Publicado 31/08/2026 05:00
Fátima Antunes é psicóloga, ergonomista, arte-educadora, mestre em Psicologia Social e doutoranda em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ. Especialista em estresse laboral e saúde mental no trabalho, pesquisa os impactos dos fatores psicossociais sobre a qualidade de vida e o desempenho profissional. É professora universitária, pesquisadora e autora dos livros "Estresse em Advogados" e "Advogar sem Adoecer", nos quais aborda estratégias para prevenir estresse e burnout e a promoção do bem-estar no trabalho.
SIDNEY: Quais são os primeiros sinais de alerta de que a ansiedade ou a tristeza evoluíram para um quadro clínico de burnout?
FÁTIMA ANTUNES: Os primeiros sinais costumam aparecer por meio de mudanças de comportamento. A pessoa passa a perder a paciência com facilidade, torna-se mais irritada, começa a se cobrar excessivamente e, muitas vezes, se afasta do convívio social. Também é comum perder o interesse por atividades que antes davam prazer, sentir um cansaço constante e ter dificuldade para descansar, mesmo após períodos de repouso. No caso do burnout, esse esgotamento está diretamente relacionado ao trabalho. O profissional acorda cansado, perde a motivação, sente que não consegue mais produzir como antes e passa a enxergar o ambiente profissional como uma fonte permanente de sofrimento. Quanto mais cedo esses sinais forem percebidos, maiores são as chances de evitar um adoecimento mais grave.
Como as atividades físicas atuam quimicamente no cérebro para ajudar na prevenção e no tratamento dos transtornos mentais?
A prática regular de atividade física estimula a liberação de substâncias como endorfina, serotonina e dopamina, neurotransmissores que promovem sensação de bem-estar, prazer e equilíbrio emocional. Isso contribui para reduzir sintomas de ansiedade, estresse e depressão. Mas o cuidado com a saúde mental vai além do exercício físico. A arte também exerce um papel importante. Aprender um instrumento musical, cantar, dançar, pintar ou simplesmente ouvir música são experiências capazes de despertar emoções positivas, aliviar tensões e ampliar a qualidade de vida. O cérebro precisa desses momentos de prazer para funcionar de maneira saudável.
PublicidadeSIDNEY: Quais são os primeiros sinais de alerta de que a ansiedade ou a tristeza evoluíram para um quadro clínico de burnout?
FÁTIMA ANTUNES: Os primeiros sinais costumam aparecer por meio de mudanças de comportamento. A pessoa passa a perder a paciência com facilidade, torna-se mais irritada, começa a se cobrar excessivamente e, muitas vezes, se afasta do convívio social. Também é comum perder o interesse por atividades que antes davam prazer, sentir um cansaço constante e ter dificuldade para descansar, mesmo após períodos de repouso. No caso do burnout, esse esgotamento está diretamente relacionado ao trabalho. O profissional acorda cansado, perde a motivação, sente que não consegue mais produzir como antes e passa a enxergar o ambiente profissional como uma fonte permanente de sofrimento. Quanto mais cedo esses sinais forem percebidos, maiores são as chances de evitar um adoecimento mais grave.
Como as atividades físicas atuam quimicamente no cérebro para ajudar na prevenção e no tratamento dos transtornos mentais?
A prática regular de atividade física estimula a liberação de substâncias como endorfina, serotonina e dopamina, neurotransmissores que promovem sensação de bem-estar, prazer e equilíbrio emocional. Isso contribui para reduzir sintomas de ansiedade, estresse e depressão. Mas o cuidado com a saúde mental vai além do exercício físico. A arte também exerce um papel importante. Aprender um instrumento musical, cantar, dançar, pintar ou simplesmente ouvir música são experiências capazes de despertar emoções positivas, aliviar tensões e ampliar a qualidade de vida. O cérebro precisa desses momentos de prazer para funcionar de maneira saudável.
O que uma pessoa deve — e o que nunca deve — dizer para ajudar alguém que enfrenta fragilidade psicológica?
Não existe uma fórmula única, porque cada pessoa tem uma história, uma realidade, uma cultura e uma forma diferente de lidar com o sofrimento. O mais importante é acolher sem julgamento e demonstrar disponibilidade para ouvir. Expressões como "Isso é falta de força de vontade", "Você precisa reagir" ou "Tem gente em situação pior" costumam aumentar o sofrimento de quem já está fragilizado. Em vez disso, vale dizer: "Estou aqui para você", "Você não precisa enfrentar isso sozinho" ou "Vamos procurar ajuda juntos". Escutar com respeito, muitas vezes, já representa um grande apoio.
O que muda para as empresas com a inclusão pelo Ministério do Trabalho dos riscos psicossociais na Norma Regulamentadora (NR-1), que estabelece as regras gerais de Segurança e Saúde?
A principal mudança é que a saúde mental deixa de ser apenas uma preocupação ética e passa a integrar, de forma mais clara, a gestão dos riscos ocupacionais. As empresas precisarão identificar fatores do ambiente de trabalho que possam contribuir para o adoecimento psicológico, como excesso de cobrança, metas abusivas, conflitos constantes, assédios e jornadas excessivas. Essa mudança não deve ser vista apenas como obrigação legal. A experiência internacional mostra que investir em saúde mental melhora o clima organizacional, reduz o absenteísmo, aumenta o engajamento das equipes e amplia os resultados da empresa. Cuidar das pessoas também é uma estratégia de gestão.
