Publicado 01/02/2026 00:00 | Atualizado 01/02/2026 12:18
Orelha não tinha tutor registrado, coleira com identificação nem uma casa fixa. Ainda assim, tinha algo que muitos animais jamais conhecem: pertencimento. Era alimentado diariamente, recebia água fresca, dormia em locais protegidos e fazia parte da rotina de quem passava pelas ruas do bairro. Um cão comunitário, como tantos outros espalhados pelo Brasil — e, justamente por isso, protegido por lei.
Essa história de convivência, no entanto, foi abruptamente interrompida. A morte violenta de Orelha, vítima de espancamento, provocou indignação, tristeza e revolta, transformando um cachorro conhecido localmente em símbolo nacional da luta contra os maus-tratos a animais.
Cinco dias após o crime, o caso segue em investigação, mobiliza autoridades, moradores e ativistas e reacende um debate urgente: até quando a crueldade contra animais será tratada como algo menor?
Um cachorro de todos
Orelha era visto diariamente circulando pelo bairro. Recebia comida de diferentes casas, era conhecido pelos comerciantes e reconhecido por crianças e adultos. Segundo moradores, nunca apresentou comportamento agressivo e convivia pacificamente com pessoas e outros animais.
“Ele era nosso. Não tinha dono, mas tinha todo mundo”, resume uma moradora, emocionada. “A gente cuidava, levava comida, água. Ele era parte da rua.”
Esse vínculo coletivo é o que caracteriza o animal comunitário, reconhecido juridicamente como aquele que, mesmo sem tutor único, é protegido pela comunidade e pelo poder público. Por isso, a morte de Orelha não foi apenas a perda de um cachorro, mas a ruptura de uma relação construída ao longo do tempo.
O dia da violência
As informações apuradas até o momento indicam que Orelha foi espancado, em um episódio de extrema crueldade. O ataque teria ocorrido em via pública e, segundo relatos, envolveu adolescentes. O cão não resistiu aos ferimentos e morreu em decorrência das agressões.
O estado em que o animal foi encontrado levantou suspeitas imediatas de maus-tratos graves. Moradores acionaram protetores independentes e autoridades, dando início a uma mobilização que rapidamente ultrapassou os limites do bairro.
A Polícia Civil instaurou procedimento para apurar o caso. Como envolve menores de idade, parte da investigação corre sob sigilo, mas diligências seguem em andamento para esclarecer as circunstâncias da morte e a responsabilidade dos envolvidos.
Reação imediata da comunidade
A notícia da morte se espalhou rapidamente. Em poucas horas, moradores passaram a compartilhar fotos de Orelha, relatos de convivência e pedidos por justiça nas redes sociais. Protetores de animais classificaram o crime como bárbaro e cobraram uma resposta firme das autoridades.
A comoção foi imediata. Comentários indignados, manifestações virtuais e cobranças públicas passaram a se multiplicar. Para muitos, o caso expõe não apenas a violência contra um animal indefeso, mas falhas estruturais na educação, na prevenção e na punição desse tipo de crime.
“Se fizeram isso com um cachorro dócil, o que mais são capazes de fazer?”, questiona outro morador.
Medo, revolta e sensação de impunidade
Além da tristeza, a morte de Orelha deixou um sentimento de insegurança. Moradores relatam medo de novos episódios de violência e cobram mais fiscalização, presença do poder público e ações educativas.
Há também o temor de que o caso termine sem consequências reais. “O que mais dói é pensar que isso pode ficar impune”, diz uma comerciante da região. “Se não houver punição, outras histórias como a do Orelha vão se repetir.”
Especialistas alertam que a violência contra animais, especialmente quando praticada por jovens, não deve ser relativizada. Estudos indicam que atos de crueldade podem estar associados a outros comportamentos violentos, tornando a prevenção e a responsabilização ainda mais urgentes.
Além da tristeza, a morte de Orelha deixou um sentimento de insegurança. Moradores relatam medo de novos episódios de violência e cobram mais fiscalização, presença do poder público e ações educativas.
Há também o temor de que o caso termine sem consequências reais. “O que mais dói é pensar que isso pode ficar impune”, diz uma comerciante da região. “Se não houver punição, outras histórias como a do Orelha vão se repetir.”
Especialistas alertam que a violência contra animais, especialmente quando praticada por jovens, não deve ser relativizada. Estudos indicam que atos de crueldade podem estar associados a outros comportamentos violentos, tornando a prevenção e a responsabilização ainda mais urgentes.
