Publicado 29/12/2025 05:00
Andréa Queiroz é historiadora e diretora da Divisão de Memória Institucional do Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ, com pós-doutorado em História Social. Coordena a pesquisa "A UFRJ e a ditadura civil-militar: lugares de memória e trajetórias". Membro da Comissão da Memória e Verdade e do Grupo de Trabalho Patrimônio e Cultura para o Plano Diretor 2030 da Universidade, é uma das coordenadoras do podcast "História Presente" sobre a ditadura civil-militar, premiado pelo Memórias Reveladas do Arquivo Nacional em 2025.
PublicidadeSIDNEY: A senhora é autora do recém-lançado livro "De Milton a Millôr: a trajetória de um jornalista Ipanemense, Pasquiniano e Sem Censura" sobre Millôr Fernandes, um dos intelectuais mais importantes do Brasil recente. Qual o legado ele deixou?
ANDRÉA QUEIROZ: Millôr Fernandes produziu ao longo de seus 89 anos de vida inúmeras crônicas sobre o cotidiano da sociedade e a política; incontáveis desenhos de humor com muita ironia e deboche, o primeiro deles, inclusive, publicado no jornal quando tinha 10 anos de idade, com o qual ganhou um prêmio. Ele traduziu para o português grandes literatos como William Shakespeare, sem perder o refinamento de suas piadas recheadas de críticas sociais. Também produziu peças teatrais marcadas pelo seu estilo em que as palavras eram sempre personagens importantes das narrativas. E foi um jornalista que revolucionou a linguagem jornalística, contribuindo para transformar várias redações do país. Enfim, Millôr produziu uma marca, a sua identidade, um estilo Millôr, "um nome a zelar".
Millôr pertencia a uma escola mais crítica, de humor ácido. O que a senhora descobriu na pesquisa para escrever o livro?
Millôr aprendeu o ofício do jornalismo antes mesmo da grande modernização da imprensa nos anos 1950, em que a mesma passou a ser apresentada como imparcial e objetiva em oposição às gerações anteriores da qual o intelectual fazia parte. Como Millôr começou a trabalhar na imprensa aos 14 anos como contínuo e foi aprendendo nas redações o ofício de jornalista, ele foi atravessado pelas trajetórias de outros grandes intelectuais e humoristas que imprimiam a pessoalidade aos seus textos - era uma imprensa recheada de literatos. Essa foi a escola de Millôr no jornalismo e no humor, já que foi um autodidata e não frequentou universidade. A experiência em traduções também contribuiu para formar a verve humorística irônica e debochada. Segundo Millôr, a sua experiência nas redações e por ter se tornado órfão muito jovem lhe rendeu a ideia irônica de uma "paz da descrença".
Para muitos, o humorista faz falta. Se a senhora concorda, em que aspectos?
Millôr sempre se intrometeu nas questões cotidianas da sociedade e na política brasileira, priorizando a liberdade de expressão e a democracia. Denunciava em seus textos e desenhos de humor posições autoritárias de figuras públicas e, principalmente neste sentido, faz muita falta.
A nova geração não conhece ou não ouviu dizer do "Pasquim". Qual a importância do jornal para a imprensa e a sociedade?
