Publicado 12/09/2026 00:00
O cara da carrocinha do limão passou em frente ao portão e gritou bem alto: “Limão para batidas!”. Foi a alegria do Principado. Estávamos justamente pensando em como reabastecer a caverna nesses dias de muito frio e chuva, e a voz do vendedor trouxe com ela uma ideia: compramos toda a partida da fruta, porém encomendamos que retornasse com outro carregamento. Mas, dessa vez, de cervejas.
PublicidadeEsse final de inverno chuvoso está mesmo de amargar. Atrapalha a rotina de reabastecimento dos veteranos, acostumados a buscar pelas ruas da região, e calçando apenas chinelos, os mantimentos necessários para manter os costumes e a coluna. Como formigas, carregamos apenas o que o corpo pode levar, num trabalho coletivo em que todos, juntos, garantem o programa principal das nossas reuniões: o churrasco. Aliás, nesses dias frios, a lareira e a churrasqueira aqui estão funcionando em regime de 24 horas; enquanto a primeira aquece o corpo, a outra aquece o estômago e a alma, combustíveis do bom humor da turma.
— Na quinta-feira, Júlio avaliou nossos estoques e trouxe uma outra questão, enquanto ainda aguardávamos o retorno da carrocinha de limão com o engradado de cerveja:— Carvão temos o suficiente para essa nova temporada de chuvas. Isso se a previsão estiver correta e esta frente fria cair fora do Rio na próxima semana. Já a madeira... Vamos precisar reabastecer.
Sim, Água Santa ainda tem um pedacinho rural no território de onde provêm as carrocinhas que, volta e meia, trazem frutas tiradas do pé. E tem até, por essas bandas, o dono de uma ou duas vacas leiteiras. Mas não temos produção de eucaliptos suficiente para garantir a lenha que a lareira e os anciões daqui da caverna tanto gostam. Fred, que nunca teve dificuldades de conseguir esse combustível natural para o aquecimento em sua terra natal, a Suíça, sugeriu buscar na internet opções mais simples. E, sim, há muitas.
É curioso que, por mais que o mundo evolua, que a tecnologia insista em tomar o lugar da gente, tem certos costumes que as máquinas não conseguem abraçar. Eu sei que jogar conversa fora, como fazemos, qualquer IA faz. Aliás, são especialistas em juntar palavras desnecessárias, formando frases que podem significar zilhões de coisas. Mas não há robô que goste ou mesmo prepare um bom churrasco, que prepare o molho à campanha e a farofa como faz com gosto a patroa, e muito menos jogos eletrônicos que animem os amigos nesses dias tão frios e, ao mesmo tempo, complicados porta afora, como um bom encontro.
E quando a gente fala de encontro invernal dos anciões do Principado, o churrasco é só para início de conversa. O frio traz sempre de volta às nossas reuniões os deliciosos caldos, a sopa do cavalo cansado e o vinho. A última remessa veio das Serras do Azeitão, trazida pelo velho amigo Mário. Santa sobra santa!
Acho melhor aproveitar o retorno da carrocinha do limão, trazendo a cerveja, para pedir alguns metros cúbicos de lenha. Senão, acabaremos jogando na lareira os tamancos holandeses e os caixotes de madeira das últimas remessas de hortaliças.
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