O que diz a lei
A legislação brasileira é clara. Maus-tratos contra animais são crime, conforme a Lei nº 9.605/98, com penas que variam de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda de animais, especialmente quando há morte.
No caso de menores de idade, a responsabilização ocorre por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com a aplicação de medidas socioeducativas. Além disso, os responsáveis legais podem responder civilmente pelos danos causados e, em determinadas situações, também criminalmente.
A legislação brasileira é clara. Maus-tratos contra animais são crime, conforme a Lei nº 9.605/98, com penas que variam de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda de animais, especialmente quando há morte.
No caso de menores de idade, a responsabilização ocorre por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com a aplicação de medidas socioeducativas. Além disso, os responsáveis legais podem responder civilmente pelos danos causados e, em determinadas situações, também criminalmente.
Análise jurídica
Para o advogado criminalista Gil Ortuzal, que atua em casos de grande repercussão nacional e internacional, a morte de Orelha não pode ser tratada como um episódio isolado. “A legislação brasileira avançou muito na proteção animal. Hoje, a violência contra animais é crime e deve ser tratada com a mesma seriedade que outras formas de violência”, afirma.
Ortuzal destaca que, mesmo quando os autores são adolescentes, há consequências legais previstas. “O ECA prevê medidas socioeducativas, e os responsáveis legais podem ser chamados a responder na esfera civil e, dependendo das circunstâncias, também na criminal.”
Segundo o advogado, a impunidade é um dos principais fatores que alimentam a repetição desses crimes. “Quando o Estado falha em punir, passa-se a mensagem de que a vida animal vale menos. Isso é extremamente perigoso do ponto de vista social.”
Presença frequente na mídia e referência em gestão de crises jurídicas, Gil Ortuzal ressalta ainda que casos como o de Orelha exigem não apenas punição, mas políticas públicas de educação, prevenção e conscientização. “A violência contra animais é um alerta social. Ignorar esses sinais é permitir que a barbárie se normalize”, conclui.
Um símbolo que permanece
Cinco dias depois, Orelha segue presente — não mais nas ruas, mas na memória coletiva. Sua morte transformou dor em mobilização e expôs a urgência de aplicar a lei, fortalecer a proteção animal e impedir que histórias como a dele se repitam.
O caso segue em investigação, acompanhado de perto por moradores, ativistas e pela sociedade. Para muitos, fazer justiça por Orelha é também proteger todos os outros que não têm voz.
Orelha não morreu sozinho: a causa animal sangra junto
Falo como protetora animal e jornalista, após mais de dez anos acompanhando de perto a dura realidade da causa animal no Brasil. Nesse período, vi todo tipo de abandono, negligência e morte cruel. Histórias que marcam profundamente quem escolhe defender animais que não têm voz. Mas, honestamente, nunca na minha vida eu tinha assistido a algo como o que aconteceu com o Orelha.
O caso ultrapassa qualquer limite de crueldade. Um cachorro dócil, comunitário, cuidado pela vizinhança, foi brutalmente morto por quatro adolescentes, sem empatia, sem piedade. Um animal que não oferecia risco algum e fazia parte da rotina da comunidade.
Isso não é apenas maus-tratos. Isso é um retrato assustador de falhas muito profundas. Falhas sociais, familiares e institucionais que permitem que crimes assim aconteçam e, muitas vezes, se repitam sem consequências reais.
A violência contra Orelha não pode ser normalizada nem relativizada. Ela escancara a necessidade urgente de educação, prevenção e responsabilização efetiva. Quando um animal indefeso é atacado dessa forma, toda a sociedade falha — famílias, instituições e o próprio Estado.
Mais uma vez, somos obrigados a encarar a fragilidade da justiça no Brasil: leis que avançam no papel, penas que aumentam, mas raramente são cumpridas. A mensagem que permanece é perigosa — a de que a vida animal ainda vale pouco. Hoje, a causa animal está estarrecida, triste e de luto. Enquanto a lei não for aplicada de forma real, continuaremos enterrando animais e acumulando indignação.
Ass: Cristina Cruz
(Jornalista e protetora da causa animal)
Caso semelhante
Em 2024, um episódio de extrema violência contra animais chocou o país em Nova Fátima, no Norte do Paraná. Um menino de 9 anos invadiu um hospital veterinário durante a noite e matou 23 animais que viviam em uma fazendinha recém-inaugurada no local. Entre as vítimas estavam mais de 15 coelhos, além de outros animais de pequeno porte.
