Publicado 01/06/2026 05:00
Fundador da Macroplan, empresa de consultoria que atua desde 1990, o economista Claudio Porto é consultor em planejamento e gestão estratégica há mais de 50 anos. Tem várias publicações sobre o tema, inclusive em revistas internacionais especializadas. É autor do livro "A Prática da Estratégia", que será lançado no próximo dia 10, no Museu do Amanhã. A obra traz casos de transformações positivas no setor público, como a Eletrobras, e destaca a importância de ações de longo prazo em governos e empresas.
PublicidadeSIDNEY: Com as eleições chegando, qual é a sua avaliação sobre o debate de temas profundos para um projeto de nação?
CLAUDIO PORTO: Infelizmente, entre os políticos e entre as elites este tema tem sido muito pouco valorizado. A relevância de um projeto de nação amplo tem na sociedade um reconhecimento insignificante. Há alguns estudos esparsos e outros setoriais - como os relacionados às mudanças climáticas. Somos uma sociedade com uma cultura predominantemente "curtoprazistas", algo lamentável, pois estamos desperdiçando o momento atual no qual uma boa estratégia de nação, devidamente executada, viabilizaria a entrega de um país muito melhor para às próximas gerações.
De acordo com o senhor, a estratégia deve ser baseada em antecipação, escolha e ação sob condições de incerteza. Há um abismo entre o planejamento e a execução no Brasil?
É natural que exista alguma distância entre intenção e execução. Em geral, essa diferença decorre de dois fatores que muitas vezes aparecem combinados: a propensão humana de pensar de forma mais ambiciosa do que a capacidade real de entrega e a subestimação das restrições concretas de recursos, tempo, competências e coordenação. No Brasil, frequentemente essa distância assume proporções maiores. Há uma tradição de planos estratégicos excessivamente otimistas e grandiosos - sobretudo na área pública - que acabam colidindo com limitações dos meios institucionais, escassez de capacidade operacional e concorrência de múltiplas iniciativas. O resultado é um efeito corrosivo. A repetição de promessas não entregues gera descrença e desvalorização do planejamento estratégico como uma boa ferramenta de gestão.
Quais as dicas práticas aos gestores para converter intenções em resultados?
Da minha experiência, algumas recomendações práticas fazem diferença na hora de transformar intenção estratégica em resultado concreto. Primeiro: planeje a rota com equilíbrio - sem excesso de detalhamento -, prepare o time e cuide bem do "pré-jogo", criando alinhamento e clareza desde o início. Segundo: busque vitórias rápidas e entregas visíveis, priorizando os chamados "frutos mais baixos", capazes de gerar confiança e tração para o restante da jornada. Terceiro: mantenha atenção permanente ao ambiente externo, como fatores econômicos, regulatórios, tecnológicos e políticos que influenciam a execução, ainda que estejam fora do controle da organização. Quarto: valorize a cooperação, reconheça avanços e celebre acertos, pois culturas de execução forte dependem de engajamento coletivo e de incentivos. Por fim, talvez a distinção mais importante para um gestor é saber diferenciar resistência estratégica de limitação de capacidade operacional. Nem toda dificuldade de execução significa oposição à estratégia. Muitas vezes, revela falta de recursos, competências, processos ou preparo adequado para executar.
No livro, o senhor cita exemplos de planejamentos bem-sucedidos. Poderia comentar alguns?
Um dos exemplos mais impressionantes de planejamento bem-sucedido no Brasil é a transformação do cerrado em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo. Em poucas décadas, o país deixou de ser dependente da importação de alimentos, nos anos 1970, para se tornar uma potência global do agronegócio. Esse processo combinou visão estratégica de longo prazo, investimento em ciência e articulação entre Estado e iniciativa privada. O governo federal criou a Embrapa, estruturou políticas de apoio e estimulou a cooperação internacional - especialmente com os japoneses -, fundamentais no desenvolvimento de técnicas de correção do solo do cerrado. Mas o elemento decisivo foi que o Estado não tentou substituir o setor produtivo: quem investiu, produziu, assumiu riscos e expandiu a atividade foram, majoritariamente, empresários e produtores brasileiros. É um caso emblemático de coordenação estratégica entre pesquisa, política pública e capacidade empreendedora. Outro exemplo marcante foi o Plano Real, que criou as bases institucionais para uma economia mais previsível e funcional. A consolidação posterior do chamado "tripé macroeconômico" - câmbio flutuante, disciplina fiscal e metas de inflação - ajudou a dar consistência e credibilidade ao processo. O resultado mais profundo talvez tenha sido cultural: os brasileiros passaram a confiar na própria moeda. Hoje, calculamos preços, salários, contratos e investimentos em reais, algo que parece trivial, mas está longe de ser comum em diversas economias da América Latina que viveram longos períodos de instabilidade e onde boa parte das transações e referências de valor continuam dolarizadas.
