Luarlindo Ernesto, repórter do Jornal O DIA.Daniel Castelo Branco
Publicado 05/03/2022 06:00
Escapei, até agora, do vírus que assola nosso mundo. Três doses, mais outra contra gripe, para tentar barrar a doença. Uso máscara quando me atrevo a sair nas escapadas até ao médico, uso os serviços de delivery
para as compras de alimentos. Estou um velho eremita, na caverna aqui da Água Santa, quase sedentário.
Faço exercícios quando consigo varrer o quintal. Levanto cedinho, por volta das 5 da matina, já desesperado, ávido por notícias da noite e madrugada anteriores. Fones nos ouvidos, ligando a televisão, o velho rádio de pilhas, computador, celular e o frenesi de desgraças logo surgem. Estou contando isso porque, agorinha, dia 17, comemoro dois anos em home office.
Há dois anos fui "convidado" a não comparecer na redação do jornal. Fui um dos primeiros a ficar na clausura da minha casa. Foi duro aceitar a imposição dos chefes e da Simone, do RH. Ela me convenceu, "você tem mais de 70 anos. Deve trabalhar em casa, são regras sanitárias, vai dar tudo certo". Não sou
bom em datas. Mas, desta vez, não esqueci esse dia 17.
Esvaziei as gavetas, dei um beijo no computador, e peguei as fotos da família que tinha na mesa. Saí triste do prédio. Alguma coisa me dizia que seria difícil voltar àquela agitação de uma redação. Confesso que
tive medo de botar o bloco na rua e nunca mais pisar naquele solo sagrado na minha curta vida. São 62 anos vivendo em redações...

Agora, trabalho em um escritório improvisado, na varandinha em frente ao meu quarto. É da janela que vejo as árvores, os pássaros, as frutas balançando nas frutíferas. Vez por outra, oculto pelo vidro fumê, de uma das janelas, vejo o movimento da rua. Os vizinhos, carros, motocicletas, os mascates que começam cedinho, oferecendo ovos, pães, verduras e legumes. Quando consigo colocar em dia as notícias principais da cidade, dou uma escapulida no quintal. É hora de alimentar os pássaros. Depois, quando me sobra um tempinho, junto as folhas das árvores.
Vocês não imaginam como é entediante repetir isso por dois anos, preso na caverna. Acho que alguém deve passar o mesmo martírio que estou vivendo. Cheguei ao ponto de ficar com saudades de um bom e infernal engarrafamento! Mas, é triste o recolhimento. Nem aos enterros dos velhos amigos, alguns bem novos, eu consegui comparecer.
E, lembrem quantos se foram nesses dois anos. Eu perdi a conta. Mas ainda vejo os rostos de todos eles. Quase diariamente. Não é triste? Conservo os nomes de todos na agenda telefônica.

É péssimo trabalhar em casa. Sessenta e dois anos e, agora, sem o burburinho e o barulho, conversas, choros, risadas dos companheiros de trabalho. Bolas, só pelo celular - no meu caso, prefiro o telefone fixo, mas a maioria dos amigos, não - nesse tal de WhatsApp. Quando há reuniões em videoconferência, aprendi que devo estar vestido convenientemente.
Lembram dos flagrantes inconvenientes que surgiram nessas reuniões? Gente de cueca, falsos cenários, aparições de familiares indevidas nas reuniões, teve até cena de sexo. Então, é melhor prevenir. Um
traje social-esporte é o bastante para aparecer no vídeo. Mesmo de chinelos. Ah, barbeado, é claro. São poucas ocasiões que vejo os rostos dos companheiros. Bolas, ficamos afastados até mesmo dos parentes.
Datas festivas, todos juntos e embolados, são lembranças. Beco das Sardinhas, às sextas feiras, só no pensamento. Até o boteco do Gordinho, aqui do lado, fechou. Só os vizinhos que frequentam meu quintal é que quebram a rotina do isolamento. O Fred, em pleno Rio 40º. telefona para dizer: "Beba água. Cerveja, não". E os que chegam e vão entrando.
Não tenho como barrá-los. Foi difícil entender a insistência deles em confraternizações. Bolas, passam pelo mesmo confinamento. Caramba, um espião me confidenciou que haverá outra invasão do meu quintal neste
final de semana. Já vou encomendar o reforço de álcool 70, entre outros.
 
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