Publicado 21/03/2026 00:00
A desmemória nacional é maléfica. No meu próprio caso, eu me vi nessa situação prejudicial à nossa autoestima por um longo período de tempo. Lendo autores clássicos, em especial os diplomatas historiadores brasileiros, é que fui me dando conta da história mal contada de que fui vítima nas primeiras quatro décadas de minha vida. É aquela contada na versão dos vencedores, normalmente desrespeitosa dos fatos que lhe são desabonadores.
PublicidadeA boa notícia é que, cada vez mais, historiadores e escritores comprometidos com os fatos estão sendo lidos. Já citei em artigo anterior o caso da ex-jornalista Regina Echeverria, autora de “A História da Princesa Isabel”. Ela confessou em público que, ao longo dos dois anos de pesquisas para escrever o livro sobre Isabel, mudou da água para o vinho sua visão sobre a princesa. O lado positivo foi ter reconhecido, em vida, estar muito mal informada sobre quem Isabel foi de fato como ser humano e estadista.
Existem também historiadores cuja solidez intelectual e factual de suas obras parecem ter se perdido nas brumas dos tempos. Um bom exemplo é o caso de Roberto C. Simonsen e sua obra clássica e pioneira, de 1937, na área definida no próprio título: “História Econômica do Brasil (1500/1820)”. Informações cruciais sobre estes mais de três séculos de nossa História, pelo jeito, passaram em brancas nuvens para certos historiadores cuja desinformação desaguaram em textos que beiram a crime de lesa-pátria.
Em conversas com pais e mães cujos filhos e filhas que estão cursando o ensino fundamental e médio, e mesmo com os próprios alunos, fica evidente o enfoque mal informado dos professores de História e até de geografia. Nesta matéria, um deles chegou a dizer, em sala de aula de colégio particular bem conceituado no Rio de Janeiro, que é contra o agronegócio. A depender dele, acabaria com o setor. Pode?!
O recém-lançado livro de Paulo Rezzutti, “D. João VI”, faz jus ao subtítulo da série "A História Não Contada". Ela abrange outras figuras de nossa História, aquela escrita com H maiúsculo, em que o autor tem o cuidado de retratá-los em sua real dimensão, mantendo equilíbrio entre pontos positivos e negativos. Chama atenção, na obra de Rezzutti, ele ter encontrado mais pontos positivos do que negativos na vida desses grandes vultos da História pátria. Eles passam por uma reconfiguração merecida, que nos foi ocultada de caso pensado.
Mas a força da desinformação, e da má-fé oriunda de Gramsci e congêneres, ainda se faz sentir. Vale a pena citar um trecho de um curto texto escrito pelo deputado federal – e professor de história! –, Chico Alencar, que me foi enviado por amigo. Diz ele: “D. João veio para o Brasil em 1808 para implantar aqui o Estado Absolutista português. Aqui tornou-se, em 1815, D. João VI, monarca do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1821 retornou a Lisboa para liderar um movimento de recolonização do Brasil. Foi chamado de “O Clemente”, mas sendo de família aristocrática, considerava “natural” ter gente escravizada. Nunca foi “clemente” com a ideia de independência do Brasil”.
Raramente, é possível encontrar nas equivocadas linhas acima tamanho grau de desinformação, ou até de má-fé, em relação à nossa História. O autor bate de frente tanto com os textos tradicionais como aqueloutros que têm compromisso com a realidade dos fatos sobejamente comprovados. Vamos por partes esclarecer os absurdos ali contidos.
A ideia de implantar aqui o Estado Absolutista português não faz o menor sentido. A ideia de transplantar o coração do Império português para o Brasil era muito antiga lá em Portugal por verem no Brasil um grande futuro. D. João VI trouxe para cá 200 milhões de cruzados, mais de metade do meio circulante português, e levou de volta apenas ¼ deste valor. Voltou a Portugal a contragosto. Aceitou mesmo jurar uma constituição. Onde então a ideia estapafúrdia de implantar o regime absolutista no Brasil?
