Marcelo Gleiser e Nilton Bonder estarão no Rio Innovation Week, no CentroEli Burakian
Publicado 10/08/2026 05:00
Marcelo Gleiser é professor de Física e Astronomia e diretor na Dartmouth College, nos Estados Unidos. Com doutorado pelo King's College de Londres, escreveu artigos no "New York Times". Detentor do Presidential Faculty Fellows Award, é conselheiro da Sociedade Americana de Física, autor de 16 livros traduzidos em 18 línguas e recebeu três prêmios Jabuti. Em 2019, foi o primeiro latino-americano a vencer o Prêmio Templeton, pela contribuição entre ciência e espiritualidade. Foi curador de Ciência e Tecnologia da mais recente edição do Rio Innovation Week, conferência global de tecnologia e inovação.

SIDNEY: Em uma era de inteligência artificial e exploração espacial, por que o questionamento sobre a existência de Deus e o papel da espiritualidade continuam tão vivos?

MARCELO GLEISER: A ideia de que tecnologias de ponta vão substituir a nossa necessidade de questionamentos espirituais é vendida e aparece em muitos lugares, mas eu acho extremamente furada. Se você achar que um algoritmo numa máquina ou a busca por outro planeta são só racionais e tecnológicas, está deixando de lado todo um subtexto teológico que aparece nas duas coisas: a inteligência artificial, como oráculo dos tempos modernos, e a exploração espacial. A ideia de que vamos encontrar um paraíso em outro lugar repete uma série de valores que já vimos na exploração colonialista. A ideia de que o paraíso não é aqui, mas em outro lugar, é extremamente perigosa. A ideia de que a felicidade não é construída com outros seres humanos, mas através de relacionamento com uma máquina, também é extremamente perigosa. Eu fico feliz que a espiritualidade e a questão da fé num Deus - ou seja lá qual Deus - continua presente para muita gente, porque nós seres humanos precisamos disso.

Em que pontos física e religião convergem na compreensão da nossa existência?

Física e religião são muito diferentes. A Física é uma ciência exata; lida com a nossa capacidade de compreender como a natureza funciona de forma metodológica, usa a matemática como guia e, principalmente, a validação empírica, quando uma hipótese só será aceita pela comunidade se for validada através de observações ou experimentos. A religião não tem nada disso, não precisa ter validação empírica. A fé é justamente o crer sem a necessidade da prova, enquanto que na Física você não crê, você prova. O que elas têm em comum? Ambas respondem a anseios humanos que têm a ver com o nosso questionamento eterno de sabermos quem somos, de onde viemos, por que estamos aqui, que universo é este em que vivemos. Neste sentido, a Cosmologia e a Biologia são ciências que se aproximam desse questionamento mais religioso de entender quem nós somos neste universo tão misterioso.
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A Ciência consegue responder todas as perguntas da humanidade?

A Ciência nunca vai poder responder todas as perguntas por um motivo muito simples: não temos a menor ideia de quais são todas as perguntas da humanidade, nem as novas perguntas que faremos amanhã, ou daqui a um mês, um ano, dez anos. À medida que a gente aprende mais sobre o mundo e sobre quem somos, novas perguntas vão surgindo que não podiam ter sido antecipadas antes. Portanto, a ideia de que a Ciência pode ter todas as respostas é completamente furada, porque, na verdade, nunca vamos saber todas as perguntas para poder respondê-las. Isso é muito bom, porque significa que vai ter sempre alguma coisa nova para a gente aprender sobre o mundo.

Quais valores éticos da Ciência deveriam interferir no desenvolvimento da humanidade?

Essa é uma pergunta extremamente complicada, porque os valores éticos da Ciência são coisas que não são fundamentalmente desenvolvidas. Quem é ética não é necessariamente a Ciência, é a aplicação de idéias científicas para outros seres humanos e para a natureza. Então, a ética vem de uma moralidade humana e não necessariamente da Ciência. Existem, obviamente, conceitos fundamentais. Por exemplo, seria ideal não usar a Ciência para danos à humanidade ou ao planeta. Mas não é isso que acontece porque as tecnologias são utilizadas por grupos que têm interesses que não necessariamente são aqueles que protegem os seres humanos. O problema é como desenvolver uma ética de aplicações tecnológicas que protejam o planeta contra a destruição de certas tecnologias. Um exemplo é a bomba atômica. Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas diziam que estavam criando a bomba. E o que aconteceu? Cientistas se uniram, inventaram a bomba atômica, mas a decisão do uso ou não na população civil não foi dos cientistas, foi dos militares e dos políticos. Então é para lá que vai a questão da ética, né? Como podemos construir salvaguardas que possam nos proteger contra a aplicação destruidora das tecnologias?

A Ciência consegue comprovar o que a espiritualidade não explica?

Eu acho muito perigoso contrapor a Ciência com a espiritualidade, porque, para mim, a atividade científica tem um nível e uma dimensão espiritual muito importante. É uma questão totalmente pessoal e subjetiva. Tem cientistas que são totalmente racionais, ateus que não querem falar de espiritualidade de jeito algum. Outros falam e aceitam. Alguns são até religiosos e continuam sendo cientistas muito sérios. A ideia de que a Ciência pode comprovar o que a espiritualidade não explica é extremamente vaga. O que quer dizer isso? A existência de Deus, anjos ou fadas? Acho que não. A Ciência não tem esse papel, mas sim monitorar,  explicar e mapear a natureza, além de pesquisar através dos nossos instrumentos. As duas têm papel muito diferente na dimensão humana e não é uma que vai fazer o papel da outra ou vai tentar explicar o que a outra não explica. Muito pelo contrário. As duas representam o maravilhamento que temos quando a gente lida com uma natureza que é muito mais rica e complexa do que podemos entender.

Como a incerteza do futuro pode ser ferramenta para a Ciência?

A incerteza do futuro sempre existirá, nunca saberemos o que vai acontecer, quais tecnologias serão inventadas e guerras serão lutadas. O que podemos fazer é se situar dentro da Ciência que temos e da que podemos criar para melhorar a qualidade de vida das pessoas e as condições gerais do planeta. Existem mil polarizações políticas, morais e religiosas. Não podemos viver sem o ar puro, sem a água pura, sem uma ecologia estabilizada enquanto espécie, nem com toda a tecnologia existente. Então, precisamos usar a Ciência para proteger o que temos de mais importante: o nosso planeta. A incerteza do futuro que estamos experimentando pode ser ferramenta de uma Ciência preocupada com a sobrevivência humana, não só com a ausência de guerras, paz, etc, mas com a sobrevivência planetária. Se existe uma insegurança, é relacionada com o aquecimento global e a escassez de recursos. Essa incerteza pode influenciar a Ciência a criar novas tecnologias para assegurar um futuro próspero para todos que dividem este planeta.
Colaboração de Claudia Villas Boas
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