A ação foi registrada pelas câmeras de segurança do estabelecimento e descoberta após a proprietária encontrar os animais mortos fora de seus recintos. A polícia foi acionada, mas, por se tratar de uma criança abaixo da idade de responsabilização penal, o caso não gerou consequências criminais e foi encaminhado ao Conselho Tutelar, que acompanhou a situação junto à família.
À época, o crime provocou forte repercussão nacional e levantou debates sobre educação, empatia, prevenção da violência e a fragilidade dos mecanismos de proteção aos animais no Brasil.
Para o advogado criminalista Gil Ortuzal, que atua em casos de grande repercussão nacional e internacional, a morte de Orelha não pode ser tratada como um episódio isolado. “A legislação brasileira avançou muito na proteção animal. Hoje, a violência contra animais é crime e deve ser tratada com a mesma seriedade que outras formas de violência”, afirma.
Ortuzal destaca que, mesmo quando os autores são adolescentes, há consequências legais previstas. “O ECA prevê medidas socioeducativas, e os responsáveis legais podem ser chamados a responder na esfera civil e, dependendo das circunstâncias, também na criminal.”
Segundo o advogado, a impunidade é um dos principais fatores que alimentam a repetição desses crimes. “Quando o Estado falha em punir, passa-se a mensagem de que a vida animal vale menos. Isso é extremamente perigoso do ponto de vista social.”
Presença frequente na mídia e referência em gestão de crises jurídicas, Gil Ortuzal ressalta ainda que casos como o de Orelha exigem não apenas punição, mas políticas públicas de educação, prevenção e conscientização. “A violência contra animais é um alerta social. Ignorar esses sinais é permitir que a barbárie se normalize”, conclui.
Um símbolo que permanece
Cinco dias depois, Orelha segue presente — não mais nas ruas, mas na memória coletiva. Sua morte transformou dor em mobilização e expôs a urgência de aplicar a lei, fortalecer a proteção animal e impedir que histórias como a dele se repitam.
O caso segue em investigação, acompanhado de perto por moradores, ativistas e pela sociedade. Para muitos, fazer justiça por Orelha é também proteger todos os outros que não têm voz.
Orelha não morreu sozinho: a causa animal sangra junto
Falo como protetora animal e jornalista, após mais de dez anos acompanhando de perto a dura realidade da causa animal no Brasil. Nesse período, vi todo tipo de abandono, negligência e morte cruel. Histórias que marcam profundamente quem escolhe defender animais que não têm voz. Mas, honestamente, nunca na minha vida eu tinha assistido a algo como o que aconteceu com o Orelha.
O caso ultrapassa qualquer limite de crueldade. Um cachorro dócil, comunitário, cuidado pela vizinhança, foi brutalmente morto por quatro adolescentes, sem empatia, sem piedade. Um animal que não oferecia risco algum e fazia parte da rotina da comunidade.
Isso não é apenas maus-tratos. Isso é um retrato assustador de falhas muito profundas. Falhas sociais, familiares e institucionais que permitem que crimes assim aconteçam e, muitas vezes, se repitam sem consequências reais.
A violência contra Orelha não pode ser normalizada nem relativizada. Ela escancara a necessidade urgente de educação, prevenção e responsabilização efetiva. Quando um animal indefeso é atacado dessa forma, toda a sociedade falha — famílias, instituições e o próprio Estado.
Mais uma vez, somos obrigados a encarar a fragilidade da justiça no Brasil: leis que avançam no papel, penas que aumentam, mas raramente são cumpridas. A mensagem que permanece é perigosa — a de que a vida animal ainda vale pouco. Hoje, a causa animal está estarrecida, triste e de luto. Enquanto a lei não for aplicada de forma real, continuaremos enterrando animais e acumulando indignação.
Ass: Cristina Cruz
(Jornalista e protetora da causa animal)
Caso semelhante
Em 2024, um episódio de extrema violência contra animais chocou o país em Nova Fátima, no Norte do Paraná. Um menino de 9 anos invadiu um hospital veterinário durante a noite e matou 23 animais que viviam em uma fazendinha recém-inaugurada no local. Entre as vítimas estavam mais de 15 coelhos, além de outros animais de pequeno porte.
A ação foi registrada pelas câmeras de segurança do estabelecimento e descoberta após a proprietária encontrar os animais mortos fora de seus recintos. A polícia foi acionada, mas, por se tratar de uma criança abaixo da idade de responsabilização penal, o caso não gerou consequências criminais e foi encaminhado ao Conselho Tutelar, que acompanhou a situação junto à família.
