Publicado 07/01/2026 00:00
A esquerda é tão criativa que inventou duas expressões-máscara para melhor oprimir quem a ela não se submete por vontade própria: “lugar de fala” e “combate a atos antidemocráticos”. Soam bem, parecem virtudes, mas funcionam como triagem partidária: quem passa, pode falar; quem não passa, tem que apanhar.
PublicidadeO “lugar de fala” se vende como convite à humildade de escutar quem sofreu, mas na prática acaba sendo coisa bem outra: você não pode falar se não é do grupo certo. Em vez de ordenar o debate pelo melhor argumento, pressupondo capacidade mínimo de um colocar-se no lugar do outro, ordena tudo pela narrativa cujo gênero é uma espécie de biografia em que heroísmo é fazer parte de algum grupo carimbado pelas esquerdas como digno de suporte, não necessariamente por vencer obstáculos aparentemente insuperáveis, nem por sofrer ou poder vir a sofrer opressão, mas por sua história ajudar a fortalecer um certo projeto político.
Daí, quando aparece alguém de fora dos grupos seletos, e que lutou e venceu, ou que realmente sofreu muito, o mecanismo falha por completo. Esses dias, em todo o mundo, venezuelanos se mobilizaram depois da captura de Maduro. Para quem fugiu do regime, isso tudo não é “geopolítica”, é parte da vida. Dias depois, a turma certa do “lugar de fala” exclusivo apareceu com bandeira e estética revolucionária para defender Maduro. Em Florianópolis, por exemplo, um venezuelano inconformado protestou contra o protesto, e foi expulso sob ameaça de violência. O sofrimento dele é inconveniente porque não tem o carimbo ideológico correto.
Já o “combate ao antidemocratismo” é a versão togada do mesmo impulso. É um rótulo elástico, que se adapta ao inimigo do momento. O sujeito protesta sem a menor chance concreta de derrubar coisa alguma, mas a canetada resolve chamando tudo de ameaça existencial à democracia. Enquanto isso, atos em defesa de ditaduras estrangeiras circulam com tranquilidade.
A moral de duas caras é escancarada. O deputado Nikolas Ferreira virou alvo de representação à PGR por postar meme gerado por IA com Lula “preso por agentes americanos”. Um meme, note-se. Piada, com seus defeitos e sua grosseria, esse gênero literário que não derruba nem síndico de condomínio.
Agora compare com o álbum de “arte e crítica política” que já foi aplaudido: coletivo fazendo futebol com réplica da cabeça de Bolsonaro como bola, em nome da “intervenção artística”. Teve cartaz de festival retratando o presidente como “Bozo” empalado, sob a justificativa de que “é só sátira”. Quando o humor mira a direita, é liberdade; quando mira a esquerda, é crime em potencial. Aí o Estado descobre, de repente, que possui sentimentos.
No fim, a coisa toda é simples demais para merecer teoria. “Lugar de fala” serve para calar quem atrapalha. “Ato antidemocrático” serve para punir quem insiste em pensar e, sobretudo, no inconveniente de dizer o que pensa, em vez de repetir o que o ditador gente boa autorizou.
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