Publicado 21/01/2026 00:00
O que passa por discussão pública no Brasil hoje parece menos um encontro de consciências do que uma esquete de comédia. Cada um entra em cena já caracterizado, recita sua deixa, colhe os risos, aplausos e protestos da plateia e sai. Ninguém escuta ninguém. Ninguém quer escutar nada. O que houve?
PublicidadeUm dos problemas é confundir quem fala com firmeza, quem simula "autoridade", com inteligência genuína. Ter opinião forte e estar certo são coisas radicalmente distintas. Opinião é o item mais democrático do mundo: não custa nada, dispensa talento, todo mundo tem. Inteligência, razão, pensamento exigem a disposição para errar, recuar, reformular. Exige, sobretudo, a humildade de admitir que talvez o outro tenha razão, ou ao menos parte dela. Essa humildade desapareceu, sumiu, se escafedeu.
Quando duas pessoas conversam de verdade, há um movimento duplo em que cada uma tenta expor seu ponto com clareza, mas também se esforça para compreender o ponto de vista alheio. É tipo jogar tênis, a bola vai e volta. Agora preste atenção nas conversas nos bares, nos cafés e nas redes sociais. São monólogos simultâneos. Um põe na mesa sua opinião, cheio de autoridade, e o outro, por sua vez, fala com a mesma autoridade sem ter ouvido direito o primeiro, e a torcida comemora ou vaia, com o algoritmo registrando o engajamento de todos, para que todos saiam convencidos de que venceram. Mas venceram quem, se não havia chance de errar e voltar atrás, se não dava para aprender qualquer coisa?
As raízes tecnológicas da degradação são as seguintes: as plataformas digitais foram desenhadas para viciar. Cada postagem é um estímulo, cada notificação uma recompensa. O cérebro humano, esse pobre órgão de design paleolítico, talvez não esteja preparado para resistir. Daí que consumimos informação como quem come salgadinho, bem rápido, em grande quantidade, e sem mastigar direito.
Mas a tecnologia sozinha não explica tudo. Há cumplicidade. As escolas e universidades, que deveriam ser trincheiras do rigor intelectual, renderam-se ao partidarismo, ao jargão, à militância. Os professores agora dizem o que é bonito pensar, sem ensinar como pensar. Também pudera — ninguém ensina o que não sabe.
Os jornalistas de antigamente ao menos fingiam buscar a verdade. Agora são assessores. Publicam para inflamar, para apoiar, para destruir, para causar. Escolhem a versão antes de apurar, e a apuração é advocacia do lado previamente escolhido.
Quando surge uma polêmica qualquer, a reação imediata não é perguntar "o que de fato aconteceu?", mas sim "isso favorece meu bolso, ou não? faz bem ao meu campo ou ao do adversário?". A informação é instrumentalizada como munição numa guerra que ninguém sabe bem por que está travando, mas que todos concordam em não abandonar, porque abandonar seria admitir que perdeu-se tempo.
Outro fenômeno vivido democraticamente neste país é o da autocensura. Mais sutil e mais corrosiva, atinge quem pensa sozinho, no silêncio do próprio quarto. Pensar dá medo. Medo de contrariar o grupo, de ser expulso da tribo, de perder prestígio, seguidor, cargo, emprego. Medo que não precisa ser consciente para ser eficaz. Vai sobrar uma geração inteira que não distingue mais cautela legítima de covardia moral.
O vasto vocabulário e a riqueza sintática já não fazem mais parte das nossas aspirações. Não se sabe mais descrever um fato objetivo, contar uma história real, ou manifestar uma discordância. Ficou só "fascista", "comunista", "golpista", e outros "-ista". E todos sabemos que com esses tipos não se dialoga; afasta-se ou extermina-se.
Nunca houve tanta informação disponível, e nunca fomos tão ignorantes. Perdeu-se a disposição para ver as coisas como as coisas são. Vivemos dentro de uma caverna digital, onde as sombras projetadas são até mais luminosas do que a luz lá fora.
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