O "Pasquim" surgiu em 26 de junho de 1969 como um jornal do bairro cosmopolita de Ipanema, a partir da reunião de alguns jornalistas, já consagrados, com a intenção de produzir um periódico alternativo à grande imprensa (de onde muitos foram demitidos) e ao status quo daquele contexto autoritário da ditadura civil-militar no pós-AI-5. Faziam parte do núcleo fundador: Jaguar, Ziraldo, Tarso de Castro, Claudio Ceccon, Carlos Prosperi e Millôr Fernandes, que, no início, duvidou que o jornal conseguiria se manter alternativo. Posteriormente, outros jornalistas foram aderindo ao projeto alternativo. O "Pasquim" renovou a linguagem jornalística ao retirar o copidesque das entrevistas, deixando a coloquialidade no texto, que acabou sendo absorvida nas outras sessões do periódico e pela sociedade. O jornal era contrário à suposta impessoalidade que impregnava os textos da grande imprensa e os manuais de redação. E se intrometia na cidade, nos assuntos políticos, mesmo sob censura, procurando na linguagem informal uma aproximação com o público, que acabou absorvendo e incorporando os neologismos inventados pelo "Pasquim". Com o sucesso alcançado pelo semanário, deixou de ser apenas um jornal local para se tornar um periódico nacional. Trazia um debate das questões mais urgentes que afetavam a sociedade brasileira, que passava por um longo período ditatorial. O jornal existiu até 1991, mas já apresentando outras características que o distinguiam do paradigma de alternativo, como após as eleições de 1982, quando tornou-se porta-voz do governador Leonel Brizola. Tema, inclusive, que desenvolvi na minha dissertação de mestrado em História na UFF que, em breve, também publicarei em livro aproveitando a efeméride de 60 anos da criação do "Pasquim". Aliás, foi a partir da análise deste importante semanário que resolvi pesquisar a trajetória do jornalista Millôr Fernandes, especialmente no doutorado em História Social na UFRJ.
Qual a importância da obra de Millôr para o teatro?
Millôr Fernandes foi um intelectual multifacetado que atuou em várias mídias. Apesar de se declarar como jornalista para o mundo, atuou em diferentes meios de expressão e comunicação imprimindo o seu estilo narrativo. Ele foi dramaturgo, humorista, desenhista, tradutor, literato e, no final da vida, havia se integrado ao mundo digital e mantinha uma página na internet conhecida como "saite do Millôr". Produziu algumas peças relevantes para a história do teatro brasileiro, entre elas, "Uma mulher em três atos", de 1953, uma de suas primeiras produções; "Um elefante no caos", de 1962, uma sátira sobre a política e a sociedade brasileira; "É...", de 1977, que refletia a existência humana com bastante ironia, e "Liberdade, liberdade", que escreveu com Flávio Rangel e estreou em 1965 em meio a problemas com os mecanismos de censura da ditadura civil-militar.
Se Millôr estivesse vivo, qual a sua aposta sobre conduta dele neste Brasil polarizado?
Millôr sempre priorizou a democracia e a liberdade de imprensa. Sendo assim, todos aqueles que fossem contrários a esses ideais seriam duramente criticados e expostos pelos seus textos e desenhos de humor de forma mordaz, como o fez ao longo de sua carreira no jornalismo.
ANDRÉA QUEIROZ: Millôr Fernandes produziu ao longo de seus 89 anos de vida inúmeras crônicas sobre o cotidiano da sociedade e a política; incontáveis desenhos de humor com muita ironia e deboche, o primeiro deles, inclusive, publicado no jornal quando tinha 10 anos de idade, com o qual ganhou um prêmio. Ele traduziu para o português grandes literatos como William Shakespeare, sem perder o refinamento de suas piadas recheadas de críticas sociais. Também produziu peças teatrais marcadas pelo seu estilo em que as palavras eram sempre personagens importantes das narrativas. E foi um jornalista que revolucionou a linguagem jornalística, contribuindo para transformar várias redações do país. Enfim, Millôr produziu uma marca, a sua identidade, um estilo Millôr, "um nome a zelar".
Millôr pertencia a uma escola mais crítica, de humor ácido. O que a senhora descobriu na pesquisa para escrever o livro?
Millôr aprendeu o ofício do jornalismo antes mesmo da grande modernização da imprensa nos anos 1950, em que a mesma passou a ser apresentada como imparcial e objetiva em oposição às gerações anteriores da qual o intelectual fazia parte. Como Millôr começou a trabalhar na imprensa aos 14 anos como contínuo e foi aprendendo nas redações o ofício de jornalista, ele foi atravessado pelas trajetórias de outros grandes intelectuais e humoristas que imprimiam a pessoalidade aos seus textos - era uma imprensa recheada de literatos. Essa foi a escola de Millôr no jornalismo e no humor, já que foi um autodidata e não frequentou universidade. A experiência em traduções também contribuiu para formar a verve humorística irônica e debochada. Segundo Millôr, a sua experiência nas redações e por ter se tornado órfão muito jovem lhe rendeu a ideia irônica de uma "paz da descrença".
