Publicado 05/07/2026 00:00
O que seria o resgate de um único cavalo acabou revelando uma realidade ainda mais preocupante. Ao chegarem ao local da denúncia, integrantes da Comissão de Defesa dos Direitos dos Animais da OAB de Nova Iguaçu, protetores independentes e moradores encontraram não apenas um cavalo debilitado, mas também uma égua vivendo nas mesmas condições.
PublicidadeA operação mobilizou um verdadeiro mutirão durante todo o dia. Participaram da ação as protetoras Joana Dark e Vânia Landim, além da Comissão da OAB de Nova Iguaçu e moradores da região, que se uniram em uma força-tarefa para retirar os animais em segurança.
Depois de horas de trabalho e da busca por um local que pudesse recebê-los, foi conseguido um sítio provisório.
Já ao cair da noite, os dois animais foram transportados em uma carretinha para o novo abrigo.No local, receberam banho, alimentação, água e passaram a ficar alojados em baias cobertas, onde estão recebendo os melhores cuidados possíveis.Os dois também foram avaliados pelo médico-veterinário Dr. Alfredo Brandão, especialista em equinos, que acompanha a recuperação dos animais.
Apesar da segurança conquistada, a missão ainda não terminou. Os protetores agora buscam um lar temporário ou definitivo para que ambos possam viver com dignidade.
'Eles não existem para servir ao ser humano'
Para a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Animais da OAB de Nova Iguaçu, Viviane Miranda, a vida dos animais deve ser respeitada independentemente de sua capacidade de trabalho. “Não admitimos a eutanásia de animais simplesmente porque eles não servem mais aos humanos. Os cavalos não nasceram para serem escravos. Eles merecem viver bem, felizes e com dignidade, porque são seres sencientes. Eles sentem dor, medo, carinho e afeto exatamente como qualquer outro ser vivo.”
Cultura da carroça precisa acabar, defendem protetores
Durante o resgate, protetores reforçaram a necessidade de combater a utilização de cavalos para tração animal. Segundo a Dra. Letícia Severino, é urgente discutir políticas públicas que coloquem fim à cultura da carroça.“Precisamos acabar com essa cultura da carroça. São animais submetidos diariamente ao excesso de peso, à fome, à sede, ao abandono e aos maus-tratos. Não podemos mais aceitar esse sofrimento como algo normal.”
Quando a eutanásia é indicada em cavalos?
A eutanásia em equinos é um procedimento ético indicado apenas em situações irreversíveis, quando o animal apresenta sofrimento intenso e não existe possibilidade de recuperação ou de manutenção da qualidade de vida. O fato de um cavalo estar mancando ou deixar de servir para o trabalho não é, por si só, indicação para eutanásia. Cada caso deve ser avaliado por um médico-veterinário, considerando critérios técnicos e o bem-estar do animal.
Neste resgate, os protetores decidiram que os animais teriam a oportunidade de tratamento e recuperação, rejeitando qualquer possibilidade de eutanásia apenas por não terem mais utilidade para o trabalho. Ao deixarem para trás uma vida marcada pelo sofrimento, o cavalo e a égua iniciam agora uma nova etapa cercados de cuidados e respeito.
Enquanto se recuperam, aguardam a chance de encontrar uma adoção responsável e, finalmente, viver a vida que sempre mereceram.
O fim da cultura da carroça avança no Brasil
A utilização de cavalos, burros e mulas para puxar carroças ainda faz parte da realidade de muitos municípios brasileiros, principalmente no transporte de recicláveis, entulho e materiais de construção.
Em grande parte dos casos, entidades de proteção animal denunciam jornadas exaustivas, excesso de carga, falta de alimentação, água e atendimento veterinário, além da ocorrência frequente de acidentes. Nos últimos anos, diversas cidades passaram a substituir a tração animal por veículos motorizados ou elétricos, acompanhando uma tendência de proteção ao bem-estar dos animais e de criação de alternativas para os trabalhadores.
No Estado do Rio de Janeiro, a Lei Estadual nº 7.194/2016 determina a responsabilização de quem submeter animais de tração a maus-tratos, prevê o recolhimento desses animais e estabelece regras para sua utilização, com exceções previstas para áreas rurais, turísticas e locais onde a autoridade competente considere o transporte animal necessário.Além da legislação estadual, alguns municípios avançaram com normas próprias. A Ilha de Paquetá, na capital, aboliu a tração animal em 2016, substituindo as tradicionais charretes por veículos elétricos. Já Nova Friburgo, na Região Serrana, proibiu a circulação de veículos de tração animal na área urbana por meio de lei municipal aprovada em 2018.
Apesar desses avanços, a utilização de carroças ainda é comum em cidades como Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti, Mesquita, Japeri, Magé, São Gonçalo, Itaboraí e Campos dos Goytacazes, onde entidades de proteção animal defendem maior fiscalização e políticas públicas que ofereçam alternativas de trabalho aos carroceiros.
Para os protetores que participaram do resgate, a transformação depende não apenas da legislação, mas também da conscientização da sociedade. Eles defendem que cavalos deixem de ser vistos como instrumentos de trabalho e passem a ser reconhecidos como seres sencientes, que merecem respeito, proteção e uma vida livre de exploração.
A dor invisível de quem puxa uma carroça
Por trás de uma carroça carregada de entulho, recicláveis ou materiais de construção, há um animal submetido a um effort físico extremo.
Cavalos utilizados na tração animal frequentemente percorrem longas distâncias sob sol intenso, enfrentam pisos de asfalto que desgastam os cascos e carregam cargas muito acima do peso recomendado.
O excesso de esforço provoca dores musculares e articulares, lesões nos tendões, inflamações, feridas causadas pelos arreios, problemas na coluna e nos cascos, além de desidratação, desnutrição e exaustão. Muitos também desenvolvem claudicação (manqueira) crônica, fraturas e doenças que, sem tratamento, comprometem definitivamente sua qualidade de vida.
Além do desgaste físico, os equinos sofrem intenso estresse. Como animais de fuga, assustam-se facilmente com buzinas, ônibus, motocicletas e o trânsito intenso das cidades, ficando mais vulneráveis a acidentes que colocam em risco tanto sua vida quanto a de motoristas e pedestres.
Segundo médicos-veterinários e especialistas em bem-estar animal, cavalos são seres sencientes, capazes de sentir dor, medo, ansiedade e sofrimento. Por isso, entidades de proteção animal defendem que eles deixem de ser utilizados como força de trabalho e possam viver em condições compatíveis com suas necessidades naturais, livres da exploração e dos maus-tratos.
Veterinário aponta boas perspectivas para recuperação de cavalos resgatados
O cavalo Zé Trovão e a égua Turuna apresentam lesões crônicas provocadas por anos de sobrecarga e trabalho, mas têm chances de recuperação e de viver com qualidade de vida, segundo avaliação veterinária.Zé Trovão sofre de artrose avançada no membro anterior esquerdo, além de uma lesão antiga que compromete os movimentos da articulação.
Para conseguir deitar e levantar, o animal desenvolveu um mecanismo de compensação que acabou causando uma lesão nos carpos. A recomendação é tratar a articulação afetada e fortalecer o membro oposto, que hoje suporta a maior parte do peso.
Já a égua Turuna apresenta uma lesão crônica na região lombar, com deformação permanente da coluna. Embora essa alteração não tenha cura, o tratamento pode controlar a dor e proporcionar mais conforto a ela.
De acordo com o veterinário, ambos os animais podem ter uma boa qualidade de vida com tratamento adequado e acompanhamento contínuo.
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