Gastão Reisdivulgação
Publicado 20/12/2025 00:00
O desembargador aposentado Sebastião Coelho chamou os ministros do STF de serem “as pessoas mais odiadas do país” em plena sessão televisionada da corte. Hoje, não só ele, a esmagadora maioria e a própria grande mídia os chamariam de as pessoas mais desmoralizadas do País. Artigos de colunistas de jornais de circulação nacional se somam nesta direção e denunciam a ditadura do Judiciário instalada, aquela que Ruy Barbosa dizia ser a pior delas, pois não haveria a quem recorrer. Mas ele se equivocou ao esquecer o fato de que a soberania pertence ao Povo Brasileiro, que já está se mobilizando para pôr fim aos atos ditatoriais que se tornaram rotineiros.
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Hora de olhar os dias atuais com visão histórica para entender nossa atual esquizofrenia institucional. O Brasil já teve uma moldura político-institucional que impedia a ocorrência dos absurdos a que estamos expostos a ponto de o líder do PL, deputado federal Sóstenes Cavalcante, afirmar que Moraes é um psicopata que hoje manda nos três poderes. O golpe militar de 1889 pôs fim ao instituto do poder moderador, poderoso instrumento para coibir os desmandos do andar de cima, e jamais utilizado para oprimir o povo, e sim, em sua defesa.
É fato que o Art. 98 da Carta de 1824 concedia amplos poderes ao imperador, inclusive o de suspender juízes, como seria o caso de Moraes, embora determinando que só seria usado ouvido antes o Conselho de Estado para evitar as decisões monocráticas tão ao gosto de certos ministros do STF. Antes, caro(a) leitor(a), que possa pensar que estou defendendo ipsis litteris o Art. 98, deixo claro que não é o caso. Mas reafirmo que o poder moderador, em novas bases, continua a existir em várias partes do mundo.
Nos países onde vigora o parlamentarismo, existem quatro poderes, como foi o nosso caso até 1889. São eles: legislativo, judiciário, executivo, exercido pelo Primeiro-Ministro, e chefia de Estado, ocupado por um presidente ou monarca constitucional. A Chefia de Estado é separada da chefia de governo justamente para que o poder moderador possa ser exercido nos momentos de crise pelo Chefe de Estado. O golpe do Molina abortado pelo ex-rei Juan Carlos da Espanha ficou na História.
Cabe enfatizar que a moldura político-institucional que já tivemos e a dos países parlamentaristas de hoje jamais permitiria que uma ditadura do Judiciário se instalasse, como é o nosso caso, nos infelizes dias vividos pelo Brasil. As reiteradas arbitrariedades do ministro Alexandre de Moraes teriam sido impedidas de início. Na verdade, ele sequer ousaria fazer o que vem fazendo, sob pena de ser suspenso ou sofrer impeachment. Mas, infelizmente, a omissão vergonhosa do senado e de seus pares coniventes no STF vêm dando corda aos desatinos mais apropriados a psicopatas.
O caso do banco Master revela, em sua crueza e grau de corrupção, a situação de ministros do STF como Moraes e Toffoli, dentre outros. Jornalistas de várias partes do País denunciam a participação das respectivas esposas em contratos milionários em que recebiam valores absurdos mensais com a desculpa de que estariam prestando serviços advocatícios. Os valores são de tal ordem exorbitantes que nenhum escritório sério de advocacia jamais teria condições de os receber licitamente. Simples assim.
A despeito das disfunções gritantes de nosso sistema político-eleitoral, há que se reconhecer que, em princípio, a câmara federal representa a soberania popular. Nenhum poder poderia estar acima deles. Não obstante, o STF resolveu dar ordem unida, como já fizeram os militares em nosso passado republicano, à sociedade civil que lhe paga os proventos sem se vexar em tratá-la como se fosse um amontoado de débeis mentais.

O desprezo pelo Povo Brasileiro se manifestou diversas vezes. Cabe relembrar duas delas. A primeira foi na primeira Festa Literária de Petrópolis (2024) em que o ministro Luís Barroso, revelando singular desconhecimento das últimas pesquisas, menosprezou a colonização portuguesa. (É sabida a sua acachapante admiração pelos EUA.). A segunda foi o dedo médio em riste do ministro Moraes quando foi vaiado num estádio de futebol por uma multidão que lhe paga o salário e as mordomias via impostos pagos mensalmente. O gesto de Moraes revelou o grau de desprezo do ministro pela população brasileira.
Diante desse quadro de omissão dos poderes constituídos e de avanços de sinal de certos ministros, parece ser a hora de pensarmos em desobediência civil com as devidas cautelas. A última atitude ditatorial partiu de Gilmar Mendes quando baixou uma norma praticamente vedando que ele e seus pares do STF pudessem ser processados. Voltou atrás, pois estava se comportando segundo aquele palavrão, ou seja, inconstitucionalíssimamente, por muito tempo considerado a maior palavra da língua portuguesa.
Na internet, encontramos como proceder em matéria de desobediência civil: “As medidas de desobediência civil são ações conscientes, públicas e não-violentas tomadas por indivíduos ou grupos que se recusam a obedecer leis ou ordens que consideram injustas, com o objetivo de protestar e promover mudanças sociais ou políticas”.
Tem ou não tem a cara do remédio que o Brasil está precisando?
As principais medidas que podem ser tomadas vão da recusa em obedecer leis específicas, decretos, boicotes a produtos e serviços, greves, ocupações de vias públicas, marchas e manifestações e petições e declarações públicas. Importante enfatizar que a desobediência civil orienta-se pela não-violência. Ao passarmos um pente fino nessas medidas, observamos que algumas delas já estão em andamento nas redes sociais e até na grande mídia.
Entretanto, a medida mais poderosa é a de ponderar com muito cuidado em quem vamos votar nas eleições de 2026. É preciso mudar o rumo do que vem acontecendo, e reorientar o País na direção correta do desenvolvimento sustentado com reformas que nos livrem dos voos curtos das galinhas. E abrir espaço para que o Brasil cresça e não continue a perder posição relativa face aos demais países. Mãos à obra com cautela e determinação.

Nota: Digite no Google “Entrevista com Gastão Reis: Quando o Brasil perdeu o rumo da História”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=gtg4NGdjBbQ&t=20s



E-mail: gastaoreis2@gmail.com
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