Muita polêmica envolve o Bolsa Família. O que é verdade e o que é mentira sobre a eficácia deste programa de inclusão social?
O Bolsa Família é, sem dúvida, um dos programas de proteção e inclusão social mais eficazes já implementados no Brasil. Sua concepção original foi muito eficaz ao combinar transferência de renda com mecanismos de estímulo à permanência escolar e ao acompanhamento de saúde das famílias mais vulneráveis. O debate atual, porém, está menos relacionado à existência do programa e mais ao seu desenho. Alguns economistas, como Daniel Duque e José Márcio Camargo, argumentam que a ampliação recente dos valores pagos - consolidada nos últimos governos - pode reduzir os estímulos para que as famílias queiram sair do Bolsa Família. A preocupação é que o programa, ao invés de funcionar como uma rede temporária de proteção e mobilidade social, acabe criando uma dependência permanente em parte dos beneficiários. O desafio está em aperfeiçoar o modelo para fortalecer os incentivos à autonomia econômica, por exemplo, com mecanismos graduais de redução do benefício conforme a renda do trabalho aumente.
Com tantos problemas no Rio de Janeiro, quais são as prioridades estratégicas para o estado?
O Rio de Janeiro precisa estruturar suas prioridades a partir de uma agenda de reconstrução da confiança institucional e retomada da capacidade de crescimento. A primeira delas é a segurança - tanto pública quanto jurídica. Sem redução consistente da violência, fortalecimento das instituições e previsibilidade regulatória, torna-se difícil atrair investimentos, estimular negócios e melhorar a qualidade de vida da população. A segunda prioridade é o equilíbrio fiscal de longo prazo e criar condições para que o Rio volte a investir com estabilidade e previsibilidade. Em terceiro lugar, é indispensável elevar a qualidade das redes públicas de saúde e educação. O desafio não é apenas ampliar gastos, mas melhorar gestão, eficiência e capacidade de entrega. O Rio também precisa valorizar de forma mais estratégica suas vocações econômicas naturais. Poucos lugares do mundo combinam de maneira tão singular ativos ligados ao turismo, à cultura, ao entretenimento, à economia criativa e aos grandes eventos. Transformar essas vantagens comparativas em uma política consistente de desenvolvimento exige planejamento, infraestrutura, segurança e articulação com o setor privado. Por fim, o estado precisa aprofundar parcerias robustas e orientadas para resultados com os municípios. Sem coordenação metropolitana e cooperação efetiva entre diferentes níveis de governo, tende a prevalecer a fragmentação de esforços e o desperdício de recursos.
CLAUDIO PORTO: Infelizmente, entre os políticos e entre as elites este tema tem sido muito pouco valorizado. A relevância de um projeto de nação amplo tem na sociedade um reconhecimento insignificante. Há alguns estudos esparsos e outros setoriais - como os relacionados às mudanças climáticas. Somos uma sociedade com uma cultura predominantemente "curtoprazistas", algo lamentável, pois estamos desperdiçando o momento atual no qual uma boa estratégia de nação, devidamente executada, viabilizaria a entrega de um país muito melhor para às próximas gerações.
De acordo com o senhor, a estratégia deve ser baseada em antecipação, escolha e ação sob condições de incerteza. Há um abismo entre o planejamento e a execução no Brasil?
É natural que exista alguma distância entre intenção e execução. Em geral, essa diferença decorre de dois fatores que muitas vezes aparecem combinados: a propensão humana de pensar de forma mais ambiciosa do que a capacidade real de entrega e a subestimação das restrições concretas de recursos, tempo, competências e coordenação. No Brasil, frequentemente essa distância assume proporções maiores. Há uma tradição de planos estratégicos excessivamente otimistas e grandiosos - sobretudo na área pública - que acabam colidindo com limitações dos meios institucionais, escassez de capacidade operacional e concorrência de múltiplas iniciativas. O resultado é um efeito corrosivo. A repetição de promessas não entregues gera descrença e desvalorização do planejamento estratégico como uma boa ferramenta de gestão.
Quais as dicas práticas aos gestores para converter intenções em resultados?
Da minha experiência, algumas recomendações práticas fazem diferença na hora de transformar intenção estratégica em resultado concreto. Primeiro: planeje a rota com equilíbrio - sem excesso de detalhamento -, prepare o time e cuide bem do "pré-jogo", criando alinhamento e clareza desde o início. Segundo: busque vitórias rápidas e entregas visíveis, priorizando os chamados "frutos mais baixos", capazes de gerar confiança e tração para o restante da jornada. Terceiro: mantenha atenção permanente ao ambiente externo, como fatores econômicos, regulatórios, tecnológicos e políticos que influenciam a execução, ainda que estejam fora do controle da organização. Quarto: valorize a cooperação, reconheça avanços e celebre acertos, pois culturas de execução forte dependem de engajamento coletivo e de incentivos. Por fim, talvez a distinção mais importante para um gestor é saber diferenciar resistência estratégica de limitação de capacidade operacional. Nem toda dificuldade de execução significa oposição à estratégia. Muitas vezes, revela falta de recursos, competências, processos ou preparo adequado para executar.
