Publicado 01/08/2026 00:00
Enquanto assisto pela tevê às imagens trágicas dos incêndios florestais que vêm varrendo as matas da Europa ocidental — no que já é considerado o verão mais quente de todos os tempos no velho continente —, sou surpreendido pela patroa com um: “Luar, tem fogo também aqui pertinho. A Serra dos Pretos Forros está queimando”. Precisei conferir pessoalmente. Afinal, aqui é inverno, choveu recentemente e a temperatura máxima registrada na semana por aqui não passou dos trinta e poucos graus.
PublicidadeMas, sim, a serra que conheço desde a infância (e já faz tempo que cruzei o Cabo da Boa Esperança) ardia bem diante dos meus olhos. Um clarão no meio do fogo contrastando com um céu negro, e dava para ver ainda um bom trecho de mata queimada. Acionamento da natureza iniciou o fogo? Difícil de acreditar. Ação humana? Bem, o local ali é de difícil acesso. Muito difícil acesso. A Serra dos Pretos Forros, do lado de cá da Água Santa, é de vegetação rasteira. Do outro lado, que vai sair na estrada Grajaú–Jacarepaguá, é de mata fechada, com várias nascentes. Aqui, nascente só de água mineral. Então, terá sido balão? Desconfio que o fogo começou ainda no final da tarde, porque a área queimada já é muito grande. E é como diz o ditado: fogo morro acima e água morro abaixo ninguém segura.
Lembrei do tempo em que eu, criança, vinha passar as férias aqui na casa da minha tia-avó. E, bem no alto, eu sempre tive atração pela serra. Eu e um bando de garotos subíamos até o topo, que é muito íngreme. Eu ainda levava uma garrafa d’água, mas outros amigos não, e eu tinha que dividir; não dava para negar água, né? A minha tia-avó ficava do muro de casa tocando um apito para ver se chamava a minha atenção para eu voltar, mas a distância fazia com que o som se perdesse e não chegava até onde estávamos escalando a serra. Houve uma determinada época em que eu era alvo de chacotas por causa do apito. Até que um dos molecotes sofreu um tombo, e foi difícil trazê-lo de volta. A gente se revezava para carregar o amigo. Desde então, nunca mais fizeram chacota da tia do apito.
A Serra sempre me atraiu. Eu, já casado, burro velho, toda vez que via o Tabeco — um sitiante que morava lá no alto e que vendia laranja aqui no asfalto —, perguntava como era o local da moradia dele. Ele mais parecia um coronel dos Pampas no alto de seu alazão, puxando um burro com sua carga de sacos de laranjas. Confesso que sentia uma certa inveja do Tabeco só por ele morar no alto da Serra, um local muito, muito bonito. Anos mais tarde, eu fui dar uma olhada, mas já não existia o sítio. Ele e o sítio desapareceram.
O incêndio foi o assunto predominante da churrascada da sexta-feira. Ainda bem que o fogo se apagou. Sem intervenção humana. O receio é que, do outro lado da serra, o estrago possa ter sido grande. Lá há árvores frondosas e mata fechada. Na churrascada, eu aproveitei e mostrei para os amigos, os velhinhos unidos da área, o cantil que eu usava na minha puberdade para levar água e subir a serra. Tenho-o até hoje e o guardo com muito carinho. Curioso é que nenhum de nós nunca pensou em atear fogo na mata, nunca deixou lixo no caminho e sempre, sempre respeitou muito aquele lugar sagrado. E olha que nem se falava em defesa da ecologia. Não precisava! Também não tinha, naquela época, vendaval de 100 quilômetros por hora!
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