Rabino Nilton BonderLeo Martins
Publicado 17/08/2026 05:00 | Atualizado 17/08/2026 06:15
Nilton Bonder é rabino da Congregação Judaica do Brasil e autor de mais de 30 livros publicados em 12 países. Um deles, "A Alma Imoral", foi adaptado para o teatro e tornou-se uma das peças mais longevas do país. Outras obras foram "O Próximo Passo" e a série "Cozinha Sagrada" que fundem mística judaica, filosofia e psicanálise. Em outubro lançará "Segunda Mordida — Eros Artificial" e o "Fim da Morte". Recentemente, participou do Rio Innovation Week com o físico Marcelo Gleiser para debater a existência de Deus.

SIDNEY: Em uma era de inteligência artificial e exploração espacial, por que o questionamento sobre a existência de Deus e o papel da espiritualidade continuam tão vivos?

NILTON BONDER: No Rio Innovation Week, falamos sobre o significado do livre-arbítrio, o avanço evolutivo humano que permitiu a consciência e a percepção da livre escolha. Independentemente do quão autônomos somos em relação aos nossos desejos e tendências, o ser humano passou a se responsabilizar por seus atos. Esse movimento produziu a presença de um Deus que nos observa e faz alguma forma de contabilidade de nossas ações. No meu novo livro, "Segunda Mordida", que sairá em outubro, escrevo sobre uma segunda "singularidade" que estamos iniciando. A primeira, foi a integração de partes imateriais em nossa percepção de corpo, onde a minha mente, ou quase a minha alma, passou a fazer parte do sujeito que identifico em mim. Estamos avançando nesse processo, e o ser humano do futuro será menos orgânico e ainda mais imaterial. A inteligência artificial e os avanços tecnológicos nos encaminham para este novo corpo. E se o primeiro estágio trouxe a noção de um Deus presente que nos observa e de uma relação de propósito com nossa existência, isso apenas se acentuará.

Em que pontos física e religião convergem na compreensão da nossa existência?

A física observa e avalia o mundo externo com instrumentos e padrões próprios para olhar para além de si. Tudo que existe do lado externo é de difícil apreensão porque diz respeito a coisas e naturezas que não somos. Daí a necessidade de objetividade e de procedimentos que excluam ilusões, equívocos e tendências. A dimensão espiritual é uma leitura da realidade de dentro do ser humano, de sua subjetividade. O instrumental não é para a verificação da factualidade, mas para a experiência. Nós somos parte do Universo e também o Universo. As profundezas humanas e o Cosmos têm paralelos. É claro que a subjetividade humana, enquanto fenômeno, parece bater de frente com a objetividade científica. No entanto, estes dois campos, diametralmente opostos, preservam uma relação com os mistérios e as perguntas que oferecem diálogo. Isso sem levar em conta que as descobertas quânticas recentes trouxeram conexões impensáveis entre a subjetividade das medições e a presença na realidade.

A espiritualidade consegue responder todas as perguntas da humanidade?

Nem responder e nem sequer formular todas as perguntas. Porém, é um campo que elenca intuições, sensações e percepções humanas comuns que nos permitem conhecer a nós mesmos e nossa experiência enquanto seres vivos. Esses dados podem não ter valor objetivo para as relações e vínculos materiais, mas constituem um registro imaterial de nossa interação com a vida. Hoje, podemos entender que existem várias formas de inteligência. Há inteligência emocional e social, e também uma inteligência existencial que não busca entender o Universo distante ou sua estrutura básica, mas sim os vínculos que a existência estabelece com este mundo e a identificação de valores e sentidos.

Diante das novas tecnologias, como os valores espirituais acompanham o desenvolvimento da humanidade?

O mundo dos últimos quatro mil anos é um mundo em que a consciência está presente não só na experiência humana, mas também na cultura e na sociedade. A tecnologia sempre esteve presente e avançando porque o ser humano é um ser artificial que se intromete por livre-arbítrio e escolhas, impactando o mundo. O que estamos experimentando é uma aceleração vertiginosa deste processo que se iniciou lá atrás com o nosso despertar e a construção simbólica de um sujeito, de uma persona que nos habita. Algo tão simples como "não matarás" não é trivial, porque não é o matar inconsciente ou instintivo; é a escolha deliberada e desperta desta possibilidade. As tradições espirituais acompanham o ser humano em sua jornada e lhe oferecem uma plataforma para pensar as transformações do mundo a partir de uma perspectiva interna. Ela organiza a artificialidade humana, uma novidade no Cosmos, e tenta harmonizar a evolução interna com a externa. Esse processo é repleto de tensões e imperfeições, mas caminha lado a lado com a jornada pioneira de nossa humanidade.

A espiritualidade consegue explicar o que a Ciência não consegue comprovar?

A Ciência já responde por uma infinidade de "comos", "quandos", "quantos" e "para ques", mas nunca conseguiu formular uma única resposta quanto ao "por que". Sua observação é causal e não proposital. A espiritualidade, por sua vez, só tem legitimidade no que diz respeito aos "porques", mas não responde na linguagem da ciência, e sim em linguagem humana para se comunicar com a bolha da experiência humana particular. Talvez os "porques" nunca tenham valor prático para estabelecer relações com essas outras respostas da Ciência e não consigam produzir resultados ou achados no mundo objetivo. Mas, no subjetivo, são fundamentais, e as pessoas, por meio de outras inteligências, percebem isso e as buscam.
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Colaboração de Claudia Villas Boas
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