A senhora escreveu os livros "Estresse em Advogados" e "Advogar sem Adoecer". Por que a rotina da advocacia apresenta índices tão elevados de estresse e burnout?
A advocacia reúne vários fatores que favorecem o estresse crônico. O advogado trabalha sob prazos rigorosos, administra grande volume de processos e, ao mesmo tempo, carrega uma responsabilidade que muitas vezes extrapola sua capacidade de controle. O cliente costuma atribuir ao advogado toda a responsabilidade pelo resultado da causa, embora a decisão final dependa do Judiciário. Além disso, em muitos casos, a remuneração do profissional está diretamente ligada ao sucesso da demanda. Essa combinação de pressão externa, autocobrança, insegurança financeira e dificuldade para desligar do trabalho faz com que muitos advogados permaneçam mentalmente conectados aos processos durante o dia, à noite e até nos fins de semana. É exatamente esse cenário que favorece o desenvolvimento do estresse crônico e do burnout.
Que hábito simples um profissional submetido a muita pressão pode adotar para proteger a saúde mental?
O primeiro passo é aprender a estabelecer limites entre o trabalho e a vida pessoal. Criar momentos reais de desconexão faz diferença para a saúde mental. Na vida profissional, sempre que possível, vale investir em resolução de conflitos menos desgastantes, como a mediação e a conciliação. Fora do trabalho, é fundamental cultivar atividades que tragam prazer e permitam que a mente experimente outras vivências, como praticar esportes, dedicar-se à arte, conviver com a família e os amigos ou simplesmente reservar um tempo para o autocuidado. O cérebro precisa descansar para continuar produzindo bem. Cuidar da saúde mental não reduz a produtividade; pelo contrário, permite que ela seja sustentável ao longo da vida.
Não existe uma fórmula única, porque cada pessoa tem uma história, uma realidade, uma cultura e uma forma diferente de lidar com o sofrimento. O mais importante é acolher sem julgamento e demonstrar disponibilidade para ouvir. Expressões como "Isso é falta de força de vontade", "Você precisa reagir" ou "Tem gente em situação pior" costumam aumentar o sofrimento de quem já está fragilizado. Em vez disso, vale dizer: "Estou aqui para você", "Você não precisa enfrentar isso sozinho" ou "Vamos procurar ajuda juntos". Escutar com respeito, muitas vezes, já representa um grande apoio.
O que muda para as empresas com a inclusão pelo Ministério do Trabalho dos riscos psicossociais na Norma Regulamentadora (NR-1), que estabelece as regras gerais de Segurança e Saúde?
A principal mudança é que a saúde mental deixa de ser apenas uma preocupação ética e passa a integrar, de forma mais clara, a gestão dos riscos ocupacionais. As empresas precisarão identificar fatores do ambiente de trabalho que possam contribuir para o adoecimento psicológico, como excesso de cobrança, metas abusivas, conflitos constantes, assédios e jornadas excessivas. Essa mudança não deve ser vista apenas como obrigação legal. A experiência internacional mostra que investir em saúde mental melhora o clima organizacional, reduz o absenteísmo, aumenta o engajamento das equipes e amplia os resultados da empresa. Cuidar das pessoas também é uma estratégia de gestão.
A senhora escreveu os livros "Estresse em Advogados" e "Advogar sem Adoecer". Por que a rotina da advocacia apresenta índices tão elevados de estresse e burnout?
A advocacia reúne vários fatores que favorecem o estresse crônico. O advogado trabalha sob prazos rigorosos, administra grande volume de processos e, ao mesmo tempo, carrega uma responsabilidade que muitas vezes extrapola sua capacidade de controle. O cliente costuma atribuir ao advogado toda a responsabilidade pelo resultado da causa, embora a decisão final dependa do Judiciário. Além disso, em muitos casos, a remuneração do profissional está diretamente ligada ao sucesso da demanda. Essa combinação de pressão externa, autocobrança, insegurança financeira e dificuldade para desligar do trabalho faz com que muitos advogados permaneçam mentalmente conectados aos processos durante o dia, à noite e até nos fins de semana. É exatamente esse cenário que favorece o desenvolvimento do estresse crônico e do burnout.
Que hábito simples um profissional submetido a muita pressão pode adotar para proteger a saúde mental?
O primeiro passo é aprender a estabelecer limites entre o trabalho e a vida pessoal. Criar momentos reais de desconexão faz diferença para a saúde mental. Na vida profissional, sempre que possível, vale investir em resolução de conflitos menos desgastantes, como a mediação e a conciliação. Fora do trabalho, é fundamental cultivar atividades que tragam prazer e permitam que a mente experimente outras vivências, como praticar esportes, dedicar-se à arte, conviver com a família e os amigos ou simplesmente reservar um tempo para o autocuidado. O cérebro precisa descansar para continuar produzindo bem. Cuidar da saúde mental não reduz a produtividade; pelo contrário, permite que ela seja sustentável ao longo da vida.
Colaboração de Claudia Villas Boas
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