Jornalista Rejane Guerra, ex-governador Leonel Brizola e a neta Juliana BrizolaAcervo pessoal
Publicado 06/04/2026 05:00
Rejane Guerra tem passagem pela coluna de Ricardo Boechat, no Jornal do Brasil, e assessoria de imprensa da Academia Brasileira de Letras, do cantor Martinho da Vila e do arquiteto Oscar Niemeyer. Trabalhou na Casa da Gávea, de Paulo Betti, com quem mantém projetos. Assessorou os vereadores Lysâneas Maciel (PDT) e Ricardo Maranhão (PSB), e desde 1977 acompanha a ex-deputada Juliana Brizola, com quem escreveu o livro "Leonel Brizola por ele mesmo", que será lançado no dia 8, na Livraria Travessa do Leblon.

SIDNEY: Como surgiu o projeto de escrever um livro sobre o ex-governador Leonel Brizola?

REJANE GUERRA: Tudo começou quando o conterrâneo e amigo da vida toda do ex-governador Leonel Brizola, o ex-deputado Romeu Barleze, entregou à Juliana um caderno amarelado pelo tempo onde estava datilografada a transcrição de um depoimento inédito dado por ele, em 1996, em sua cidade natal, Carazinho, no Rio Grande do Sul. A entrevista, com duração de 4 horas e 20 minutos, foi gravada em fitas rolos e cassete pela Câmara Municipal. É comovente ler e ouvir Brizola contar para historiadores e velhos amigos as lembranças de sua infância, juventude e os primeiros passos na política. Juliana me entregou este caderno no Rio e disse: "Me lembrei na hora de você. Quem me deu foi um grande amigo do "Tata" - é assim que ela chama o avô, na intimidade, por influência do idioma espanhol na vida da família por causa do exílio dele no Uruguai. Em 2016, lançamos o livro "Meu avô Leonel. Frases de Brizola" e concluímos que esse material histórico também deveria ser registrado. A intenção era publicar em 2022, ano do centenário de nascimento do Brizola, mas não conseguimos viabilizar o projeto. Só foi possível agora, em 2026, a partir do convite da editora Insular, que conseguiu restaurar as fitas após três décadas. O áudio compõe a obra através de QR Code.

No livro, Brizola conta seus primeiros passos na política. Como foi esse início?

O depoimento tem duas passagens emblemáticas sobre isso. Ele estava se preparando para o vestibular em Porto Alegre, em plena crise política. Os estudantes estavam divididos em dois grupos. A metade era do Partido Comunista, mas Brizola não conseguia conversar com eles porque sabiam tudo que recebiam da União Soviética. O outro grupo eram os "punhos de renda", os filhos dos fazendeiros, que eram muito eloquentes e tinham oratória rebuscada. Brizola fazia parte de um grupo de uns 15 estudantes que não sabiam nada e eram diferentes porque trabalhavam. Um dia, eles passavam pela rua, viram uma passeata de trabalhadores em defesa de Getúlio Vargas, se identificaram e imediatamente entraram naquela manifestação. Brizola nunca mais saiu. Ele também relembra a sua campanha de estreia para deputado estadual pelo PTB-RS, em 1946, cujo marketing criado por ele parece atual. Sem dinheiro, mandou fazer uns cartazes com o seu retratinho, do tamanho de uma folha A4, que pregava nos tapumes e escreveu: "Está bem que os nossos colegas estudantes militares tenham tudo para estudar: livros, pensão e até um pequeno ordenado. Ficamos felizes que eles tenham tudo isso, mas por que todos os jovens não têm o mesmo direito?" E não é que ele foi eleito?

O acervo da neta Juliana integra a obra com imagens e documentos. Quais as curiosidades que podemos encontrar no livro?

O acervo que Juliana reúne desde muito jovem é formado por carteiras profissionais de Brizola piloto, parlamentar, jornalista, cartas, documentos, bilhetes, fotos, além de material - incluindo os "santinhos" - de suas primeiras campanhas para governador do Estado do Rio Grande do Sul, presidente do Brasil e prefeito de Porto Alegre.

O livro narra as dificuldades que Brizola, vindo do interior, enfrentou para estudar. A sua principal bandeira política era justamente a educação. Como foi essa trajetória?

Foi uma saga. Ele nasceu na zona rural e foi alfabetizado pela mãe. Sua infância foi sem sapatos até os 6 anos. Para continuar os estudos, teve que se mudar para Passo Fundo, onde começou a trabalhar em um açougue, aos 9 anos. Ele ia distribuindo carne, levava aqueles ganchos para as entregas e invejava as crianças que estudavam no internato particular. Ele adorava olhar aqueles garotos bem abrigados, arrumadinhos, indo para o colégio. Às vezes invadia o recinto e o botavam para fora. Aos 14 anos, passou para um colégio técnico, mas não pôde fazer a matrícula porque não tinha certidão de nascimento e nem dinheiro para o enxoval. Depois, deu continuidade aos estudos em Porto Alegre, onde passou um ano vivendo nas ruas nas piores condições. Foi carregador de mala, entregador de jornal, jardineiro e ascensorista. Era estudioso e ganhava boas notas até se formar em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Talvez essa trajetória explique seu foco na educação.
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Qual foi o legado de Brizola em 60 anos de vida pública, uma das mais longas trajetórias de um político brasileiro?

Brizola foi o único político brasileiro que fez da educação uma política de Estado. Como governador no Sul, criou o projeto "Nenhuma criança sem escola no Rio Grande do Sul". Construiu 6.300 escolas. No Rio de Janeiro, ergueu 500 Cieps que foram sucateados por sucessivos governos fluminenses.

Brizola era cunhado João Goulart, irmão de sua mulher, Neusa. Essa relação familiar é abordada no livro?

Além de cunhado, João Goulart era colega de bancada, quando Brizola foi eleito deputado estadual pelo PTB-RS. Infelizmente, não teve tempo suficiente para falar sobre isso, pois como era um projeto de memória oral, o objetivo principal era que falasse, por exemplo, da infância e sua primeira visão de mundo. Ele também recordou o assassinato do pai, camponês maragato (nome dos seguidores do Partido Federalista identificados por lenço vermelho, que virou sua marca registrada). Foi em um confronto com chimangos (governistas) na Revolução de 1923, quando tinha um ano. A única referência que faz à Neusa Goulart foi ao ser perguntado sobre o seu estado civil, quando respondeu, emocionado, que tiveram 46 anos de união. A ideia era que ele fizesse outra entrevista, dando continuidade, o que não foi possível pois não gostava de dar depoimentos formais. Brizola gostava mais de falar de projetos do futuro.

Colaboração de Claudia Villas Boas
 
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