Gastão Reisdivulgação
Publicado 15/08/2026 00:00
Num mundo dominado pelo imperialismo da língua inglesa, é sempre saudável tomar conhecimento da visão de outros povos, como o francês, no que diz respeito ao futuro, em especial quanto ao papel fundamental que a IA vai desempenhar nessa nova etapa de nossa caminhada como seres humanos. O melhor enfoque é aquele que abrange pontos positivos e negativos, sem esquecer os riscos e as oportunidades que se fazem presentes ao longo do processo.
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A revista francesa Le Point, em edição fora de série, número 3, de dezembro de 2025 – janeiro de 2026, intitulada O Novo Guia da Inteligência Artificial, nos presta este belo serviço de não esquecermos de manter um pé atrás diante das maravilhas anunciadas pela chamada IAG – Inteligência Artificial Generativa. A IAG imita o pensamento humano por ter a capacidade de criar novos conteúdos originais em textos, imagens, vídeos, áudios e códigos a partir de solicitações feitas por nós, os humanos.
É impossível neste artigo de duas laudas resumir a riqueza de informações que este número de cerca de 100 páginas da Le Point nos traz. Mas não é impossível pôr em destaque os pontos mais relevantes abordados.
O Sumário da revista tem uma introdução, que nos fala do turbilhão da superinteligência, e cinco seções, a saber: 1. Uma aceleração exponencial; 2. Saúde: um grande salto avante; 3. Uma faca de dois gumes, com benefícios e males a serem enfrentados; 4. A arte na era dos algoritmos; e 5. Como tirar partido dessa nova ferramenta. É, sem dúvida, uma abordagem abrangente.
Na Introdução, a revista nos fala da vertigem que vamos enfrentar. A máquina deverá ultrapassar os seres humanos. Aquele supercomputador, o Deep Blue, desenvolvido pela IBM, que derrotou o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, foi um prenúncio do que está por vir. Trata-se de um desafio civilizacional a ser enfrentado por nós com a influência pesada das grandes potências e dos magnatas que dominam a IAG. Trata-se da construção de uma civilização computadorizada. É algo que vai na linha de uma humanidade narcisista ter que construir um dublê dela mesma. Paradoxal, não é mesmo?
Antes de entrarmos num breve resumo de cada seção, é preciso chamar atenção para alguns pontos da introdução que têm um lado assustador. O primeiro é o consumo elevadíssimo de energia das megaestruturas que serão necessárias. O físico David Deutsch nos relembra que a verdadeira inteligência é aquela que nos permite criar o saber inédito, como foi o caso de Einstein com a teoria da relatividade. Sam Altman, presidente da OpenAI, prevê que a máquina pensante estará entre nós antes de 2030. Meghan Markle e seu marido, o príncipe Harry, querem dar um freio de arrumação na IAG numa carta aberta com mais de 1000 assinaturas propondo a mesma coisa. O Papa Francisco nos alerta sobre as consequências éticas e humanas da IA.
Portanto, “há controvérsias”, diria aquele personagem criado por Chico Anysio. Meredith Whittaker, presidente da Fundação Signal, foi cofundadora, em 2017, de um dos primeiros laboratórios que pesquisaram os efeitos sociais e políticos da IA. Para ela, a IA não é um progresso neutro. Constitui, na verdade, um projeto de poder que pode ser descomunal sem a devida regulamentação. Mas, de fato, os robôs humanoides cada vez mais se parecem conosco. A empresa chinesa UBTech os vem produzindo em grande escala e surpreendendo o mundo com suas habilidades.
Le Point nos fala do temor do apocalipse cognitivo. As promessas da IA, que nos falam de um ganho espetacular de eficácia e eficiência, poderão, paradoxalmente, fragilizar a singularidade do pensamento humano. “Um cérebro”, diz a matéria, “que se satisfaz com uma tarefa feita mecanicamente, sem real envolvimento intelectual e nem apropriação pessoal do conteúdo, está funcionando em modo passivo”.
A primeira seção nos fala de uma aceleração exponencial em todos os ramos do conhecimento. Vejamos os mais importantes. Demis Hassabis, Nobel de Química e cocriador do Google DeepMind, nos fala de seus sonhos e aspirações: uma ferramenta que nos permita compreender a natureza da física, da consciência, dos sonhos e do tempo. Para o engenheiro de informática e aprendizagem de máquinas, Aymeric Roucher, “desacelerar é perecer”. Será? As tragédias do excesso de velocidade no trânsito são bem conhecidas. Mas o robô Ameca, da britânica Engineered Arts, por sua capacidade de reproduzir expressões humanas, parece apagar as diferenças entre nós e eles.
Na seção sobre a saúde, um programa de IAG é capaz de identificar as patologias que poderão afetar os pacientes vinte anos à frente. Este diagnóstico de longo prazo vai permitir ao médico fazer um acompanhamento preventivo personalizado. Tal possibilidade abre um sorriso no rosto de Suzette Delaloge, oncologista especialista em câncer de mama do Institut Gustave-Roussy. Mas a possibilidade de aumentar nossa capacidade cerebral poderá gerar desequilíbrios mentais muito sérios.
A seção 3 nos alerta para a IA como uma faca de dois gumes. No caso das forças armadas, a aposta arriscada na automatização via IA é um ponto de virada para a humanidade. Afinal, terceirizar a decisão para a IA ou manter o controle humano é questão para se pensar mais de duas vezes. Alexander Kmentt, diplomata austríaco e diretor de controle de armamentos, é enfático: “O papel dos humanos na utilização da força não é apenas fundamental na segurança, mas é também uma questão legal e ética”. Como terceirizar?
A seção 4 nos apresenta a arte na era dos algoritmos. O cinema se torna um verdadeiro espetáculo para os olhos. Asteria é um estúdio a serviço dos criadores. Criou Marey, um modelo treinado em conteúdos licenciados para respeitá-los. Mas a Sétima Arte corre o risco do avestruz de enfiar a cabeça no buraco. O ano de 2025 foi o pontapé inicial da era Hollywood 2.0. Cyril Barthet, especialista do audiovisual, nos informa que a indústria do cinema vive uma grande e inédita mudança de rumo.
Finalmente, a seção 5 ensina como tirar partido de todas essas ferramentas agora disponibilizadas pela IA e pela IAG. Mãos à obra com cautela.
Nota: O livro “O Império da IA – Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total”, de Karen Hao, da Editora Rocco, nos fala de grandes riscos.
Gastão Reis é economista, palestrante e escritor
 
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