Publicado 28/06/2025 00:00
Nesses tempos de frio, a churrasqueira virou lareira de cachorro. A Chiquinha, aquela vira-lata gigante que habita minha caverna, não sai de perto... E nem precisa ter ali uma carne assando para atraí-la. Basta mesmo o calor do carvão queimando.
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É isso, amigos. O inverno chegou para todos aqui. Lá fora, os bebedouros dos pássaros estão protegidos com galhos e folhagens que, nessa época do ano, funcionam também como tocas para o passaredo.
Do lado daqui da área, a estação já mexeu no vestuário e no cardápio: chocolate quente, sopão de entulho, touca e luvas e agasalhos.
Água de beber em temperatura (brrr) natural. Gelo, nem mesmo na mais tradicional caipirinha.
Fred sugeriu churrasco de peito de boi. Bem gorduroso.
Tô só no mingau de lugumes e suco de acerolas.
Não suporto dieta. Ibiapina diz que é a minha sobrevivência. Ou castigo?
Leite? Jamais!
A chegada dos amigos na caverna nessa semana fria foi diferente. Cada um com o traje apropriado. Parecia desfile de pinguins. Não resisti: peguei emprestado o enorme exemplar de louça que enfeita a geladeira da patroa e o coloquei em local de destaque na varanda. Ah, com cartaz improvisado: vejam, ilustres cidadãos, o belo tipo faceiro!
Mais ao lado, uma velha chaleira de ferro, do tempo que Dondon jogava no Andaraí, completava o cenário invernal.
Júlio trouxe pedras de gelo, de plástico, adornando um tacho de cobre. Tá no clima.
Entre as pedras, um velho bilhete, esquecido ali duas estações antes, convidava: “Vamos à praia!”
Foi uma inspiração. Peguei a ceroula que estava secando na área dos fundos e pendurei ao lado.
Céus, com tanta cenografia, quase que a carne queimou na churrasqueira.
Enfim, o vizinho de bombordo chegou. Trouxe 36 ovos, já cozidos. E explicou:
- Cozinhei com receio de quebrá-los.
Tá certo, menos trabalho para o clã. É descascar e comer. Prático.
Então, o vizinho arrematou:
- Não trouxe os frangos porque estão vivos. Poderiam ficar resfriados com a chuva, o vento e o frio. - Bem, todos "acreditaram”.
Vizinho de estibordo, afastado há algum tempo por conta de uma gripe, tocou o sino da porteira. Fred espiou e avisou:
- Tá trazendo isopor. Isopor pesado. - alertou o suíço.
Tempo de modernidade. A porteira tem mecanismo eletrônico, com câmera. O amigo chegou e mostrou o mimo para degustação. Ah, sardinhas frescas.
Senti o cheiro de longe. O olfato tá ótimo. Já a visão, bem prejudicada. A tal da catarata atrapalha. Para piorar, os óculos que ajudavam quebraram. A lente esquerda partiu em pedacinhos. Bem, o olho direito é o que salva. E a lente nem arranhou.
Ao ver meu monóculo improvisado, Júlio me chamou de Camões do Século.
Então, prejudicado, aguardei deitado na rede a preparação dos comes e bebes. Tô esperando sair a grana da aposentadoria para me apresentar na ótica. Morou?
Tudo a perder de vista.
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