Clarice Gdalevici, gerente estadual de Hepatites Virais da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ)Divulgação Ascom SES-RJ
Publicado 20/04/2026 05:00
Clarice Gdalevici, gerente estadual de Hepatites Virais da Superintendência de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde (SES), onde trabalha desde 2009, coordena o Polo de Hepatites Virais e Elastografia do Ambulatório do Instituto de Assistência do Estado (IASERJ). Médica formada pela Universidade Federal (UFRJ), é especialista em Gastroenterologia e mestre em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado (UERJ) e membro titular da Sociedade Brasileira de Hepatologia.

SIDNEY: A saúde do fígado das cariocas preocupa a Secretaria de Estado de Saúde. Os casos de doenças hepáticas vêm aumentando?

CLARICE GDALEVICI: Sim. Em 2024, o Estado do Rio registrou 56 notificações de gestantes com hepatites virais, sendo oito do tipo B e 48 do tipo C. Em 2025, foram 67 casos: 15 do tipo B e 52 do tipo C. Por isso, a Secretaria de Estado de Saúde  ressalta a importância de intensificar os cuidados com a saúde das mulheres. Entre os cuidados, a saúde do fígado merece especial atenção para evitar doenças como as hepatites B e C - infecções muitas vezes silenciosas -, esteatose ou gordura no fígado, males que podem evoluir sem sintomas e resultar em situações perigosas como cirrose ou câncer hepático.

Quais sintomas servem de alerta?

As doenças hepáticas costumam ser silenciosas na sua fase inicial, isto é, não apresentam sintomas, como é o caso das hepatites virais, exceto nos casos agudos das hepatites A e B em adultos jovens. A esteatose hepática também não apresenta sintomas na fase inicial, mas o sobrepeso, a obesidade e o aumento da circunferência abdominal já fornecem uma suspeita de haver uma doença gordurosa do fígado. O diagnóstico das doenças hepáticas geralmente é feito por meio de exames de sangue, com dosagem de enzimas do fígado, ou de imagem, como a ultrassonografia abdominal, que detecta gordura no fígado. O ideal é fazer exames regulares para prevenção.

Qual é a melhor maneira de se prevenir das doenças hepáticas?

O ideal é manter a vacinação em dia, realizar testagem regularmente, ter alimentação equilibrada e atividade física, além de evitar ou reduzir o consumo de álcool. Logo na infância, a vacinação contra a hepatite B, já nas primeiras horas de vida, é fundamental para prevenir a transmissão da mãe ao bebê. Durante a gestação, o pré-natal inclui a testagem para hepatites B e C, permitindo intervenções que evitam a transmissão vertical. O exame é capaz de captar precocemente essas doenças. É um direito da gestante, garantido pelo SUS, que visa acompanhamento adequado da gestação. Além disso, é possível prevenir hepatite B com vacina, que deve ser aplicada na criança ainda na maternidade, e, até os seis meses, completar com mais três doses. Quem não foi vacinado nessa fase da vida, pode procurar uma unidade de saúde para atualizar a caderneta. Os adultos tomam a primeira dose, a segunda, 30 dias depois, e a terceira, após 180 dias. Na adolescência, além da consolidação de hábitos alimentares, e quando, em muitos casos, as meninas iniciam a vida sexual, é preciso estar com a vacinação completa. Uso de preservativos e educação sexual são primordiais.

Com a mudança hormonal, mulheres na menopausa devem ter uma atenção maior?

É um fato: mulheres na menopausa devem ficar mais atentas a fatores de risco contra o desenvolvimento de doença hepática gordurosa. É um momento na vida que requer cuidados, por ser um ciclo fisiológico que traz alterações hormonais com diminuição do estrogênio, que protege o fígado e outras áreas do corpo do acúmulo de gordura. É importante manter estilo de vida saudável, fazer dieta com frutas e verduras variadas, sem ultraprocessados, e controlar os carboidratos para ajudar na redução da resistência à insulina, que contribui para a esteatose hepática.

No dia a dia, quais os cuidados que devem ser tomados?
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O consumo de álcool merece destaque especial. As mulheres são biologicamente mais vulneráveis aos efeitos de bebidas alcóolicas e podem desenvolver lesões hepáticas com menor quantidade ingerida e em menos tempo quando comparadas aos homens. O álcool pode acelerar a progressão das hepatites virais. A doença hepática gordurosa cresce entre mulheres jovens, associada ao consumo de alimentos ultraprocessados, excesso de açúcar e gorduras saturadas. Sobrepeso e obesidade também são fatores de risco para a saúde do fígado. Alimentação baseada em frutas, vegetais, grãos integrais e azeite de oliva, aliada à prática de, pelo menos, 150 minutos semanais de atividade física, contribuem para a prevenção e o controle de doenças. Utilizar material perfurante, principalmente na colocação de piercings e ao fazer tatuagens em estabelecimentos não autorizados pela Vigilância Sanitária, deve ser evitado. Procedimentos estéticos e cuidar das unhas em salões de beleza sem as medidas de esterilização adequadas são fatores de risco de contaminação. Sexo seguro é outra recomendação importante para prevenção das hepatites e de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), considerando a diversidade das mulheres — heterossexuais, bissexuais e lésbicas. Relações estáveis não eliminam o risco e práticas entre mulheres também podem expor a secreções e sangue. Quando se trata da hepatite C, é importante pensar na prevenção antes e durante a gestação, usar preservativos nas relações sexuais, não compartilhar objetos perfurocortantes, além de evitar tatuagens e piercings na gravidez.

O SUS disponibiliza tratamentos?

O tratamento para as hepatites virais B e C é um direito e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No Estado do Rio, a Secretaria de Saúde disponibiliza medicamentos antivirais nas Unidades Dispensadoras de Medicamentos (UDM), que atualmente são 68 no estado, incluindo a capital. Vale ressaltar que, desde novembro de 2025, a rede estadual conta com o primeiro aparelho de elastografia hepática, que possibilita avaliar com precisão a evolução de doenças como fibrose e cirrose, sem procedimentos invasivos. O equipamento foi adquirido pelo Governo do Estado com investimento de R$ 670 mil e instalado no Instituto de Assistência aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (Iaserj) Maracanã, referência no cuidado às hepatites virais. O exame, oferecido a pacientes do Instituto e encaminhados via Sistema Estadual de Regulação (SER), é indicado a pacientes em acompanhamento clínico, orienta condutas terapêuticas e previne o avanço da doença. A tecnologia utiliza ondas sonoras para medir a rigidez e identificar gordura no fígado,além de permitir acompanhar complicações associadas às hepatites B e C com mais conforto e segurança. 
Colaboração de Claudia Villas Boas
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