Publicado 22/06/2026 05:00
Márcia Noleto é psicóloga, pesquisadora, palestrante, professora e doutoranda em filosofia. Fundadora da C-FEN (Clínica e Cursos em Fenomenologia, corrente filosófica que estuda o mundo como é vivido e experimentado na nossa consciência), criou o grupo "Mães Semnome", em 2011, após perder a filha Mariana, de 20 anos, em um acidente de helicóptero. Graduada em Jornalismo e em História, participou da obra coletiva "Revés de um Parto: Luto Materno" (2022), é coautora de "Lutos" (2024) e autora de "Luto Materno" (2025).
SIDNEY: O luto é um processo individual, mas baseada na sua experiência, quais são os seus conselhos para ressignificar a vida diante da perda de um filho?
MARCIA NOLETO: Justamente por ser um processo individual, onde cada pessoa processa a dor da perda de forma singular, não dou conselhos aos meus pacientes. Tento entender, pacientemente, quais são as dificuldades e a intensidade da dor vivida por cada um deles. De forma geral, os pais chegam desesperados, há um esvaziamento de sentido e pouca perspectiva de futuro. Tento explicar que essa potência do sofrer vai diminuindo com o tempo, muito embora ela nunca se apague totalmente. Aprende-se a conviver com a saudade sem se esquecer da pessoa amada que partiu. Essa informação ajuda. Mas, nem todos a apreendem da mesma forma. A rearticulação com a vida acontece paulatinamente e no tempo de cada um.
O seu mais recente livro propõe um diálogo entre a Psicologia e o Direito. Como essas duas áreas podem acolher em conjunto mães e pais enlutados?
Esse projeto é muito potente. Reuni jornalistas, psicólogas, advogadas e uma assistente social. Fizemos entrevistas com as mães que passaram por situações de violência urbana, de gênero, obstétrica, suicídio, tragédias anunciadas (como o caso de Brumadinho), feminicídio e mães atípicas. Após entrevistarmos essas mulheres, os jornalistas contaram as histórias, as psicólogas fizeram uma análise a partir da ótica da Psicologia e as advogadas elencaram as leis que já existem para protegê-las e, sobretudo, quais os projetos de lei que ainda podem ser pensados sobre cada um desses temas. A junção das duas ciências podem pensar o todo: o acolhimento no momento da dor e a justiça em um país de tantas violências.
Na dinâmica de grupo, a dor é compartilhada, mas como evitar que seja um fator de sobrecarga emocional ainda maior?
Trabalhamos com dinâmicas de grupos inéditas criadas especialmente para essas mães. O trabalho é fruto de muita pesquisa e inúmeras horas de escuta específica sobre o tema do luto. Evitamos a sobrecarga emocional com trabalhos em duplas, com música, dança circular, muitos abraços e uma enorme vontade de proporcionar ao grupo, ao mesmo tempo, momentos alegres e consistentes.
O grupo pleiteia a cessão de um imóvel público da Prefeitura para ampliar os atendimentos. Quais são os entraves burocráticos para viabilizar a parceria?
O maior entrave é a falta de vontade dos órgãos responsáveis em investir em um projeto para mulheres enlutadas. Para que pensar nessa população? Já estive com secretários de estado, deputados, vereadores, presidentes de empresas. Nunca ninguém se interessou.
O grupo tem um projeto com o Botafogo de Futebol e Regatas. Como nasceu a ideia de fazer essa parceria e quais os resultados alcançados?
Começamos em maio. Inicialmente, a ideia é fazer uma parceria com o clube para atender demandas de temas em comum com o Botafogo Mulher, um movimento criado pela empresária Michele Pin, botafoguense e esposa do presidente do Botafogo, João Paulo Magalhães Lins. Além disso, utilizar os espaços do clube para encontros presenciais/dinâmicas do grupo Mães. Estamos aguardando uma reunião com a Michele para conversar sobre os próximos passos da parceria.
Este ano, o "Mães Semnome" completa 15 anos de história. O grupo recebeu esse nome porque a língua portuguesa não possui uma palavra para descrever a mãe que perdeu um filho. Qual o legado dessa trajetória?
