Publicado 01/04/2026 00:00
O Rio de Janeiro é Capital Mundial do Livro em 2025, título concedido pela UNESCO, o primeiro a uma cidade de língua portuguesa. Tive a honra de inscrever a candidatura quando presidi a Biblioteca Nacional, e o reconhecimento é merecido: o Rio abriga a Academia Brasileira de Letras, a Biblioteca Nacional, o Real Gabinete Português de Leitura e a Bienal do Livro. Tem universidades de peso, livrarias tradicionais, editoras históricas e uma tradição verbal que ainda se percebe nas conversas de botequim e nas crônicas de jornal.
Nenhuma cidade brasileira produziu tantos escritores de primeira linha. Foi no Rio que floresceram Machado de Assis, Lima Barreto, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond, Vinícius, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector. A própria Biblioteca Nacional foi, durante gerações, um centro de gravidade intelectual por cujos corredores passaram Ramiz Galvão, Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia, Josué Montello, Afonso Arinos. E são só alguns exemplos.
Tudo isso, porém, pertence a uma fatia da cidade. A vanguarda literária carioca sempre foi coisa de certa elite letrada. A maioria fica de fora, como mostram os números.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) revelou que apenas 47% dos brasileiros leram ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. É a primeira vez, desde 2007, que os não leitores superam os leitores. Em nove anos, o país perdeu mais de 11 milhões de leitores. Se considerarmos apenas livros inteiros lidos, o número cai para 27%. Até entre os bons leitores a média caiu de 5,04 para 4,36 livros.
Aposto que tem menos livro dentro de casa. Se tem, é decorativo.
Um estudo conduzido por Evans, Kelley, Sikora e Treiman em 2010, com mais de 70 mil participantes de 27 países, estimou que crianças criadas entre livros acumulam cerca de três anos a mais de escolaridade do que crianças de lares sem livros, mesmo com controle de educação e classe dos pais. Já Sikora, Evans e Kelley, em 2019, a partir de dados do programa PIAAC da OCDE em 31 sociedades, mostraram que a biblioteca doméstica na adolescência se associa, na vida adulta, a melhores habilidades de leitura, cálculo e resolução de problemas digitais, para além da educação formal.
No Brasil, o ensaio clínico de Weisleder e colegas feito em 2018, com 566 famílias de baixa renda, demonstrou que a leitura em voz alta elevou o QI das crianças à média populacional. A meta-análise de Protzko, de 2013, confirmou que ensinar pais a ler de forma interativa com os filhos eleva o QI em mais de seis pontos.
Livros à disposição e ler regularmente se associam, portanto, a resultados concretos.
O Rio tem todas as condições para liderar um reavivamento. Não falo de uma campanha burocrática, dessas que produzem fotos e relatórios, mas de um movimento popular de estudo continuado ao longo da vida, de estudos dos clássicos da literatura, da filosofia, da história. Ninguém defende que só atletas profissionais devam se exercitar, nem que só nutricionistas devam comer bem. Do mesmo modo, ler, estudar e debater não deveria ser privilégio de professor ou especialista. É necessidade humana básica a que todos deveriam se dedicar.
Num momento em que a atenção é disputada como nunca, em que vivemos entre textos robóticos e vídeos curtos, selecionar informação, escolher o que ler, disciplinar-se com listas, dias e horários e cultivar convivência intelectual é o novo luxo. Circula mais informação num único dia de Instagram do que em todos os jornais, livros e revistas depositados na Biblioteca Nacional ao longo de dois séculos. A diferença é que, num caso, a maior parte é lixo; no outro, há tesouro a ser descoberto. A verdadeira capital do livro é a que honra seu título voltando a formar leitores.
PublicidadeNenhuma cidade brasileira produziu tantos escritores de primeira linha. Foi no Rio que floresceram Machado de Assis, Lima Barreto, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond, Vinícius, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector. A própria Biblioteca Nacional foi, durante gerações, um centro de gravidade intelectual por cujos corredores passaram Ramiz Galvão, Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia, Josué Montello, Afonso Arinos. E são só alguns exemplos.
Tudo isso, porém, pertence a uma fatia da cidade. A vanguarda literária carioca sempre foi coisa de certa elite letrada. A maioria fica de fora, como mostram os números.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) revelou que apenas 47% dos brasileiros leram ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. É a primeira vez, desde 2007, que os não leitores superam os leitores. Em nove anos, o país perdeu mais de 11 milhões de leitores. Se considerarmos apenas livros inteiros lidos, o número cai para 27%. Até entre os bons leitores a média caiu de 5,04 para 4,36 livros.
Aposto que tem menos livro dentro de casa. Se tem, é decorativo.
Um estudo conduzido por Evans, Kelley, Sikora e Treiman em 2010, com mais de 70 mil participantes de 27 países, estimou que crianças criadas entre livros acumulam cerca de três anos a mais de escolaridade do que crianças de lares sem livros, mesmo com controle de educação e classe dos pais. Já Sikora, Evans e Kelley, em 2019, a partir de dados do programa PIAAC da OCDE em 31 sociedades, mostraram que a biblioteca doméstica na adolescência se associa, na vida adulta, a melhores habilidades de leitura, cálculo e resolução de problemas digitais, para além da educação formal.
No Brasil, o ensaio clínico de Weisleder e colegas feito em 2018, com 566 famílias de baixa renda, demonstrou que a leitura em voz alta elevou o QI das crianças à média populacional. A meta-análise de Protzko, de 2013, confirmou que ensinar pais a ler de forma interativa com os filhos eleva o QI em mais de seis pontos.
Livros à disposição e ler regularmente se associam, portanto, a resultados concretos.
O Rio tem todas as condições para liderar um reavivamento. Não falo de uma campanha burocrática, dessas que produzem fotos e relatórios, mas de um movimento popular de estudo continuado ao longo da vida, de estudos dos clássicos da literatura, da filosofia, da história. Ninguém defende que só atletas profissionais devam se exercitar, nem que só nutricionistas devam comer bem. Do mesmo modo, ler, estudar e debater não deveria ser privilégio de professor ou especialista. É necessidade humana básica a que todos deveriam se dedicar.
Num momento em que a atenção é disputada como nunca, em que vivemos entre textos robóticos e vídeos curtos, selecionar informação, escolher o que ler, disciplinar-se com listas, dias e horários e cultivar convivência intelectual é o novo luxo. Circula mais informação num único dia de Instagram do que em todos os jornais, livros e revistas depositados na Biblioteca Nacional ao longo de dois séculos. A diferença é que, num caso, a maior parte é lixo; no outro, há tesouro a ser descoberto. A verdadeira capital do livro é a que honra seu título voltando a formar leitores.
Rafael Nogueira é historiador, Filósofo, Mestre em Direito e doutorando em Ciência Política
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