Publicado 26/09/2026 00:00
Com tanta chuva e ventania, a primavera chegou sem fazer alarde. Não fosse o sabiá-laranjeira que pousou aqui no quintal bem cedinho para avisar que a estação mudou, o tradicional churrasco regado a caipirinhas com frutas da época não teria acontecido. Sim, de tão melodioso, o canto do sabiá-laranjeira é uma espécie de hino oficial da chegada da primavera. Mas, corrigida a rota, a turma decidiu caprichar no evento. Eu ainda varria o quintal quando, bem cedo, os amigos Júlio e Ibiapina chegaram juntos da feira, trazendo abacaxi, melancia, acerola, pitanga e amora para incrementar a festa.
PublicidadeA patroa passou um café e tirou do forno o pão de queijo para dar início à conversa que, aproveitando a manhã tímida e ensolarada, aconteceu ao redor da mesa do coreto que ergui no quintal da caverna, e que guarda o nome carinhoso de “Praça dos Evangélicos”. Isso porque lá atrás, no tempo das minhas peraltices, era ali que muitas vezes terminavam as madrugadas boêmias. Como a minha casa ficava no caminho de uma igreja, todo fim de semana vinha um grupo aqui no portão para pregar a salvação, mas de mim, confesso, só tiravam o sossego. Depois de algumas semanas de protestos, mudei de tática e passei a ficar calado, como se nada ouvisse. Convencidas de que meu comportamento era em razão de surdez, e não por teimosia, as pessoas mudaram o itinerário e foram pregar em outras freguesias.
Mas voltando ao encontro do Principado, o Mário chegou logo em seguida e ajudou a turma a picar os ingredientes para o churrasco que aconteceria mais tarde. E, conversa vai, conversa vem, o assunto mudou dos frutos para as plantas.
- Luarlindo, trouxe para você aqui um molho de erva-de-santa-maria. Ô coisa ruim, amarga! Mas minha mãe me obrigava a tomar quando menino. Era remédio para qualquer mal, fosse ele qual fosse – comentou.
Erva-da-bruxa, carqueja, alcachofra... Quem nunca, entre os amigos mais velhos, foi obrigado a tomar esses santos remédios caseiros pelo menos uma vez?
Mário é um dos meus colegas mais antigos em atividade — ou seja, vivo — do tempo do Jornal Última Hora. Foi ele quem lembrou de uma passagem minha, numa primavera já distante, quando havia uma velha mangueira aqui na caverna... Certa noite, cheguei de madrugada, sem chaves. Para não incomodar a patroa, lembrei que o vizinho de bombordo nunca trancava o portão e decidi pular o muro alto que separa o quintal dele do meu. O plano era bem simples: eu saltaria sobre a velha mangueira lá de casa e desceria por ela. O problema é que, de tão velha, ela tinha morrido e eu mesmo mandara cortar. Mas só me lembrei disso quando já estava no ar. Além de incomodar a patroa, ainda quebrei duas ou três costelas.
Aliás, como não existe tratamento eficaz para costela quebrada, para aliviar minha dor, a patroa tratou de pegar um pouco de cânfora para fazer um unguento. Outra planta boa de se desenvolver nessa época do ano.
E assim foi a chegada da nova estação no Principado de Água Santa: fogo aceso, carnes na churrasqueira, caipirinhas servidas e algumas folhas de boldo para o fígado, porque, aqui, ninguém é de ferro!
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