Já atendemos 7 mil mães, mas o grande legado é o fato de sermos uma rede informal de psicólogas que sobrevive sem nenhum tipo de apoio institucional. Conseguimos dar assistência, com profissionalismo e acolhimento, a inúmeras mulheres que passam por momentos terríveis em suas vidas e, muitas vezes, só conseguiram apoio conosco.
PublicidadeSIDNEY: O luto é um processo individual, mas baseada na sua experiência, quais são os seus conselhos para ressignificar a vida diante da perda de um filho?
MARCIA NOLETO: Justamente por ser um processo individual, onde cada pessoa processa a dor da perda de forma singular, não dou conselhos aos meus pacientes. Tento entender, pacientemente, quais são as dificuldades e a intensidade da dor vivida por cada um deles. De forma geral, os pais chegam desesperados, há um esvaziamento de sentido e pouca perspectiva de futuro. Tento explicar que essa potência do sofrer vai diminuindo com o tempo, muito embora ela nunca se apague totalmente. Aprende-se a conviver com a saudade sem se esquecer da pessoa amada que partiu. Essa informação ajuda. Mas, nem todos a apreendem da mesma forma. A rearticulação com a vida acontece paulatinamente e no tempo de cada um.
O seu mais recente livro propõe um diálogo entre a Psicologia e o Direito. Como essas duas áreas podem acolher em conjunto mães e pais enlutados?
Esse projeto é muito potente. Reuni jornalistas, psicólogas, advogadas e uma assistente social. Fizemos entrevistas com as mães que passaram por situações de violência urbana, de gênero, obstétrica, suicídio, tragédias anunciadas (como o caso de Brumadinho), feminicídio e mães atípicas. Após entrevistarmos essas mulheres, os jornalistas contaram as histórias, as psicólogas fizeram uma análise a partir da ótica da Psicologia e as advogadas elencaram as leis que já existem para protegê-las e, sobretudo, quais os projetos de lei que ainda podem ser pensados sobre cada um desses temas. A junção das duas ciências podem pensar o todo: o acolhimento no momento da dor e a justiça em um país de tantas violências.
Na dinâmica de grupo, a dor é compartilhada, mas como evitar que seja um fator de sobrecarga emocional ainda maior?
Trabalhamos com dinâmicas de grupos inéditas criadas especialmente para essas mães. O trabalho é fruto de muita pesquisa e inúmeras horas de escuta específica sobre o tema do luto. Evitamos a sobrecarga emocional com trabalhos em duplas, com música, dança circular, muitos abraços e uma enorme vontade de proporcionar ao grupo, ao mesmo tempo, momentos alegres e consistentes.
O grupo pleiteia a cessão de um imóvel público da Prefeitura para ampliar os atendimentos. Quais são os entraves burocráticos para viabilizar a parceria?
O maior entrave é a falta de vontade dos órgãos responsáveis em investir em um projeto para mulheres enlutadas. Para que pensar nessa população? Já estive com secretários de estado, deputados, vereadores, presidentes de empresas. Nunca ninguém se interessou.
O grupo tem um projeto com o Botafogo de Futebol e Regatas. Como nasceu a ideia de fazer essa parceria e quais os resultados alcançados?
Começamos em maio. Inicialmente, a ideia é fazer uma parceria com o clube para atender demandas de temas em comum com o Botafogo Mulher, um movimento criado pela empresária Michele Pin, botafoguense e esposa do presidente do Botafogo, João Paulo Magalhães Lins. Além disso, utilizar os espaços do clube para encontros presenciais/dinâmicas do grupo Mães. Estamos aguardando uma reunião com a Michele para conversar sobre os próximos passos da parceria.
Este ano, o "Mães Semnome" completa 15 anos de história. O grupo recebeu esse nome porque a língua portuguesa não possui uma palavra para descrever a mãe que perdeu um filho. Qual o legado dessa trajetória?
Já atendemos 7 mil mães, mas o grande legado é o fato de sermos uma rede informal de psicólogas que sobrevive sem nenhum tipo de apoio institucional. Conseguimos dar assistência, com profissionalismo e acolhimento, a inúmeras mulheres que passam por momentos terríveis em suas vidas e, muitas vezes, só conseguiram apoio conosco.
Colaboração de Claudia Villas Boas
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.