Publicado 06/06/2026 00:00
Estava distraído com a fervura da água na chaleira para o café da manhã na cozinha da caverna, quando ouvi aquele barulhinho de notificação de mensagem do celular. Era um vídeo enviado pelo vizinho aqui de boreste com imagens inusitadas de um entregador de aplicativo que usava como meio de transporte um cavalo. Por aqui são comuns as entregas de moto e de bicicleta, mas o cavalo no meio de transporte de encomendas — que o vídeo identificava como sendo em Bangu — isso eu ainda não tinha visto. Afinal, eu sou de um tempo em que bife a cavalo era apenas o nome do prato em que a carne vem acompanhada de ovos.
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Claro que levei o assunto para a reunião do conselho dos veteranos do Principado de Água Santa.
Será que aquele entregador, já se antecipando a um possível aumento dos combustíveis por conta desse novo tarifaço anunciado pelo pato Donald Trump, decidiu trocar a moto por tração animal?
Isso me fez voltar 50 anos no tempo, quando, aqui mesmo, em Água Santa, saía a carroça com aqueles tambores de leite pra vender ao povo. Outros iam até o final da rua Torres de Oliveira, no pé da serra, para comprar carne, do boi abatido na hora. Época em que Água Santa era subúrbio do Engenho de Dentro. Mas isso foi no tempo em que o Arco-íris ainda era em preto e branco.
E olha que não tem nem muito tempo, quando no início dos anos 2000, a alavancada da indústria de motocicletas levou ao desemprego centenas, talvez milhares, de jumentos no Nordeste do Brasil.
Tradicionais meios de transporte de cargas em regiões de areais, como as praias de Jericoacoara e de Canoa Quebrada, no Ceará, os jumentos ficaram de patas abanando, e muitos, sem mais função social em suas comunidades, foram abandonados em beiras de estradas.
— Vivemos o momento inverso e retornando no tempo — filosofou Nelson.
Sujeito prático, Ibiapina trouxe outra preocupação que veio com o anúncio das novas tarifas.
— Se tirarem o nosso Pix, o jeito vai ser voltar pro escambo, coisa muito antiga, do tempo em que a gente trocava uma mercadoria por outra, sem que ninguém visse a cor do dinheiro.
Mas o que poderíamos trocar para garantir o fornecimento das carnes do churrasco? — perguntei aos amigos.
Bira foi o primeiro a opinar:
— Figurinhas de times das seleções da Copa do Mundo. Elas já estão por toda parte. Onde houver uma banca de jornal, tem pais e filhos amontoados, trocando, investindo, como se fosse leilão da bolsa.
— E quantos quilos de carne será que a gente consegue comprar com a figurinha, por exemplo, do Neymar?
Isso vai depender muito, se ela for a carimbada, a gente consegue até picanha. Senão, meio quilo de asinhas paga.
Essa brigalhada toda internacional para saber quem será o operador do crédito que vem do nosso bolso é de amargar. Eu sou do tempo em que bares, armazéns trabalhavam com o pendura, que funcionava apenas com o nome do cliente no caderninho e a promessa apalavrada de que pagaria no final do mês. Não havia sequer Serviço e Proteção ao Crédito, o tal SPC. O crédito era direto e a salvação até o mês seguinte. E importante: sem fiador!
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