Publicado 04/02/2026 00:00
Dizem uns doutores que o brasileiro não sabe votar, que vota por obrigação, em quem paga mais, sempre alheio aos destinos da Pátria. Se você pensa isso, doutor, faça-me um favor: desça à rua. Pare num balcão de padaria, num banco de praça, numa fila qualquer, e verá que o Brasil é tema tão constante quanto o clima. E não é conversa fiada. O povo tem um bom senso mais aguçado que o de muito sociólogo. Ele discute, opina e se indigna porque procura, desesperadamente, uma voz que traduza em atos o que ele sente na alma.
PublicidadeE se o voto fosse só “boca de urna” e favorzinho local, ninguém se daria ao trabalho de atacar o voto de opinião, aquele em que o eleitor escolhe por afinidade de valores e por visão de país, e não por promessa de favor. Desde 2018, goste-se ou não, o voto ideológico e nacional tem pesado mais do que o pragmatismo de quarteirão. O eleitor cobra vereador e prefeito pelo asfalto; mas, para legislar e governar Estado e União, prefere quem tenha norte, alguém que saiba por que faz obras e a quem elas servem.
Em 2026, o choque não será entre siglas, mas entre dois modos de existir. De um lado, as “Pessoas de Qualquer Lugar” (os anywheres de David Goodhart), uma casta tecnocrática de seminário com coffee break, fluente em ONGs e mercado, que trata o Brasil como ativo de carteira, próspero para poucos e indiferente ao resto. Do outro, as “Pessoas de Algum Lugar” (somewheres): gente com raízes, bairro, paróquia e ofício, para quem a economia é o pão de amanhã e segurança é condição de vida.
É em defesa dessa maioria enraizada que surge o que alguns chamam, com desdém, de “populismo”. Para mim, o nacional-populismo é, antes de tudo, o instinto de autopreservação que aparece quando o povo percebe que a democracia exige um “nós”, e que, sem identidade compartilhada, sem o afeto pelo que é nosso, a oikofilia de Roger Scruton, não há confiança mútua. Ninguém se sacrifica por uma planilha, mas muitos se sacrificam por uma pátria.
Erro comum é supor que esse impulso pede um parlamentarismo anglófilo, de modelo distrital, no qual o poder se dissolve entre oligarquias, lobbies e comissões. Nossa tradição é outra: ibérica, católica, organicista. Para nós, o localismo é vital, é no município que a vida acontece, mas, para o local florescer, o nacional precisa de força e unidade, de exemplo e continuidade.
A história ensina, com teimosia pedagógica, que o parlamentarismo puro, sem chefia forte, sempre nos soou estranho. O brasileiro desconfia do “primeiro-ministro” refém do balcão e do toma-lá-dá-cá. Isso não é desprezo do Congresso: o Parlamento é o lugar do debate. Mas a Chefia de Estado é o lugar da mais alta liderança, das grandes decisões e do maior exemplo.
Pedro II, nosso maior estadista, via-se como o primeiro cidadão, o primeiro voluntário. Ninguém, à esquerda ou à direita, ousaria chamá-lo de corrupto. E a lição dos conservadores do Império, os saquaremas, continua atual: a liberdade não nasce do caos, porque é filha da ordem.
Hoje, o nosso dinossauro cartorial sufoca o cidadão com regras absurdas, controlando até se a gema do ovo pode ou não ser mole, ao mesmo tempo em que perde território, dentro das próprias fronteiras, para facções criminosas. O povo sente que precisa de um líder forte justamente para quebrar as correntes dessa máquina e devolver liberdade e segurança às famílias e aos empreendedores.
Diante das urnas, convém desconfiar tanto da “picanha e cerveja” quanto dos “gestores eficientes” que prometem administrar o Brasil como uma multinacional. O Brasil não precisa de gerente. Povo não é funcionário, é dono. Nas esquinas e no voto, busca-se uma liderança com cultura, coragem e virtude para dizer “não” às agendas globais que nos desprezam e “sim” ao Brasil real que estuda, trabalha e reza.
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