À época, o crime provocou forte repercussão nacional e levantou debates sobre educação, empatia, prevenção da violência e a fragilidade dos mecanismos de proteção aos animais no Brasil.
Por que a espiritualidade nem sempre intervém diante da crueldade
Casos de crueldade extrema contra animais, como o do cãozinho Orelha, despertam uma questão profunda: por que a espiritualidade nem sempre intervém para impedir o sofrimento? Para correntes espiritualistas, a resposta está no livre-arbítrio, princípio que rege a experiência humana na Terra e sustenta o processo de aprendizado e evolução das consciências.
De acordo com Beny Balabram, psicanalista, espiritualista, a espiritualidade não age de forma arbitrária diante da dor. “A espiritualidade não ‘permite’ ações como a tortura e o assassinato de forma aleatória; ela opera dentro da lei do livre-arbítrio, que é o alicerce da evolução na Terra”, afirma. Segundo ele, a ausência de intervenção direta não significa omissão, mas respeito às escolhas humanas e às consequências que delas decorrem.
Nessa perspectiva, a Terra é vista como um campo de aprendizado dual, onde convivem luz e sombra, amor e dor. Orelha, como ser inocente, simboliza a vulnerabilidade da vida, e a violência sofrida reflete não uma falha espiritual, mas as feridas morais ainda presentes na sociedade. A crueldade expõe o quanto a humanidade ainda precisa evoluir em empatia e responsabilidade.
Apesar da não intervenção direta, a espiritualidade atuaria de forma sutil, despertando consciências por meio de intuições, reflexões e mobilizações coletivas. No caso de Orelha, a comoção social gerada transformou a dor individual em um alerta coletivo, reforçando que a verdadeira prevenção da violência não está em intervenções externas, mas na mudança interna do ser humano e no reconhecimento de toda vida como sagrada.
Passeatas no Rio de Janeiro
Casos de crueldade extrema contra animais, como o do cãozinho Orelha, despertam uma questão profunda: por que a espiritualidade nem sempre intervém para impedir o sofrimento? Para correntes espiritualistas, a resposta está no livre-arbítrio, princípio que rege a experiência humana na Terra e sustenta o processo de aprendizado e evolução das consciências.
De acordo com Beny Balabram, psicanalista, espiritualista, a espiritualidade não age de forma arbitrária diante da dor. “A espiritualidade não ‘permite’ ações como a tortura e o assassinato de forma aleatória; ela opera dentro da lei do livre-arbítrio, que é o alicerce da evolução na Terra”, afirma. Segundo ele, a ausência de intervenção direta não significa omissão, mas respeito às escolhas humanas e às consequências que delas decorrem.
Nessa perspectiva, a Terra é vista como um campo de aprendizado dual, onde convivem luz e sombra, amor e dor. Orelha, como ser inocente, simboliza a vulnerabilidade da vida, e a violência sofrida reflete não uma falha espiritual, mas as feridas morais ainda presentes na sociedade. A crueldade expõe o quanto a humanidade ainda precisa evoluir em empatia e responsabilidade.
Apesar da não intervenção direta, a espiritualidade atuaria de forma sutil, despertando consciências por meio de intuições, reflexões e mobilizações coletivas. No caso de Orelha, a comoção social gerada transformou a dor individual em um alerta coletivo, reforçando que a verdadeira prevenção da violência não está em intervenções externas, mas na mudança interna do ser humano e no reconhecimento de toda vida como sagrada.
Passeatas no Rio de Janeiro
A comoção provocada pelo assassinato do cão Orelha, em Santa Catarina, continua forte, e a cidade do Rio de Janeiro, tradicionalmente engajada nas causas animais, terá duas manifestações marcadas para o dia 1º de fevereiro.
Uma delas é organizada por protetores de animais do 'Rio de Janeiro Contra Maus-tratos', criado por Chris Neri, que há mais de 20 anos cuida de animais. A concentração é às 10h, no Aterro do Flamengo, no Monumento aos Pracinhas, com uma caminhada até o Copacabana Palace. A outra está sendo organizada pelo deputado federal Marcelo Queiroz, no mesmo dia 1º de fevereiro, a partir das 16h, no Posto 2, em Copacabana.
"Diariamente morrem animais vítimas da crueldade do ser humano. Animais inocentes que só querem dar carinho e amor para todos nós. Nesse caso do Orelha foram adolescentes, que são regulados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, onde a maior punição é a internação, mas nem isso aconteceu! O que queremos é mudar essa realidade e cobrar do judiciário o máximo de punição possível", disse o deputado Marcelo Queiroz.
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