Publicado 11/07/2026 00:00
O frio é bom para os comilões. Especialmente para eles. Claro que isso vale se, além do desejo de comer, houver condições financeiras e de saúde. Para esses sortudos, eu aconselho: nada de enlatados ou mesmo embutidos. O bom alimento é o fresco e forte ou, como o conhecido feijão, carregado. Sim, carregado de carnes e vegetais.
PublicidadeMas a vida cara e a correria do dia a dia deixam muita gente na ilusão dos sanduíches. Esses, eu garanto, engordam, mas não alimentam, e ainda esvaziam os bolsos. Se for o caso do amigo, melhor batizar o velho feijão com farinha.
Aprendi isso na roça, onde fast food não tem vez.Bolas, mas por cá, no Principado, a carne na brasa não pode faltar. Então, nesse frio de amargar, o jeito é juntar churrasco com feijão, mesmo que não combine. Não importa. Vai assim mesmo.
— Aqui não temos chef de culinária dando palpites — anunciou Júlio, lembrando o bebop, como era chamado esse subgênero do jazz que misturava outros ritmos, como o samba e o mambo.
— Tudo para mexer o esqueleto. No caso do alimento, serve para alimentar. Bem mastigado, curtido no bom tempero.
E, como exemplo, montou seu cardápio:
— Sopa bem quente, depois o feijão com arroz e, no final, bananada.
Pronto. Todos alimentados.
Enquanto ouvia o amigo falar sobre as delícias da gastronomia brasileira, segui firme no suco de acerola. Depois, purê de batatas. Sim, permaneço na bendita dieta. E, como toda dieta que se preze, não era mesmo o que eu desejava consumir.
Depois de um dia de conversas sobre comidas gostosas, sonhei com rabada e agrião. Foi apenas um devaneio. Cheguei até a sentir o prato fumegante vindo em minha direção, mas fui despertado pela patroa, que trazia um chá bem quentinho e torradas. Em meu socorro, a amiga Lelê me enviou um bifão com fritas, que foi devidamente confiscado e devorado pelos amigos de plantão.
Mas não desanimo. Em meio à fumaça do churrasco de quarta-feira aqui no Principado — dia em que mais de 40 cidades no Brasil registraram temperaturas abaixo de zero —, com aquele cheiro de carne assada no ar, lembrei de uma passagem lá dos anos 90.Eu chegava cedo no jornal. O amigo César me dava carona diariamente.
Manhãzinha, lá pelas 6 horas, eu e o César Bigode parávamos em um bar na Rua Bela. Nosso destino final era a Avenida Brasil, número 500, prédio do Jornal do Brasil. Virou rotina. Pedíamos dois cafezinhos e botávamos o papo em dia.
Até que, em uma manhã chuvosa, um cidadão com roupas esfarrapadas e sujas apareceu correndo pelo meio-fio e nos empurrou violentamente. O sujeito tinha os olhos arregalados.
Aos gritos, dirigiu-se ao balcão e berrou para o dono do estabelecimento. Certamente já se conheciam:
— Ó Tião, bota uma bebida aí!
E prosseguiu aos berros:
— Boca que não merece beijos, aguardente nela!
O comerciante, após servir o freguês aflito, explicou baixinho:
— Ele era o meu contador. A mulher dele arranjou outro e expulsou o cara de casa. Tá bebendo desde então.
Pensei: "Caramba, 6h05 da manhã, horário de partir rumo ao batente, e o malandro já nessa água!". Mas a frase do contador ficou na minha mente — e na do César, que até hoje, sempre que me encontra, lembra dessa passagem.
Pois é, hoje eu também lembrei. E adaptei:Boca que não merece churrasco, papinha nela.
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