A recolonização do Brasil foi uma tentativa das Cortes de Lisboa e não de D. João VI. Deu a seu filho, antes de voltar para Portugal, o seguinte conselho: “Pedro, se o Brasil se separar de Portugal, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”. Disse mais ainda: “O Brasil é grande demais, não ficará muito tempo na dependência de Portugal”.
Mas a força da desinformação, e da má-fé oriunda de Gramsci e congêneres, ainda se faz sentir. Vale a pena citar um trecho de um curto texto escrito pelo deputado federal – e professor de história! –, Chico Alencar, que me foi enviado por amigo. Diz ele: “D. João veio para o Brasil em 1808 para implantar aqui o Estado Absolutista português. Aqui tornou-se, em 1815, D. João VI, monarca do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1821 retornou a Lisboa para liderar um movimento de recolonização do Brasil. Foi chamado de “O Clemente”, mas sendo de família aristocrática, considerava “natural” ter gente escravizada. Nunca foi “clemente” com a ideia de independência do Brasil”.
Raramente, é possível encontrar nas equivocadas linhas acima tamanho grau de desinformação, ou até de má-fé, em relação à nossa História. O autor bate de frente tanto com os textos tradicionais como aqueloutros que têm compromisso com a realidade dos fatos sobejamente comprovados. Vamos por partes esclarecer os absurdos ali contidos.
A ideia de implantar aqui o Estado Absolutista português não faz o menor sentido. A ideia de transplantar o coração do Império português para o Brasil era muito antiga lá em Portugal por verem no Brasil um grande futuro. D. João VI trouxe para cá 200 milhões de cruzados, mais de metade do meio circulante português, e levou de volta apenas ¼ deste valor. Voltou a Portugal a contragosto. Aceitou mesmo jurar uma constituição. Onde então a ideia estapafúrdia de implantar o regime absolutista no Brasil?
A recolonização do Brasil foi uma tentativa das Cortes de Lisboa e não de D. João VI. Deu a seu filho, antes de voltar para Portugal, o seguinte conselho: “Pedro, se o Brasil se separar de Portugal, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”. Disse mais ainda: “O Brasil é grande demais, não ficará muito tempo na dependência de Portugal”.
Ao contestar o cognome de “O Clemente”, o autor revela desconhecer obras de peso sobre a personalidade de D. João VI. A principal característica dele era a capacidade de ouvir críticas sem se irritar. Provavelmente, D. João VI leu “Os Provérbios” de Salomão, que aconselhava a ouvir muitos conselhos para estar bem informado antes de tomar uma decisão importante.
De mais a mais, as medidas tomadas por ele, em seus 13 anos como governante do Brasil, foram no sentido de preparar o País para ser dono de deu próprio nariz. A grande maioria dos historiadores, à esquerda e à direita, assinaria embaixo desta afirmação minha. A obra de separação do Brasil de Portugal foi levada a termo por seu filho, D. Pedro I. Ele teve o cuidado de nos legar uma constituição que, via pode moderador, tinha instrumentos para impedir os desmandos do andar de cima. Foi a que mais durou entre nós.
Para finalizar, D. João VI, em 31 de maio de 1923, já de volta a Portugal, disse, de viva voz, a seus patrícios o seguinte: “Cidadãos, eu não desejo nem nunca desejei o poder absoluto, e hoje mesmo o rejeito. Os sentimentos do meu coração repugnam ao despotismo e à opressão; desejo, sim, a paz, a honra e a prosperidade da nação.”
Seu filho, D. Pedro I, deu substância às palavras de seu pai ao enfrentar seu irmão absolutista, D. Miguel, numa campanha heroica em que se saiu vencedor, conferindo a Portugal a constituição de 1826, baseada na nossa de 1824, que estabelecia limites claro ao poder do monarca, inclusive nas rubricas do orçamento a serem definidas e votadas pelo Parlamento.
D. João VI mereceu, sim, o título de O Clemente, aqui e em Portugal.
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: História do Brasil mal contada ”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=eItrRRkiiAU
E-mail: gastaoreis2@gmail.com
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: História do Brasil mal contada ”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=eItrRRkiiAU
E-mail: gastaoreis2@gmail.com
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