Para muitos, o humorista faz falta. Se a senhora concorda, em que aspectos?
Millôr sempre se intrometeu nas questões cotidianas da sociedade e na política brasileira, priorizando a liberdade de expressão e a democracia. Denunciava em seus textos e desenhos de humor posições autoritárias de figuras públicas e, principalmente neste sentido, faz muita falta.
A nova geração não conhece ou não ouviu dizer do "Pasquim". Qual a importância do jornal para a imprensa e a sociedade?
O "Pasquim" surgiu em 26 de junho de 1969 como um jornal do bairro cosmopolita de Ipanema, a partir da reunião de alguns jornalistas, já consagrados, com a intenção de produzir um periódico alternativo à grande imprensa (de onde muitos foram demitidos) e ao status quo daquele contexto autoritário da ditadura civil-militar no pós-AI-5. Faziam parte do núcleo fundador: Jaguar, Ziraldo, Tarso de Castro, Claudio Ceccon, Carlos Prosperi e Millôr Fernandes, que, no início, duvidou que o jornal conseguiria se manter alternativo. Posteriormente, outros jornalistas foram aderindo ao projeto alternativo. O "Pasquim" renovou a linguagem jornalística ao retirar o copidesque das entrevistas, deixando a coloquialidade no texto, que acabou sendo absorvida nas outras sessões do periódico e pela sociedade. O jornal era contrário à suposta impessoalidade que impregnava os textos da grande imprensa e os manuais de redação. E se intrometia na cidade, nos assuntos políticos, mesmo sob censura, procurando na linguagem informal uma aproximação com o público, que acabou absorvendo e incorporando os neologismos inventados pelo "Pasquim". Com o sucesso alcançado pelo semanário, deixou de ser apenas um jornal local para se tornar um periódico nacional. Trazia um debate das questões mais urgentes que afetavam a sociedade brasileira, que passava por um longo período ditatorial. O jornal existiu até 1991, mas já apresentando outras características que o distinguiam do paradigma de alternativo, como após as eleições de 1982, quando tornou-se porta-voz do governador Leonel Brizola. Tema, inclusive, que desenvolvi na minha dissertação de mestrado em História na UFF que, em breve, também publicarei em livro aproveitando a efeméride de 60 anos da criação do "Pasquim". Aliás, foi a partir da análise deste importante semanário que resolvi pesquisar a trajetória do jornalista Millôr Fernandes, especialmente no doutorado em História Social na UFRJ.
Qual a importância da obra de Millôr para o teatro?
Millôr Fernandes foi um intelectual multifacetado que atuou em várias mídias. Apesar de se declarar como jornalista para o mundo, atuou em diferentes meios de expressão e comunicação imprimindo o seu estilo narrativo. Ele foi dramaturgo, humorista, desenhista, tradutor, literato e, no final da vida, havia se integrado ao mundo digital e mantinha uma página na internet conhecida como "saite do Millôr". Produziu algumas peças relevantes para a história do teatro brasileiro, entre elas, "Uma mulher em três atos", de 1953, uma de suas primeiras produções; "Um elefante no caos", de 1962, uma sátira sobre a política e a sociedade brasileira; "É...", de 1977, que refletia a existência humana com bastante ironia, e "Liberdade, liberdade", que escreveu com Flávio Rangel e estreou em 1965 em meio a problemas com os mecanismos de censura da ditadura civil-militar.
Se Millôr estivesse vivo, qual a sua aposta sobre conduta dele neste Brasil polarizado?
Millôr sempre priorizou a democracia e a liberdade de imprensa. Sendo assim, todos aqueles que fossem contrários a esses ideais seriam duramente criticados e expostos pelos seus textos e desenhos de humor de forma mordaz, como o fez ao longo de sua carreira no jornalismo.
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