de urgência que se destaca o 'Dezembro Verde', uma campanha nacional que vem ganhando robustez e visibilidade ano após ano.

Desde 2015, quando começou como uma iniciativa de protetores independentes e organizações voluntárias, a campanha se transformou em um movimento estruturado, abraçado por prefeituras, conselhos de medicina veterinária, secretarias de meio ambiente e entidades de proteção animal. Em dezenas de municípios, o Dezembro Verde Escuro já integra o calendário oficial de conscientização — o que reforça não apenas sua importância social, mas também seu impacto direto na vida dos animais.

Por que dezembro é o mês com maior índice de abandono?

Segundo o médico veterinário Dr. Gleison Mota Ribeiro, do Hospital Veterinário Taquaral (@hvtcampinass), a estatística é conhecida entre profissionais da área: dezembro concentra um pico nos casos de abandono.
E os motivos, observa ele, são variados — mas quase sempre previsíveis.

“As viagens de férias deixam muitas famílias sem saber com quem deixar o animal. As despesas extras típicas de dezembro fazem alguns tutores negligenciarem os cuidados básicos. E temos ainda a aquisição impulsiva de filhotes como presentes de Natal, seguida de abandono quando o animal deixa de ser novidade ou dá mais trabalho que o esperado”, explica.

Além dessas situações, clínicas veterinárias e ONGs relatam aumento também nos casos de:
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•maus-tratos por negligência, como longos períodos de animais sozinhos sem água, comida ou abrigo;
•animais presos em correntes, situação que piora com o calor intenso;
•fugas por fogos de artifício, que causam acidentes e atropelamentos;
•abandono de animais velhos ou doentes, muitas vezes substituídos por filhotes recebidos como presente.

Abandono é crime, e pode gerar prisão

O Dezembro Verde Escuro também cumpre um papel crucial de educação jurídica. Muitas pessoas ainda desconhecem que abandonar ou maltratar um animal é crime previsto no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), com pena de:
•2 a 5 anos de detenção,
•multa,
•proibição de guarda de animais.

Leis estaduais e municipais também vêm sendo reforçadas. Em várias cidades, denúncias podem ser feitas diretamente a órgãos ambientais, guardas municipais ou delegacias especializadas.

“Abandono não é apenas um ato cruel — é crime. E um ato que gera consequências sérias, tanto para o animal quanto para a sociedade”, pontua Dr. Gleison. “Animais abandonados sofrem fome, sede, doenças, atropelamentos, podem transmitir zoonoses e geram impacto ambiental e social. É fundamental que as pessoas entendam a gravidade dessa atitude”.

Cultura de empatia: campanha reforça guarda responsável e adoção consciente

A base da campanha é um conjunto de pilares de conscientização:
•Educação sobre guarda responsável
•Prevenção de maus-tratos
•Adoção consciente
•Combate à compra impulsiva de animais
•Direcionamento sobre como denunciar abusos

O movimento também alerta para a importância do planejamento: antes de adotar um animal, é preciso avaliar disponibilidade de tempo, rotina, condições financeiras e preparo emocional.

“Um animal não é um brinquedo que pode ser descartado quando perde a graça. É um ser senciente que sente dor, medo, fome e solidão. Merece respeito, carinho e proteção durante toda a sua vida”, reforça o veterinário.

O papel das ONGs e protetores — e o esgotamento dos abrigos

ONGs, protetores independentes e clínicas parceiras são protagonistas do Dezembro Verde Escuro. Mas o período também é o mais difícil para essas organizações: a lotação dos abrigos chega ao limite, as despesas aumentam e muitos casos de crueldade chegam ao extremo.

Em algumas regiões, o número de resgates cresce até 40% no último mês do ano, enquanto o número de adoções cai — já que muitas famílias evitam assumir novas responsabilidades durante as festas.

“A campanha é essencial para reforçar que esses animais não são descartáveis. Eles dependem inteiramente do ser humano. Abandonar nunca é a solução”, comenta Dr. Gleison.

Como a população pode ajudar

O Dezembro Verde Escuro também incentiva a participação da comunidade. Entre as formas de contribuir, estão:
•Denunciar casos de maus-tratos
•Apoiar ONGs com ração, medicamentos ou trabalho voluntário
•Ajudar na captura segura de animais feridos ou perdidos
•Fomentar adoção consciente o ano todo
•Educar familiares e amigos sobre a responsabilidade do tutor.

Resgatando vidas: projeto liderado por quatro voluntárias enfrenta rotina dura de abandono de felinos

Além da atuação de protetores independentes, iniciativas coletivas também têm ampliado o resgate de animais abandonados. Patrícia Maris, uma das fundadoras do projeto Anjos de Quatro Patas, explica que a ação começou de forma espontânea e hoje envolve quatro voluntárias. “Somos eu e mais três amigas. A gente se juntou porque não conseguia mais ver tantos gatos sofrendo na rua sem fazer nada”, contou.

Segundo ela, os resgates se tornaram frequentes — e, muitas vezes, acontecem de maneira inesperada. “Eu já encontrei muito gato jogado em terreno baldio, em calçada, em obra. As pessoas também deixam caixas de papelão na minha porta com filhotes dentro. Quando abro a caixa e vejo aqueles bichinhos assustados, meu coração aperta”, relatou.

Patrícia destaca que, apesar das dificuldades, o grupo segue firme na missão. “A gente tenta dar conta de tudo: resgatar, levar ao veterinário, cuidar, medicar, alimentar e depois tentar adoção. Não é fácil, mas fazemos porque alguém precisa olhar por eles.”
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