No livro, o senhor cita exemplos de planejamentos bem-sucedidos. Poderia comentar alguns?
Um dos exemplos mais impressionantes de planejamento bem-sucedido no Brasil é a transformação do cerrado em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo. Em poucas décadas, o país deixou de ser dependente da importação de alimentos, nos anos 1970, para se tornar uma potência global do agronegócio. Esse processo combinou visão estratégica de longo prazo, investimento em ciência e articulação entre Estado e iniciativa privada. O governo federal criou a Embrapa, estruturou políticas de apoio e estimulou a cooperação internacional - especialmente com os japoneses -, fundamentais no desenvolvimento de técnicas de correção do solo do cerrado. Mas o elemento decisivo foi que o Estado não tentou substituir o setor produtivo: quem investiu, produziu, assumiu riscos e expandiu a atividade foram, majoritariamente, empresários e produtores brasileiros. É um caso emblemático de coordenação estratégica entre pesquisa, política pública e capacidade empreendedora. Outro exemplo marcante foi o Plano Real, que criou as bases institucionais para uma economia mais previsível e funcional. A consolidação posterior do chamado "tripé macroeconômico" - câmbio flutuante, disciplina fiscal e metas de inflação - ajudou a dar consistência e credibilidade ao processo. O resultado mais profundo talvez tenha sido cultural: os brasileiros passaram a confiar na própria moeda. Hoje, calculamos preços, salários, contratos e investimentos em reais, algo que parece trivial, mas está longe de ser comum em diversas economias da América Latina que viveram longos períodos de instabilidade e onde boa parte das transações e referências de valor continuam dolarizadas.
Muita polêmica envolve o Bolsa Família. O que é verdade e o que é mentira sobre a eficácia deste programa de inclusão social?
O Bolsa Família é, sem dúvida, um dos programas de proteção e inclusão social mais eficazes já implementados no Brasil. Sua concepção original foi muito eficaz ao combinar transferência de renda com mecanismos de estímulo à permanência escolar e ao acompanhamento de saúde das famílias mais vulneráveis. O debate atual, porém, está menos relacionado à existência do programa e mais ao seu desenho. Alguns economistas, como Daniel Duque e José Márcio Camargo, argumentam que a ampliação recente dos valores pagos - consolidada nos últimos governos - pode reduzir os estímulos para que as famílias queiram sair do Bolsa Família. A preocupação é que o programa, ao invés de funcionar como uma rede temporária de proteção e mobilidade social, acabe criando uma dependência permanente em parte dos beneficiários. O desafio está em aperfeiçoar o modelo para fortalecer os incentivos à autonomia econômica, por exemplo, com mecanismos graduais de redução do benefício conforme a renda do trabalho aumente.
Com tantos problemas no Rio de Janeiro, quais são as prioridades estratégicas para o estado?
O Rio de Janeiro precisa estruturar suas prioridades a partir de uma agenda de reconstrução da confiança institucional e retomada da capacidade de crescimento. A primeira delas é a segurança - tanto pública quanto jurídica. Sem redução consistente da violência, fortalecimento das instituições e previsibilidade regulatória, torna-se difícil atrair investimentos, estimular negócios e melhorar a qualidade de vida da população. A segunda prioridade é o equilíbrio fiscal de longo prazo e criar condições para que o Rio volte a investir com estabilidade e previsibilidade. Em terceiro lugar, é indispensável elevar a qualidade das redes públicas de saúde e educação. O desafio não é apenas ampliar gastos, mas melhorar gestão, eficiência e capacidade de entrega. O Rio também precisa valorizar de forma mais estratégica suas vocações econômicas naturais. Poucos lugares do mundo combinam de maneira tão singular ativos ligados ao turismo, à cultura, ao entretenimento, à economia criativa e aos grandes eventos. Transformar essas vantagens comparativas em uma política consistente de desenvolvimento exige planejamento, infraestrutura, segurança e articulação com o setor privado. Por fim, o estado precisa aprofundar parcerias robustas e orientadas para resultados com os municípios. Sem coordenação metropolitana e cooperação efetiva entre diferentes níveis de governo, tende a prevalecer a fragmentação de esforços e o desperdício de recursos.
Colaboração de Claudia Villas Boas
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.