Publicado 16/05/2026 00:00
No Patropi, sempre houve debate sobre a chamada norma culta e o modo como o povo usa a língua portuguesa. Não existe língua brasileira, apenas um modo diferente de falar e escrever o mesmo idioma. Ainda me lembro do meu pai comentando a reação de seu idoso professor de Português no Colégio Pedro II. O velho mestre era contra a primeira reforma feita na grafia da língua pátria. A palavra philosophia, por exemplo, perdeu o “ph” e passou a ser escrita com a letra “f”. O professor era taxativo: “Português de analfabetos!”.
PublicidadeAntes que você, caro(a) leitor(a), pense que se tratava de um tresloucado e reacionário idoso, cabe o seguinte esclarecimento. Nas línguas cultas como francês e inglês – e não estou excluindo o português do grupo –, as palavras nascem com determinada grafia e, dificilmente, trocam o “ph” por “f”. Tornam-se imortais em termos de grafia. Após a reforma de 1835(!), a grafia das palavras em francês é basicamente a mesma.
Nós esquecemos de nos perguntar o que acontece com uma língua quando a qualidade do ensino fundamental e médio deixa muito a desejar, como é o nosso caso. No Rio de Janeiro, é comum usar o pronome “tu” sem colocar o verbo corretamente na segunda pessoa do singular. Costuma ir para a terceira. Mas cabe registrar que em outras regiões, como o Rio Grande do Sul e o Maranhão, ainda é comum, fazer a devida concordância. Nada de “Tu vai?”, e sim “Tu vais?”.
Quando o ensino básico é de boa qualidade, o modo de falar do povo tenderá a ficar mais próximo da chamada norma culta, que exige as devidas concordâncias entre pronomes e verbos. A evolução da língua pode também caminhar em direção a transgressões de tamanha deselegância que os fonemas acabam soando mal. Ou caminha para nichos cujo vocabulário só é entendido pelos iniciados. Foi o caso de um aluno do Colégio Werneck, em Petrópolis, inventor de gírias, nos idos da década de 1960. Sem responder à pergunta feita pelo professor, ainda teve a audácia de arguir o mestre nos seguintes termos: “O senhor está de gloglote comigo?”. Houve risadas, mas ninguém sabia o que era gloglote. E nem podia saber...
Há ainda a questão de se expressar com clareza. Schopenhauer (1788-1860) em seu livro “A arte de escrever” nos brinda como uma série de comentários pé no chão a respeito de quem escreve. Valem também para quem fala, a despeito de haver diferenças entre o escrito e o falado. A questão de fundo, talvez a mais importante deste livro dele, seja não confundir escrever de modo difícil com ter profundidade no tema abordado. Schopenhauer desce a ripa em monstros sagrados de sua época como Fichte, Schelling e até Hegel por abusarem do formato confuso e obscuro.
Há ainda a questão de se expressar com clareza. Schopenhauer (1788-1860) em seu livro “A arte de escrever” nos brinda como uma série de comentários pé no chão a respeito de quem escreve. Valem também para quem fala, a despeito de haver diferenças entre o escrito e o falado. A questão de fundo, talvez a mais importante deste livro dele, seja não confundir escrever de modo difícil com ter profundidade no tema abordado. Schopenhauer desce a ripa em monstros sagrados de sua época como Fichte, Schelling e até Hegel por abusarem do formato confuso e obscuro.
O grande filósofo alemão faz ainda uma citação de Marco Quintiliano (35-95 d.C.), orador, advogado e professor romano, que merece ser reproduzida aqui: “Ordinariamente ocorre que as coisas ditas por um homem instruído são mais fáceis de entender e muito mais claras. E alguém será tanto mais obscuro quanto menos valer”. Quintiliano já sabia disto quase dois mil anos atrás! Nosso filósofo critica ainda o estilo enigmático. Diz mesmo o seguinte: “A indecisão da expressão é o que torna os escritores alemães tão desagradáveis”.
Jovem ainda, eu me dei conta daquela frase de Simone de Beauvoir, escritora que não havia lido na época: “Escrever é um ofício que se aprende escrevendo.” É interessante a ênfase dada por ela à redação sem menção ao aprendizado da gramática. O excelente Colégio São Bento, do Rio de Janeiro, exige de seus alunos duas redações por semana. Na verdade, aprender gramática no contexto do exame crítico de bons textos é muito mais produtivo do que aprender de cor inúmeras regras gramaticais. Sua observância, por si sós, não produz um bom escritor. Voltaire dizia que “o adjetivo é inimigo do substantivo”. Sem dúvida, pensamento pobre pode estar envolto numa profusão de palavras vazias cuja presença é dispensável.
O Brasil de hoje é um país sem substância, preocupado em atender conveniências de curto prazo sem visão de longo prazo. Se não, vejamos.
O Brasil de hoje é um país sem substância, preocupado em atender conveniências de curto prazo sem visão de longo prazo. Se não, vejamos.
A longa persistência da desigualdade, da falta de segurança pública e da corrupção comprova que leis e medidas tomadas são inócuas já faz tempo demais. Somos especialistas em deixar ficar para ver como é que fica, atitude típica de Getúlio Vargas. Os piores foram os órgãos de governo criados para disciplinar até mesmo aquilo que o mercado faz a contento. É a síndrome de ensinar Padre Nosso ao vigário na área da economia. Passamos décadas tentando controlar a inflação sem os devidos cortes de gastos públicos. E Lula continua na mesma batida, ainda hoje, com déficits anuais bilionários.
Os últimos episódios da “apaixonante” vida política brasileira confirma a vocação para desconjuntar ao invés de estabelecer uma conjuntura de fatores propícios aos crescimento sustentado de longo prazo do País. A Lei 15.402 deste ano, apelidada de Lei da Dosimetria, é ilustrativa. As penalidades, extremamente severas contra crimes de um golpe de Estado que não houve, levaram o Congresso a passá-la para podar os excessos do STF, em especial as decisões monocráticas e inconstitucionais do ministro Alexandre de Moraes.
Inconformado com a nova Lei, Moraes suspendeu os efeitos da 15.402 até que o plenário do STF se manifeste quanto à sua constitucionalidade. Ou seja, resolveu dobrar a aposta contra a decisão soberana do Congresso Nacional e, de quebra, enfurecer seus pares. Criou, assim, mais um episódio de conflito entre os poderes ao invés de baixar a bola em direção à harmonia a ser preservada. O ambiente voltou a ser de elevadíssima temperatura. A (des)conjuntura continua na ordem do dia.
A única certeza que temos é a imperiosa necessidade de dar um freio de arrumação no STF, afastando ministros que a rigor não deveriam continuar na elevada posição que ocupam. Após as eleições de 2026, a primeira tarefa do novo senado deverá ser pôr fim a uma ditadura que se vale da Lei para tomar decisões arbitrárias. Legítimo samba do crioulo doido.
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Inversão de Valores”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=CSpng1r_oRA
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Inversão de Valores”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=CSpng1r_oRA
E-mail: gastaoreis2@gmail.com
Gastão Reis é economista e palestrante
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