Publicado 08/04/2026 00:00
A última década brasileira foi uma coleção de sobressaltos. Colapso de prestígios, ascensão de novos líderes, recuos humilhantes, judicialização da política, guerra digital e, agora, a revolução tecnológica que promete redesenhar inteligência, trabalho e vida social. Mas houve um fio condutor: a luta entre energia moral e sobrevivência burocrática, entre imaginação política e administração do medo, entre um país que queria reencontrar o seu caminho e um sistema que só tinha mapas para fora dele.
O Brasil nasceu como continuação de um projeto civilizacional português, reforçado pela transferência da corte, pela centralização política e pela construção de uma unidade que nos poupou do rio de sangue que precedeu a formação das nações hispano-americanas. A Proclamação da República rompeu esse fio. Apagou símbolos, desmontou mediações, substituiu maturação institucional por oligarquia e fragmentação.
Daí veio a amnésia da Nova República que prometeu liberdade e cidadania, e entregou ideologia, centrão e teatro de democracia, para esquecermos do que vemos com os olhos e ouvimos com os ouvidos a fim de entendermos o mundo pelo que certos iluminados nos informam.
Em 2018, o que muitos tomaram por acidente eleitoral foi a irrupção de uma nova linguagem e de uma nova energia histórica. A internet abriu uma comunicação sem intermediários, improvisada, tosca, mas viva. Era a ruptura digital.
Dela nasceu o "herói moral", cuja força não vinha de partido nem de conchavo, mas da capacidade de ouvir e encarnar multidões até então tratadas como massa inerme. O bolsonarismo foi, naquele momento, menos máquina do que emoção, representando a política que volta a ser drama, conflito, promessa de grandes dias.
Quando o movimento passou a se enxergar como ativo consolidado, acabou batendo a cabeça na parede. Na pandemia, algum conselheiro concluiu que a base moral estava garantida e que o esforço deveria concentrar-se na conquista do eleitorado adversário por assistencialismo e linguagem convencional.
Sem nutrição simbólica, as convicções secam. O centrão ganhou espaço, a comunicação perdeu o que tinha de mais autêntico, e, dali em diante, o capital simbólico entrou em liquidação.
A derrota de 2022 confirmou a ferida. E foi assim que a direita se dispersou, perdendo centro, unidade, e impulso. Seu líder caminhou para o cerco cada vez mais estreito dos adversários. Enquanto isso, a revolução tecnológica avançava, tornando ainda mais urgente a pergunta que nenhum recuo tático seria capaz de responder: que país queremos ser quando o algoritmo já tiver redesenhado a atenção, o emprego, os vínculos e a vida cotidiana de milhões de brasileiros?
É nesse ponto que o nome de Flávio Bolsonaro passa a ter relevância. Ele não encarna uma repetição do pai, nem um sucedâneo mais polido do mesmo fenômeno, mas representa, em tese, uma passagem da energia bruta de 2018 a uma forma mais estável e mais consequente de força. Se houver inteligência nesse processo, o impulso original não será apagado.
Flávio não precisa posar como remodelador da direita. Basta compreender que uma força política dessa magnitude não sobrevive de fria administração, medo jurídico excessivo ou puro cálculo parlamentar, porque precisa de linguagem, de direção, de densidade e laço real com a vida das pessoas. Precisa saber tratar de escola, trabalho, segurança e tecnologia sem abandonar o sentimento moral que lhe deu origem.
Se a direita quiser deixar de ser sobressalto e vir a ser projeto de país, terá de reencontrar essa síntese. O Brasil já provou que sabe romper. Falta provar que sabe persistir.
PublicidadeO Brasil nasceu como continuação de um projeto civilizacional português, reforçado pela transferência da corte, pela centralização política e pela construção de uma unidade que nos poupou do rio de sangue que precedeu a formação das nações hispano-americanas. A Proclamação da República rompeu esse fio. Apagou símbolos, desmontou mediações, substituiu maturação institucional por oligarquia e fragmentação.
Daí veio a amnésia da Nova República que prometeu liberdade e cidadania, e entregou ideologia, centrão e teatro de democracia, para esquecermos do que vemos com os olhos e ouvimos com os ouvidos a fim de entendermos o mundo pelo que certos iluminados nos informam.
Em 2018, o que muitos tomaram por acidente eleitoral foi a irrupção de uma nova linguagem e de uma nova energia histórica. A internet abriu uma comunicação sem intermediários, improvisada, tosca, mas viva. Era a ruptura digital.
Dela nasceu o "herói moral", cuja força não vinha de partido nem de conchavo, mas da capacidade de ouvir e encarnar multidões até então tratadas como massa inerme. O bolsonarismo foi, naquele momento, menos máquina do que emoção, representando a política que volta a ser drama, conflito, promessa de grandes dias.
Quando o movimento passou a se enxergar como ativo consolidado, acabou batendo a cabeça na parede. Na pandemia, algum conselheiro concluiu que a base moral estava garantida e que o esforço deveria concentrar-se na conquista do eleitorado adversário por assistencialismo e linguagem convencional.
Sem nutrição simbólica, as convicções secam. O centrão ganhou espaço, a comunicação perdeu o que tinha de mais autêntico, e, dali em diante, o capital simbólico entrou em liquidação.
A derrota de 2022 confirmou a ferida. E foi assim que a direita se dispersou, perdendo centro, unidade, e impulso. Seu líder caminhou para o cerco cada vez mais estreito dos adversários. Enquanto isso, a revolução tecnológica avançava, tornando ainda mais urgente a pergunta que nenhum recuo tático seria capaz de responder: que país queremos ser quando o algoritmo já tiver redesenhado a atenção, o emprego, os vínculos e a vida cotidiana de milhões de brasileiros?
É nesse ponto que o nome de Flávio Bolsonaro passa a ter relevância. Ele não encarna uma repetição do pai, nem um sucedâneo mais polido do mesmo fenômeno, mas representa, em tese, uma passagem da energia bruta de 2018 a uma forma mais estável e mais consequente de força. Se houver inteligência nesse processo, o impulso original não será apagado.
Flávio não precisa posar como remodelador da direita. Basta compreender que uma força política dessa magnitude não sobrevive de fria administração, medo jurídico excessivo ou puro cálculo parlamentar, porque precisa de linguagem, de direção, de densidade e laço real com a vida das pessoas. Precisa saber tratar de escola, trabalho, segurança e tecnologia sem abandonar o sentimento moral que lhe deu origem.
Se a direita quiser deixar de ser sobressalto e vir a ser projeto de país, terá de reencontrar essa síntese. O Brasil já provou que sabe romper. Falta provar que sabe persistir.
Rafael Nogueira é historiador, Filósofo, Mestre em Direito e doutorando em Ciência Política
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